TODOS FUGIRAM, MAS JESUS NÃO FUGIU
“Fira o
pastor, e as ovelhas ficarão dispersas.” Zacarias 13:7 (NAA).
Há pequenos
detalhes na Bíblia que, à primeira vista, parecem difíceis de entender. Marcos
registra um deles na noite em que Jesus foi preso. Depois de dizer que todos os
discípulos O abandonaram e fugiram, o evangelista conta que um jovem ainda
seguia Jesus, coberto apenas com um lençol. Quando tentaram agarrá-lo, ele
deixou o lençol para trás e fugiu nu. (Marcos 14:50-52)
Por que a Bíblia
registrou uma cena tão estranha? O texto não explica diretamente. Por isso,
precisamos ter cuidado para não afirmar como doutrina aquilo que a Palavra não
afirma. Mas o lugar onde esse episódio aparece nos ajuda a compreender sua
força.
Pouco antes, Jesus
havia dito aos discípulos que todos tropeçariam por causa dEle e lembrou a
profecia: “Ferirei o pastor, e as ovelhas ficarão dispersas.”
Marcos 14:27 (NAA). E foi exatamente o que aconteceu.
Quando os homens
chegaram para prender Jesus, os discípulos fugiram. Então surge aquele jovem.
Talvez ele ainda desejasse acompanhar o Senhor. Talvez quisesse ver o que
aconteceria. Não sabemos. O que sabemos é que, quando tentaram prendê-lo, o
medo falou mais alto. Ele preferiu deixar para trás até a roupa que vestia para
escapar.
Todos fugiram. Mas
Jesus não fugiu.
Esse contraste é
uma das imagens mais fortes daquela noite. Os discípulos tentaram preservar a
própria vida. O jovem fugiu para não ser preso. Mais tarde, Pedro negaria
conhecer Jesus para escapar do perigo. Mas Cristo permaneceu. E Ele poderia ter
fugido.
Sabia o que estava
acontecendo. Sabia que Judas chegaria. Sabia da prisão, dos açoites, da
humilhação e da cruz. Nada daquilo O surpreendeu. Ainda assim, permaneceu
porque havia decidido cumprir a vontade do Pai e entregar-Se por nós.
O jovem deixou o
lençol para salvar a própria vida. Jesus entregou a própria vida para salvar
pecadores. É aí que essa pequena cena fala também ao nosso coração.
É relativamente
fácil seguir Jesus quando seguir não custa nada. É fácil confessar a fé dentro
da igreja, cercado de pessoas que acreditam nas mesmas coisas. A dificuldade
aparece quando seguir Cristo começa a ter um preço.
Isso acontece ainda
hoje. Um jovem pode sentir vergonha de dizer aos colegas que é cristão porque
teme ser ridicularizado. Um funcionário pode permanecer calado diante de algo
errado para não contrariar seus superiores. Alguém pode deixar de defender aquilo
em que acredita porque não quer perder amizades. Outro pode esconder sua fé nas
redes sociais porque teme críticas. É nesses momentos que descobrimos quanto
estamos dispostos a permanecer.
Isso não significa
que o verdadeiro cristão nunca sentirá medo. Os discípulos sentiram. Pedro
sentiu. Aquele jovem sentiu. Nós também sentimos. A questão é o que fazemos
quando o medo chega.
Há ainda um detalhe
interessante no Evangelho de Marcos. Na noite da prisão aparece um jovem
fugindo, deixando sua veste para trás. Depois da ressurreição, as mulheres
entram no túmulo e encontram “um jovem sentado ao lado direito, vestido
de branco” Marcos 16:5 (NAA). Não podemos afirmar que Marcos pretendia
estabelecer uma ligação direta entre as duas cenas, mas o contraste é bonito: primeiro
vemos medo, fuga e vergonha; depois, encontramos anúncio, esperança e vitória.
Também não sabemos
quem era o jovem que fugiu. Ao longo da história, alguns sugeriram que poderia
ser o próprio Marcos, mas a Bíblia não o identifica. Por isso, talvez a
pergunta mais importante não seja: “Quem era aquele jovem?”, mas: “Por que ele
aparece justamente naquele momento?” Talvez porque a cena complete a fotografia
daquela noite.
As ovelhas se
dispersaram. Os amigos desapareceram. O medo venceu a coragem humana. Mas o
Pastor permaneceu.
Jesus seguiu
sozinho para cumprir aquilo que ninguém mais poderia cumprir. Ele não
permaneceu porque não sentisse o peso do sofrimento. No Getsêmani, Sua angústia
havia sido profunda. Permaneceu porque Seu amor foi maior do que o sofrimento
que O aguardava.
Quando nossa
coragem falha, precisamos olhar novamente para Cristo. Nossa salvação não
depende da firmeza com que conseguimos segurá-Lo, mas da fidelidade com que Ele
decidiu ir até o fim por nós.
Naquela noite,
todos fugiram. Jesus permaneceu.
E porque Ele
permaneceu, hoje aqueles que um dia fugiram podem ser restaurados, perdoados e
ensinados a permanecer também.
Quando o medo fez
todos procurarem salvar a própria vida, Jesus permaneceu para entregar a Sua;
nossa esperança está na fidelidade dAquele que não fugiu da cruz.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
11/ago/26