QUANDO A ESPERANÇA ADOECE, CUIDAR DA VIDA TAMBÉM É FÉ

Por que você está abatida, ó minha alma? Por que se perturba dentro de mim? Espere em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu.” Salmos 42:5 (NAA).

Há pessoas que deixam de cuidar da saúde por medo de médico, falta de tempo ou receio de descobrir alguma doença. Mas existe também uma situação mais silenciosa. Depois de muitas perdas, frustrações, solidão ou longos períodos de tristeza, algumas pessoas começam a perder não apenas a alegria, mas também a vontade de cuidar da própria vida.

Elas não dizem necessariamente que querem morrer. Continuam trabalhando, conversando com a família, indo à igreja e cumprindo suas tarefas. Entretanto, por dentro, alguma coisa mudou. Sabem que precisam controlar a pressão, fazer um exame, tomar corretamente um medicamento ou investigar um sintoma, mas sempre deixam para depois. Às vezes, por trás dessa negligência existe uma pergunta que nunca foi pronunciada: “Será que ainda vale a pena cuidar de mim?”

A Bíblia mostra que pessoas de fé também podem atravessar períodos de profundo abatimento. Elias, depois de uma grande vitória no monte Carmelo, recebeu uma ameaça de Jezabel, teve medo, fugiu para o deserto e chegou ao limite de suas forças. Debaixo de uma árvore, declarou: “Basta, Senhor! Tira a minha vida.” 1 Reis 19:4 (NAA). A Bíblia não nos autoriza a afirmar que Elias estivesse sofrendo de depressão no sentido clínico moderno, porque o texto não faz esse diagnóstico. O que ela deixa claro, porém, é que naquele momento ele estava profundamente exausto, assustado e tão abatido que já não desejava continuar vivendo.

A maneira como Deus cuidou dele é muito significativa. O Senhor não começou com uma longa repreensão. Elias dormiu, recebeu alimento e água, descansou novamente e tornou a comer. Depois, Deus tratou de outras questões e mostrou que sua história ainda não havia terminado. Elias precisava ouvir a voz de Deus, mas também precisava dormir e se alimentar. Precisava de direção espiritual, mas seu corpo igualmente necessitava de cuidado.

Isso nos ensina algo muito simples: oração e cuidado com a saúde não são inimigos. Procurar um médico não demonstra falta de fé. Fazer um exame não significa confiar menos em Deus. Tomar corretamente uma medicação, quando prescrita, não diminui nossa dependência do Senhor. Da mesma forma, buscar ajuda de um psicólogo ou psiquiatra quando necessário não significa abandonar a vida espiritual. Podemos orar por uma pessoa e acompanhá-la ao médico. Podemos pedir a cura e, ao mesmo tempo, utilizar com gratidão os recursos que Deus permite que estejam disponíveis.

Imagine uma senhora que perdeu o marido depois de cinquenta anos de casamento. Antes, cuidava da saúde porque desejava estar bem para viver ao lado dele. Depois da perda, começou a dizer: “Para que fazer tantos exames?” Ou pense em alguém que se aposentou, viu os filhos saírem de casa e começou a sentir que seus dias já não têm tanta utilidade. Há também quem enfrente uma doença crônica e, depois de tantas consultas e tratamentos, esteja simplesmente cansado. Essas pessoas talvez não precisem primeiro de cobrança. Precisam ser lembradas de que a vida delas continua tendo valor.

Paulo escreveu: “Será que vocês não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo, que está em vocês e que vocês receberam de Deus, e que vocês não pertencem a vocês mesmos?” 1 Coríntios 6:19 (NAA). O contexto imediato fala de santidade sexual, mas o princípio permanece importante: nosso corpo não é algo sem valor. Também pertencemos ao Senhor corporalmente.

Por isso, marcar uma consulta, fazer um exame preventivo, melhorar a alimentação, descansar adequadamente ou aceitar um tratamento pode ser também uma forma de dizer: “Senhor, agradeço pela vida que recebi de Ti e quero cuidar dela enquanto estiver sob minha responsabilidade.” Cuidar-se não significa pensar que nunca morreremos; significa não desprezar os dias que Deus ainda nos concede.

O salmista estava abatido, mas falou à própria alma: “Espere em Deus, pois ainda o louvarei.” Salmos 42:5 (NAA). Existe uma palavra preciosa aí: ainda. Ainda haverá louvor. Ainda haverá abraços. Ainda haverá alguém precisando de uma palavra nossa. Ainda podemos aprender, ensinar, amar, pedir perdão, perdoar, servir e fazer diferença na vida de alguém.

