QUANDO A ESPERANÇA ADOECE, CUIDAR DA VIDA TAMBÉM É FÉ
“Por que você
está abatida, ó minha alma? Por que se perturba dentro de mim? Espere em Deus,
pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu.” Salmos 42:5
(NAA).
Há pessoas que
deixam de cuidar da saúde por medo de médico, falta de tempo ou receio de
descobrir alguma doença. Mas existe também uma situação mais silenciosa. Depois
de muitas perdas, frustrações, solidão ou longos períodos de tristeza, algumas
pessoas começam a perder não apenas a alegria, mas também a vontade de cuidar
da própria vida.
Elas não dizem
necessariamente que querem morrer. Continuam trabalhando, conversando com a
família, indo à igreja e cumprindo suas tarefas. Entretanto, por dentro, alguma
coisa mudou. Sabem que precisam controlar a pressão, fazer um exame, tomar
corretamente um medicamento ou investigar um sintoma, mas sempre deixam para
depois. Às vezes, por trás dessa negligência existe uma pergunta que nunca foi
pronunciada: “Será que ainda vale a pena cuidar de mim?”
A Bíblia mostra que
pessoas de fé também podem atravessar períodos de profundo abatimento. Elias,
depois de uma grande vitória no monte Carmelo, recebeu uma ameaça de Jezabel,
teve medo, fugiu para o deserto e chegou ao limite de suas forças. Debaixo de uma
árvore, declarou: “Basta, Senhor! Tira a minha vida.” 1 Reis 19:4 (NAA).
A Bíblia não nos autoriza a afirmar que Elias estivesse sofrendo de depressão
no sentido clínico moderno, porque o texto não faz esse diagnóstico. O que ela
deixa claro, porém, é que naquele momento ele estava profundamente exausto,
assustado e tão abatido que já não desejava continuar vivendo.
A maneira como Deus
cuidou dele é muito significativa. O Senhor não começou com uma longa
repreensão. Elias dormiu, recebeu alimento e água, descansou novamente e tornou
a comer. Depois, Deus tratou de outras questões e mostrou que sua história
ainda não havia terminado. Elias precisava ouvir a voz de Deus, mas também
precisava dormir e se alimentar. Precisava de direção espiritual, mas seu corpo
igualmente necessitava de cuidado.
Isso nos ensina
algo muito simples: oração e cuidado com a saúde não são inimigos. Procurar um
médico não demonstra falta de fé. Fazer um exame não significa confiar menos em
Deus. Tomar corretamente uma medicação, quando prescrita, não diminui nossa
dependência do Senhor. Da mesma forma, buscar ajuda de um psicólogo ou
psiquiatra quando necessário não significa abandonar a vida espiritual. Podemos
orar por uma pessoa e acompanhá-la ao médico. Podemos pedir a cura e, ao mesmo
tempo, utilizar com gratidão os recursos que Deus permite que estejam
disponíveis.
Imagine uma senhora
que perdeu o marido depois de cinquenta anos de casamento. Antes, cuidava da
saúde porque desejava estar bem para viver ao lado dele. Depois da perda,
começou a dizer: “Para que fazer tantos exames?” Ou pense em alguém que se
aposentou, viu os filhos saírem de casa e começou a sentir que seus dias já não
têm tanta utilidade. Há também quem enfrente uma doença crônica e, depois de
tantas consultas e tratamentos, esteja simplesmente cansado. Essas pessoas
talvez não precisem primeiro de cobrança. Precisam ser lembradas de que a vida
delas continua tendo valor.
Paulo escreveu: “Será
que vocês não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo, que
está em vocês e que vocês receberam de Deus, e que vocês não pertencem a vocês
mesmos?” 1 Coríntios 6:19 (NAA). O contexto imediato fala de santidade
sexual, mas o princípio permanece importante: nosso corpo não é algo sem valor.
Também pertencemos ao Senhor corporalmente.
Por isso, marcar
uma consulta, fazer um exame preventivo, melhorar a alimentação, descansar
adequadamente ou aceitar um tratamento pode ser também uma forma de dizer: “Senhor,
agradeço pela vida que recebi de Ti e quero cuidar dela enquanto estiver sob
minha responsabilidade.” Cuidar-se não significa pensar que nunca morreremos;
significa não desprezar os dias que Deus ainda nos concede.
O salmista estava
abatido, mas falou à própria alma: “Espere em Deus, pois ainda o louvarei.”
Salmos 42:5 (NAA). Existe uma palavra preciosa aí: ainda. Ainda haverá louvor.
Ainda haverá abraços. Ainda haverá alguém precisando de uma palavra nossa.
Ainda podemos aprender, ensinar, amar, pedir perdão, perdoar, servir e fazer
diferença na vida de alguém.
Talvez, para
alguém, a palavra de hoje seja muito prática: vá ao médico, faça o exame,
aceite ajuda, tome corretamente sua medicação e cuide de você. E, se o problema
estiver também na alma, não esconda. Converse com alguém de confiança e procure
acompanhamento profissional. Se alguém disser que não deseja mais viver ou
estiver em risco, isso deve ser levado a sério e requer ajuda imediata.
Elias achou que
havia chegado ao fim, mas Deus ainda tinha caminho para ele. Talvez hoje você
não consiga enxergar muito longe. Não precisa enxergar. Cuide do dia que está
diante de você. Há momentos em que continuar vivendo começa com coisas muito
simples: levantar-se, alimentar-se, pedir ajuda, marcar uma consulta e permitir
que alguém caminhe ao nosso lado.
Quando a esperança
adoece, até cuidar da própria vida pode parecer sem sentido; mas, quando Deus
reacende em nós a esperança do amanhã, cuidar do corpo e aceitar ajuda
tornam-se também maneiras de agradecer a Ele pela vida que ainda nos concede.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
24/set/26