“Afastem de
mim o barulho dos seus cânticos, porque não ouvirei as melodias das suas
liras.” Amós 5:23 (NAA).
Aqueles que me
conhecem sabem o quanto amo o louvor e como a música sempre ocupou um lugar
especial em minha vida e em minha caminhada com Deus. Entretanto, quanto mais
reflito sobre as Escrituras, mais compreendo que o verdadeiro louvor não se
limita à beleza de uma melodia ou à emoção de um cântico. Ele precisa encontrar
correspondência na maneira como vivemos, pois a mais bela melodia que podemos
oferecer ao Senhor é uma vida que procura agradá-Lo em tudo.
Imagine uma igreja
cheia de pessoas, músicos talentosos, instrumentos afinados e vozes cantando
com entusiasmo. Tudo parece maravilhoso. Os cânticos emocionam, as pessoas
levantam as mãos e muitos até choram. Mas será que toda essa manifestação
significa que Deus está recebendo aquele louvor?
Essa pergunta nos
leva a uma das declarações mais impressionantes das Escrituras. Por meio do
profeta Amós, Deus ordenou ao povo de Israel que afastasse dEle o barulho dos
seus cânticos. Aquilo que os israelitas consideravam uma bela expressão de
adoração havia se tornado algo desagradável aos ouvidos do Senhor.
Mas por quê? O
problema não estava na música, nos instrumentos ou na qualidade dos cantores. O
problema estava na vida daqueles que cantavam.
Israel continuava
realizando suas festas religiosas, oferecendo sacrifícios e participando das
reuniões de adoração. Entretanto, fora desses momentos, a realidade era
completamente diferente. Os pobres eram explorados, os necessitados eram
desprezados, a justiça era corrompida e a maldade se multiplicava.
O povo cantava
sobre Deus, mas não vivia segundo a Sua vontade. Seus lábios expressavam
devoção, enquanto suas atitudes revelavam desobediência.
É nesse contexto
que precisamos compreender a palavra “barulho”, utilizada pelo profeta Amós.
Deus não estava reclamando do volume da música, do som elevado de uma bateria
ou das notas estridentes de um saxofone, como alguns poderiam imaginar ao
aplicar essa passagem aos nossos dias. Sua repreensão não estava relacionada à
intensidade do som, mas à incoerência entre aquilo que o povo cantava e a
maneira como vivia.
O Senhor estava
denunciando a hipocrisia de uma adoração que parecia bonita e sincera durante
as celebrações religiosas, mas que não se refletia nas atitudes dos adoradores.
O problema não era o som que saía dos instrumentos, mas a vida daqueles que os
utilizavam para louvar. Assim, aquilo que parecia uma bela melodia aos ouvidos
dos homens havia se tornado apenas barulho diante de Deus.
E essa advertência
continua extremamente atual. Podemos imaginar alguém que canta emocionado sobre
o amor de Deus durante o culto, mas chega em casa e trata seus familiares com
grosseria. Ou uma pessoa que participa do grupo de louvor, mas no trabalho age
com desonestidade, prejudica os colegas e se aproveita da fraqueza dos outros.
Há também quem
cante sobre perdão, mas alimente o ódio; quem declare amar o próximo, mas se
recuse a ajudar alguém necessitado; ou quem levante as mãos na igreja, mas
utilize essas mesmas mãos para praticar injustiças. Será que Deus Se agrada de
uma adoração assim?
O próprio Senhor
apresenta a resposta no versículo seguinte: “Em vez disso, corra o juízo
como as águas, e a justiça, como um ribeiro perene.” Amós 5:24 (NAA).
Observe o
contraste. Deus rejeita o barulho dos cânticos e exige que a justiça corra como
um rio que nunca seca. Em outras palavras, Ele está mostrando que a verdadeira
adoração precisa produzir frutos na maneira como tratamos as pessoas.
Isso não significa
que precisamos ser perfeitos para louvar. Se fosse assim, ninguém poderia
cantar. Todos somos pecadores e necessitamos diariamente da graça e do perdão
de Deus.
A diferença está na
sinceridade do coração. Uma coisa é reconhecer nossas falhas, arrepender-nos e
buscar viver segundo a Palavra. Outra, completamente diferente, é continuar
praticando deliberadamente o mal enquanto usamos o louvor para aparentar uma espiritualidade
que não existe.
Jesus também
ensinou que o Pai procura verdadeiros adoradores, aqueles que O adoram em
espírito e em verdade, conforme João 4:23 (NAA). Portanto, o louvor não pode
ser apenas um momento da programação do culto. Ele precisa fazer parte de toda
a nossa vida.
Quando somos
honestos, mesmo podendo levar vantagem; quando perdoamos alguém que nos
ofendeu; quando ajudamos uma pessoa necessitada; quando tratamos nossos
familiares com amor e respeitamos aqueles que pensam de maneira diferente,
também estamos demonstrando nossa obediência ao Senhor.
Não devemos
confundir a emoção que uma música provoca com a transformação que Deus deseja
realizar em nosso coração.
Uma pessoa pode ter
uma voz maravilhosa e cantar sem sinceridade. Outra pode cantar desafinada, mas
oferecer ao Senhor uma adoração que nasce de um coração humilde e obediente. Deus
não está procurando apresentações perfeitas, mas adoradores verdadeiros. Por
isso, antes de perguntarmos se nosso louvor agradou às pessoas, precisamos
perguntar se nossa vida está agradando a Deus.
Afinal, quando a
música termina, o culto não deveria terminar dentro de nós. A adoração precisa
continuar em nossas palavras, escolhas, relacionamentos e atitudes. O Senhor
não rejeita a beleza da música. Ele rejeita a hipocrisia de uma vida que canta
sobre a verdade, mas insiste em viver na mentira.
Que nossos cânticos
jamais sejam apenas barulho diante dEle, mas a expressão sincera de uma vida
que deseja glorificar o Seu Nome.
O verdadeiro louvor
não termina quando a última nota musical se cala. Ele continua na honestidade
das nossas escolhas, no amor ao próximo e na obediência à Palavra. Quando a
vida contradiz aquilo que os lábios cantam, até a mais bela melodia pode se
tornar apenas barulho diante de Deus.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
21/out/26