Talvez, para alguém, a palavra de hoje seja muito prática: vá ao médico, faça o exame, aceite ajuda, tome corretamente sua medicação e cuide de você. E, se o problema estiver também na alma, não esconda. Converse com alguém de confiança e procure acompanhamento profissional. Se alguém disser que não deseja mais viver ou estiver em risco, isso deve ser levado a sério e requer ajuda imediata.

Elias achou que havia chegado ao fim, mas Deus ainda tinha caminho para ele. Talvez hoje você não consiga enxergar muito longe. Não precisa enxergar. Cuide do dia que está diante de você. Há momentos em que continuar vivendo começa com coisas muito simples: levantar-se, alimentar-se, pedir ajuda, marcar uma consulta e permitir que alguém caminhe ao nosso lado.

Quando a esperança adoece, até cuidar da própria vida pode parecer sem sentido; mas, quando Deus reacende em nós a esperança do amanhã, cuidar do corpo e aceitar ajuda tornam-se também maneiras de agradecer a Ele pela vida que ainda nos concede.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

24/set/26

 

ENTRE AS MÃOS, OS PÉS E A PALAVRA DE DEUS

“Na verdade, amas os povos; todos os teus santos estão na tua mão; postos serão no meio, entre os teus pés, cada um receberá das tuas palavras.” Deuteronômio 33:3 (ARC).

O nosso texto básico, Deuteronômio 33:3, faz parte da bênção que Moisés deu aos filhos de Israel antes de sua morte e nos apresenta uma bela sequência sobre a relação de Deus com Seu povo.

Ele inicia falando do grande amor de Deus pelo povo, amor que se estende incondicionalmente hoje à Sua igreja. “Na verdade, amas os povos” —disse Moisés.

Na verdade, tudo começa no amor de Deus. A Igreja não existe porque decidiu procurar Deus primeiro, mas porque foi alcançada por Seu infinito amor. Antes de haver serviço, adoração, conhecimento ou caminhada, existe o amor divino.

Não uso este espaço para falar de placa de igreja nem de denominação; falo da Igreja fiel do Senhor Jesus. Somos povo de Deus porque Ele nos amou, nos chamou e nos separou para Si. Isso também impede qualquer sentimento de superioridade espiritual: se estamos perto dEle, é única e exclusivamente pela graça.

A Igreja que compreende o quanto é amada aprende também a amar. O amor que recebe de Deus precisa transbordar para os irmãos, para os necessitados e para aqueles que ainda não conhecem Cristo. Nós amamos porque ele nos amou primeiro.” 1 João 4:19 (NAA).

Em um segundo momento, o versículo nos mostra que aquele que pertence a Deus está seguro: “todos os teus santos estão na tua mão”. Estar nas mãos de Deus fala de cuidado, proteção, direção e pertencimento.

A Igreja atravessa crises, perseguições, enfermidades, perdas e momentos em que não consegue compreender o que está acontecendo, mas jamais está abandonada.

Jesus utiliza uma imagem semelhante quando fala das Suas ovelhas: ninguém pode arrancá-las de Sua mão (João 10:28). Isso não significa ausência de lutas; significa que nenhuma luta é capaz de nos tirar do cuidado e da soberania de Deus. Podemos perder coisas, oportunidades e até pessoas queridas, mas continuamos sustentados pela mão dEle. O mundo pode parecer inseguro, mas o lugar da Igreja continua seguro: nas mãos de Deus.

Dando prosseguimento ao que Moisés disse ao povo, encontramos a imagem de uma Igreja aos pés do Senhor: “postos serão no meio, entre os teus pés”. Aqui temos uma imagem belíssima de humildade, reverência e adoração.

A Igreja que está nas mãos de Deus também precisa aprender a permanecer aos Seus pés. Aos pés do Senhor não há espaço para orgulho, competição, busca de posição ou desejo de aparecer. É lugar de submissão.

Adorar não é apenas cantar; é reconhecer: “Tu és Senhor, e eu dependo de Ti.” Talvez muitos problemas da Igreja comecem quando ela quer ocupar o lugar de destaque, quando deveria permanecer aos pés de Cristo. Quanto mais entendemos quem Ele é, menos precisamos provar quem somos. Vejam, por exemplo, Maria, que estava assentada aos pés do Senhor, ouvia o seu ensino.” Lucas 10:39 (NAA). Mais adiante, Jesus declarou: Maria escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada.” Lucas 10:42 (NAA).

Por fim, observamos uma Igreja que aprende para poder caminhar: “cada um receberá das tuas palavras. Quem permanece aos pés do Senhor precisa estar disposto a ouvir. Não basta estar perto; é preciso receber Sua Palavra. Ela corrige nossos caminhos, fortalece nossa fé, mostra o perigo e revela a vontade de Deus. Como diz o salmista, a Palavra é lâmpada para os pés e luz para o caminho, Salmo (119:105).

Observe a ordem das bênçãos que decorrem da presença do Senhor: primeiro, Deus ama; depois, guarda os Seus em Sua mão; então, Seu povo se coloca aos Seus pés; finalmente, recebe Suas palavras.

Em uma sequência gloriosa, vemos o amor a nos alcançar, a mão a nos sustentar, os pés a nos ensinar humildade e a Palavra a nos mostrar por onde caminhar. São esses os quatro lugares espirituais em que a verdadeira Igreja vive: no amor de Deus, em Suas mãos, aos Seus pés e à luz de Sua Palavra.

A verdadeira segurança da Igreja está em ser alcançada pelo amor de Deus, sustentada por Suas mãos, ensinada aos Seus pés e conduzida pela luz de Sua Palavra.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

23/set/26

 

MORRER COM A CURA AO ALCANCE

“Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.” Romanos 6:23 (NAA).

Imagine alguém recebendo um diagnóstico terrível. Depois de vários exames, o médico lhe diz que existe em seu organismo uma doença fatal e que, se nada for feito, o resultado será inevitavelmente a morte. Essa notícia mudaria completamente sua maneira de olhar para a vida.

Há, porém, um mal ainda mais profundo, invisível aos olhos e absolutamente mortal. A ciência nunca encontrou, e jamais encontrará, um medicamento capaz de vencê-lo, porque não se trata de uma enfermidade do corpo. A Bíblia dá a esse mal um nome: pecado.

Esse é um problema que alcança todas as pessoas, sem distinção de idade, cultura, condição financeira ou posição social. A Bíblia declara: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” Romanos 3:23 (NAA).

O pecado não é apenas cometer alguns erros ou possuir certas fraquezas. Ele nos separa de Deus e produz uma consequência que não conseguimos resolver por nós mesmos. Ninguém pode olhar para outra pessoa e dizer: “Ela precisa de salvação, mas eu não.” Todos recebemos o mesmo diagnóstico.

Se a história terminasse aqui, nossa situação seria desesperadora. Mas justamente aqui começa a beleza do Evangelho: Deus não apenas revelou a doença; Ele providenciou a cura. Ele poderia simplesmente nos mostrar nossa condição e anunciar a consequência do pecado. Porém, em Seu amor e misericórdia, fez muito mais. Deus providenciou aquilo que nós jamais conseguiríamos produzir.

Romanos 6:23 apresenta as duas realidades na mesma frase. Primeiro vem o diagnóstico: “o salário do pecado é a morte”. Depois vem a maravilhosa notícia: “mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus”. A pequena palavra “mas” muda completamente o destino daquele que crê. O pecado trouxe a morte, mas Deus ofereceu vida. Estávamos condenados, mas Deus providenciou salvação.

E quanto custou esse remédio? Para nós, nada; para Deus, custou Seu próprio Filho. Jesus disse: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” João 3:16 (NAA). Cristo é a resposta de Deus para aquilo que o pecado produziu.

Imagine agora que alguém receba do médico o medicamento capaz de salvar sua vida, leve-o para casa, coloque-o sobre a mesa e nunca o tome. Pode conhecer o nome do medicamento, ler sua bula, explicar como ele funciona e até recomendá-lo a outras pessoas. Mas, se continuar recusando-se a recebê-lo, todo esse conhecimento não produzirá a cura.

Algo semelhante pode acontecer espiritualmente. Há pessoas que conhecem histórias sobre Jesus, possuem uma Bíblia em casa, frequentam cultos e até sabem repetir versículos, mas nunca entregaram verdadeiramente sua vida a Ele. Saber que existe um remédio não é a mesma coisa que recebê-lo. João afirma: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” João 1:12 (NAA).

No deserto aconteceu algo que ajuda a compreender essa verdade. Em Números 21, serpentes venenosas atacaram o povo de Israel, e muitos estavam morrendo. Deus ordenou que Moisés levantasse uma serpente de bronze. Quem havia sido mordido deveria olhar para ela e viveria. O povo não conseguia retirar o veneno do próprio corpo; Deus providenciou o meio de salvação.

Séculos depois, Jesus explicou o significado daquela cena: “E assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna.” João 3:14-15 (NAA). Havia veneno, mas havia provisão. Havia morte, mas Deus oferecia vida. Quem olhava, vivia. Hoje, quem olha para Cristo com fé encontra nEle a salvação.

Chegamos, então, à parte mais triste dessa comparação: morrer recusando a cura. Jesus disse a algumas pessoas: “Contudo, vocês não querem vir a mim para ter vida.” João 5:40 (NAA). Não era porque não existisse vida. A Vida estava diante delas. O problema estava na recusa em vir a Ele.

Isso continua acontecendo em nossos dias. Muitos dizem: “Um dia pensarei nisso”, “ainda tenho muito tempo”, “não estou preparado para mudar de vida”. Enquanto isso, continuam adiando justamente aquilo que diz respeito à eternidade. É como alguém gravemente doente segurando nas mãos o medicamento capaz de salvá-lo e dizendo: “Talvez amanhã eu tome.”

O pecado é a doença que nos conduz à morte. Cristo é a cura providenciada por Deus. A graça coloca essa cura diante de nós, e a fé a recebe. A maior tragédia não é descobrir que somos pecadores, porque existe perdão para pecadores. A maior tragédia é permanecer longe de Cristo quando Deus, por Sua graça, oferece gratuitamente a vida.

O pecado trouxe a doença que conduz à morte, mas Deus colocou a cura ao nosso alcance em Cristo; a verdadeira tragédia é morrer recusando a Vida que Ele oferece gratuitamente.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

22/set/26

 

A FRASE QUE NINGUÉM QUER OUVIR DE JESUS

“Então lhes direi claramente: ‘Eu nunca conheci vocês. Afastem-se de mim, vocês que praticam o mal.’” Mateus 7:23 (NAA).

Poucas palavras de Jesus são tão fortes quanto estas: “Eu nunca conheci vocês.” Talvez, ao lê-las pela primeira vez, alguém se pergunte: Como Jesus pode dizer que não conhece uma pessoa? Deus não conhece todas as coisas? Não sabe quem somos, onde vivemos, o que pensamos e tudo o que fizemos?

É claro que sim. Deus conhece perfeitamente cada ser humano. Portanto, quando Jesus diz “Eu nunca conheci vocês”, Ele não está falando de conhecimento no sentido de informação. Não significa que aquelas pessoas eram desconhecidas para Ele. A palavra “conhecer”, nesse contexto, fala de relacionamento, comunhão e pertencimento. É como se Jesus estivesse dizendo: “Vocês falaram a Meu respeito, usaram o Meu Nome, fizeram coisas religiosas, mas nunca tiveram uma verdadeira vida comigo.”

Isso se torna ainda mais sério quando observamos o contexto. As pessoas mencionadas por Jesus não eram ateias. Elas O chamavam de “Senhor”. Algumas haviam profetizado, expulsado demônios e realizado obras impressionantes em Seu nome. Mesmo assim, Jesus mostra que atividades religiosas não substituem um relacionamento verdadeiro com Ele.

Esse alerta continua muito atual. Uma pessoa pode frequentar uma igreja durante muitos anos, conhecer hinos, participar da Ceia, ensinar uma classe bíblica, ocupar um cargo, cantar no louvor ou até pregar a Palavra e, ainda assim, precisar examinar sinceramente como está sua relação com Cristo. Podemos aprender a linguagem da igreja sem permitir que Jesus transforme nosso coração.

Hoje existe ainda outra possibilidade. Alguém pode publicar versículos todos os dias nas redes sociais, compartilhar mensagens cristãs, escrever “Deus é fiel” em suas postagens e até ser conhecido por todos como uma pessoa religiosa. Nada disso é necessariamente errado. O problema começa quando nossa aparência cristã se torna maior do que nossa comunhão com Cristo.

Paulo escreveu: Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido por ele.” 1 Coríntios 8:3 (NAA). Que expressão maravilhosa: “conhecido por Ele”. Existe uma diferença enorme entre saber muitas coisas sobre Deus e viver pertencendo a Deus. Podemos conhecer teologia, histórias bíblicas, doutrinas e versículos e, ainda assim, perder de vista Aquele para Quem toda a Escritura aponta.

Jesus apresenta essa relação de maneira muito simples quando diz: “Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem.” João 10:14 (NAA).

A ovelha pertence ao Pastor. Ela reconhece Sua voz, depende dEle e O segue. É essa relação que Jesus deseja conosco. Não uma religião mantida apenas pelas aparências, mas uma vida ligada a Ele.

Isso não significa que o verdadeiro cristão nunca erre. Pedro errou. Davi errou. Muitos homens e mulheres usados por Deus tiveram momentos de fraqueza, e a própria Bíblia não procura esconder as falhas de nenhum deles. Pelo contrário, registra seus erros para nos mostrar que a vida com Deus não é feita de perfeição humana, mas de arrependimento, restauração e graça.

A diferença é que quem pertence ao Senhor não deseja permanecer distante dEle. Quando cai, volta. Quando peca, reconhece. Quando é corrigido pela Palavra, permite que Deus trate seu coração.

Por isso, essa passagem não foi dada para nos fazer viver aterrorizados, perguntando todos os dias se Deus vai nos abandonar. Ela foi dada para nos impedir de construir uma falsa segurança baseada apenas em atividades religiosas. Nossa esperança não está em podermos dizer: “Senhor, veja tudo o que fiz para Ti.” Nossa esperança está em Cristo, em Sua graça e na transformação que acontece na vida daqueles que verdadeiramente Lhe pertencem.

Paulo escreveu também: “O Senhor conhece os que lhe pertencem.” 2 Timóteo 2:19 (NAA).

Talvez, portanto, a pergunta mais importante não seja: “As pessoas me consideram cristão?” Nem mesmo: “Há quanto tempo frequento uma igreja?” A pergunta é mais profunda: Eu pertenço verdadeiramente a Jesus?

Há uma enorme diferença entre conhecer o Nome de Jesus e caminhar com Ele; entre falar dEle e viver nEle; entre ter aparência religiosa e ter um coração transformado pela Sua presença.

Um dia estaremos diante dEle. Nesse momento, títulos, cargos, reputação, aplausos e aparência perderão todo o valor. Que não estejamos entre aqueles que tentarão apresentar suas realizações, mas entre aqueles que serão recebidos por Aquele a Quem aprenderam a amar, seguir e obedecer.

Porque a maior bênção da eternidade não será apenas podermos dizer: “Eu O conheço.” Será ouvir, pela graça, a confirmação de que somos dEle e somos conhecidos por Ele.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

21/set/26

 

AMANHÃ DE MANHÃ É SEGUNDA-FEIRA

“Jesus dizia a todos: — Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, dia a dia tome a sua cruz e siga-me.” Lucas 9:23 (NAA).

C. S. Lewis escreveu uma frase pequena, mas profundamente provocadora: “A cruz vem antes da coroa, e amanhã de manhã é segunda-feira.” À primeira vista, parece estranho colocar na mesma frase a cruz, a coroa e uma simples segunda-feira. Mas talvez seja justamente aí que esteja a beleza de seu pensamento.

A primeira parte é fácil de entender: a cruz vem antes da coroa. Foi assim com Jesus. Antes da ressurreição houve o Calvário. Antes da glória houve sofrimento, rejeição, dor e obediência. O caminho de Cristo passou pela cruz, e Ele nunca prometeu aos Seus discípulos uma vida sem dificuldades. Segui-Lo também envolve renúncia, perseverança e fidelidade, mesmo quando obedecer a Deus tem um preço.

Mas Lewis poderia ter parado na coroa. Teríamos uma bela frase sobre sofrimento presente e glória futura. Entretanto, ele acrescentou algo surpreendentemente comum: “amanhã de manhã é segunda-feira.” E a segunda-feira nos traz de volta à realidade.

Depois do culto de domingo, o despertador toca. É preciso levantar, preparar o café, pegar o ônibus, enfrentar o trânsito, abrir a loja, chegar ao escritório, cuidar dos filhos, limpar a casa, voltar à escola, resolver problemas e encontrar novamente pessoas com quem nem sempre é fácil conviver. As contas continuam chegando, o telefone toca, as mensagens se acumulam e aquela situação que nos preocupava no sábado talvez ainda esteja nos esperando. É nesse mundo comum que Jesus nos chama para carregar a cruz.

Talvez seja relativamente fácil cantar no domingo que entregamos tudo ao Senhor. O verdadeiro desafio aparece quando descobrimos, na segunda-feira, que esse “tudo” inclui também nosso temperamento, nosso orgulho, nossa língua, nossos desejos, nosso dinheiro, nosso tempo e a maneira como tratamos as pessoas.

Carregar a cruz pode acontecer quando alguém nos ofende no trabalho e decidimos não responder com a mesma agressividade. Pode acontecer quando recebemos um troco maior e o devolvemos, mesmo sabendo que ninguém perceberia. Pode acontecer quando poderíamos espalhar pelo WhatsApp uma informação que prejudicaria alguém, mas escolhemos ficar em silêncio. Pode acontecer dentro de casa, quando pedimos perdão mesmo achando difícil dar o primeiro passo.

Há cruz quando perdoamos enquanto nosso coração ainda está ferido. Há cruz quando falamos a verdade, embora uma mentira pareça facilitar nossa vida. Há cruz quando continuamos fazendo o que é certo sem receber reconhecimento. Há cruz quando ajudamos alguém que talvez nunca nos agradeça. Há cruz quando renunciamos a uma vantagem porque sabemos que ela seria injusta. Por isso Jesus colocou duas palavras importantes em Seu chamado: “dia a dia”.

A vida cristã não acontece somente em grandes decisões. Ela é construída nas pequenas escolhas que fazemos todos os dias. Não seguimos Jesus apenas durante uma pregação, uma oração emocionante ou um momento especial diante de Deus. Seguimos Jesus quando ninguém está olhando e quando nenhuma música está tocando ao fundo.

A fé do domingo precisa sobreviver à segunda-feira.

Isso não significa que nossa vida será apenas sofrimento. A frase de Lewis também fala da coroa. Existe uma esperança diante de nós. Paulo, próximo do fim de sua caminhada, pôde dizer: Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Desde agora me está guardada a coroa da justiça, que o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda.” 2 Timóteo 4:7-8 (NAA).

Paulo enxergava a coroa, mas também sabia tudo o que havia enfrentado até chegar ali. Entre o chamado de Deus e aquele momento houve viagens, naufrágios, perseguições, prisões, lágrimas, incompreensões, cansaço e incontáveis dias comuns. Houve muitas segundas-feiras.

Também será assim conosco. Talvez nunca enfrentemos uma grande perseguição. Talvez nunca sejamos chamados a realizar algo que impressione multidões. Mas todos os dias somos chamados a seguir Jesus justamente onde estamos.

Na família. No trabalho. Na igreja. No trânsito. Diante do computador. Com o telefone nas mãos. Quando estamos sendo observados e quando ninguém está vendo. A coroa está adiante, mas a cruz é carregada hoje.

Por isso, quando o culto terminar, quando a emoção diminuir e quando amanhã de manhã chegar, lembre-se: a segunda-feira não interrompe nossa vida com Deus. Ela é justamente um dos lugares onde mostramos que realmente estamos seguindo Jesus.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

20/set/26

 

ENQUANTO DEUS NOS DER HOJE, AINDA HÁ O QUE FAZER

“Estou tão forte hoje como no dia em que Moisés me enviou. A força que eu tinha naquele dia eu ainda tenho agora, tanto para combater na guerra como para fazer o que for necessário.” Josué 14:11 (NAA).

Uma notícia publicada recentemente contou a história de Firmino Ferreira Filho. Aos 79 anos, depois de uma vida de mais de seis décadas dedicada à música como maestro, ele chegou à etapa final do curso de Direito. E não pretende parar. Seu desejo é continuar estudando e, se possível, tornar-se professor. Histórias assim nos obrigam a pensar.

Quantas vezes dizemos: “Agora já é tarde para mim”? Talvez seja tarde para algumas coisas, é verdade. O corpo muda, as circunstâncias mudam e existem oportunidades que pertencem a determinadas fases da vida. A fé cristã não nos ensina a fingir que os limites não existem. Entretanto, uma coisa é reconhecer os limites; outra bem diferente é transformar a idade em uma sentença que nos proíbe de começar, aprender, servir ou sonhar.

Em algum momento, quase todos começamos a sentir que a vida é curta. Olhamos para aquilo que ainda gostaríamos de fazer e percebemos que talvez não haja tempo para realizar tudo. Livros que desejávamos ler e escrever, lugares que queríamos conhecer, cursos que pensávamos fazer, pessoas que queríamos ajudar, projetos que ficaram na gaveta. Quanto mais os anos passam, mais compreendemos uma verdade simples: ninguém consegue terminar tudo. E talvez nem devamos tentar.

Nossa responsabilidade não é controlar todos os anos que ainda teremos. É viver com fidelidade o dia que Deus colocou diante de nós. O salmista declarou: Este é o dia que o Senhor fez; exultemos e alegremo-nos nele.” Salmos 118:24 (NAA).

O ontem já passou, e o amanhã ainda não chegou. O que temos diante de nós é o hoje, esse espaço de tempo que Deus nos concedeu para viver, servir, aprender, amar e cumprir aquilo que estiver ao nosso alcance.

Calebe compreendeu isso de maneira extraordinária. Quarenta e cinco anos haviam passado desde a promessa recebida no deserto. Agora ele estava com 85 anos. Poderia ter olhado para trás e dito: “Já fiz minha parte. Agora é hora de apenas recordar aquilo que vivi.” Mas não foi isso que aconteceu.

Calebe ainda enxergava um monte diante dele.

É importante entender que sua força física aos 85 anos foi algo especial. A Bíblia não está prometendo que todos chegarão a essa idade com a mesma disposição corporal. Alguns enfrentarão limitações, enfermidades e dependência de outras pessoas. O grande exemplo de Calebe não está apenas em seus músculos. Está em seu coração. Os anos passaram, mas ele ainda perguntava o que poderia fazer com a vida que Deus lhe havia conservado. Essa pergunta continua sendo importante para nós.

Talvez uma pessoa de 70 ou 80 anos não possa fazer aquilo que fazia aos 30. Mas poderá fazer algo que aos 30 ainda não tinha condições de fazer. Poderá aconselhar alguém com a experiência adquirida, ensinar o que aprendeu, aproximar-se dos netos, começar a estudar a Bíblia com mais profundidade, aprender algo novo, escrever suas memórias, visitar alguém solitário, telefonar para quem precisa de uma palavra ou simplesmente tornar-se uma presença de paz dentro da própria família.

Da mesma maneira, alguém de 40 ou 50 anos não precisa pensar: “Perdi minha oportunidade.” Enquanto há vida, ainda existem possibilidades que talvez não sejam iguais às de ontem, mas podem ser igualmente preciosas.

Jesus nos ensinou a pedir: o pão nosso de cada dia nos dá hojeMateus 6:11 (NAA). Observe a palavra: hoje.

Não pedimos hoje o pão de todos os próximos vinte anos. Recebemos o sustento para o dia que está diante de nós. Isso também pode nos ensinar algo sobre nossos projetos. É bom planejar, preparar o futuro e estabelecer objetivos, mas precisamos segurar nossos planos com humildade, porque o amanhã permanece nas mãos de Deus.

Paulo escreveu: Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor e não para as pessoasColossenses 3:23 (NAA). Talvez esteja aqui um dos segredos de uma vida verdadeiramente produtiva: trabalhar no presente como para o Senhor e confiar a Ele aquilo que ainda não chegou.

Há pessoas jovens que vivem esperando o momento ideal para começar. Há pessoas mais velhas que acreditam que o momento de começar já passou. As duas podem perder a mesma coisa: o hoje.

Talvez você não consiga concluir tudo aquilo que imaginou. Nenhum de nós consegue. Mas ainda pode concluir alguma coisa. Ainda pode aprender alguma coisa. Ainda pode ensinar alguma coisa. Ainda pode amar alguém melhor. Ainda pode corrigir um erro, pedir perdão, servir, escrever, estudar, orar, encorajar e deixar uma marca de graça na vida de alguém.

Calebe tinha 85 anos e ainda havia um monte diante dele. Firmino, aos 79, ainda encontrou uma sala de aula diante de si. E nós? Talvez a pergunta mais importante não seja: Quanto tempo ainda me resta?” Talvez seja: “Senhor, o que o Senhor deseja que eu faça com o hoje que ainda me deu?”

Porque, enquanto Deus nos concede o hoje, nossa história ainda não terminou. Ainda há vida para ser vivida, graça para ser recebida e algo a realizar para o nosso Pai Celestial.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

19/set/26

 

FOI JESUS QUEM VEIO AO NOSSO ENCONTRO

Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido.” Lucas 19:10 (NAA).

É comum ouvirmos alguém dizer: “Eu encontrei Jesus.” Normalmente, a pessoa quer dizer que conheceu o Evangelho, creu em Cristo e teve sua vida transformada. Nesse sentido, a expressão é compreensível. Mas, quando olhamos com mais atenção para a Bíblia, descobrimos algo ainda mais profundo: antes de nós procurarmos Jesus, Ele já havia vindo ao nosso encontro. A salvação não começou com a nossa iniciativa. Começou com a iniciativa de Deus.

Jesus explicou isso de maneira muito simples ao contar a parábola da ovelha perdida. Ele perguntou: “Qual de vocês é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?” Lucas 15:4 (NAA).

Observe quem procura quem. A ovelha está perdida. Ela não conhece o caminho de volta e não consegue salvar a si mesma. É o pastor que percebe sua ausência, deixa as outras e vai procurá-la. Ele não espera que a ovelha descubra sozinha como retornar. Vai em busca dela até encontrá-la. Essa imagem nos ajuda a entender o que Cristo fez por nós.

Muitas vezes pensamos que nossa caminhada com Deus começou no dia em que entramos numa igreja, abrimos a Bíblia, ouvimos uma pregação ou decidimos entregar a vida a Jesus. Para nós, aquele foi o momento em que tudo começou. Porém, olhando para trás, talvez percebamos que Deus já estava trabalhando muito antes.

Talvez alguém tenha nos convidado várias vezes para um culto. Uma mensagem chegou justamente quando estávamos enfrentando uma crise. Uma conversa com um amigo despertou perguntas que nunca havíamos feito. Uma perda nos levou a pensar na eternidade. Um problema que não conseguíamos resolver mostrou que não tínhamos controle sobre tudo. Pareciam acontecimentos separados, mas, depois, começamos a perceber que Deus estava usando circunstâncias, pessoas e Sua Palavra para nos chamar.

Foi assim também com Zaqueu. Ele era um homem rico e chefe dos publicanos. Quando soube que Jesus passaria por Jericó, quis vê-Lo. Como era baixo e havia muita gente, correu adiante e subiu numa árvore. À primeira vista, parece que a história é sobre um homem procurando Jesus. Mas então acontece algo extraordinário.

Jesus chega ao lugar, olha para cima e chama Zaqueu pelo nome. Depois diz que precisava ficar em sua casa. Zaqueu queria apenas ver Jesus passando; Jesus queria transformar a vida de Zaqueu.

No final daquele encontro, Cristo revelou o verdadeiro sentido do que havia acontecido: Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido.” Lucas 19:10 (NAA).

Zaqueu procurava uma árvore de onde pudesse ver Jesus. Jesus procurava Zaqueu. Essa diferença muda nossa maneira de entender a salvação.

Podemos imaginar uma pessoa dizendo: “Depois de muitos anos longe de Deus, resolvi procurá-Lo.” Ela começa a frequentar uma igreja, lê a Bíblia e finalmente entrega sua vida a Cristo. Aos seus olhos, parece que tudo começou quando decidiu procurar Deus. Mais tarde, porém, poderá perceber que aquela própria inquietação, aquela sede de conhecer a verdade e aquelas oportunidades que surgiram em seu caminho já faziam parte de uma história maior.

Jesus também disse: Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.” João 6:44 (NAA).

Isso não significa que não precisamos responder ao chamado de Deus. Zaqueu precisou descer da árvore e receber Jesus. A ovelha encontrada foi colocada nos ombros do pastor. Quando ouvimos o Evangelho, somos chamados ao arrependimento, à fé e a uma nova vida com Cristo.  Mas até nossa resposta acontece porque Deus tomou a iniciativa de nos chamar.

Talvez seja por isso que, depois de algum tempo caminhando com Jesus, olhamos para trás e enxergamos nossa história de outra maneira. Aquilo que antes chamávamos de coincidência começa a parecer cuidado.

Pessoas que apareceram no momento certo, palavras que não conseguimos esquecer, portas que se fecharam, outras que se abriram e acontecimentos que nos fizeram pensar na eternidade passam a fazer parte de uma história que somente depois conseguimos compreender melhor. Então a frase “eu encontrei Jesus” ganha um significado ainda mais bonito. Nós O encontramos porque Ele veio nos buscar.

Pensávamos que estávamos dando os primeiros passos em direção a Ele, mas descobrimos que Sua graça já havia se aproximado de nós. Pensávamos que nossa história com Cristo começara quando decidimos procurá-Lo, mas percebemos que Ele já estava nos chamando muito antes.

A grande notícia do Evangelho não é simplesmente que pessoas perdidas estão procurando um caminho. É que o Salvador veio procurar os perdidos. A salvação não começa quando encontramos Jesus, mas quando percebemos que Aquele a Quem procurávamos já havia vindo, em Sua graça, ao nosso encontro.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

18/set/26

  QUANDO A ESPERANÇA ADOECE, CUIDAR DA VIDA TAMBÉM É FÉ “ Por que você está abatida, ó minha alma? Por que se perturba dentro de mim? Espe...