QUANDO VOLTAR É O COMEÇO DE UMA NOVA HISTÓRIA
“O seu povo é
o meu povo, e o seu Deus é o meu Deus.” Rute 1:16 (NAA).
Quando voltar se
faz necessário? Há momentos em que percebemos que estamos no lugar errado,
seguindo uma direção que já não deveríamos seguir ou insistindo em algo que
Deus está mostrando que precisa mudar. Às vezes isso acontece porque não
esperamos o tempo do Senhor. Queremos resolver depressa aquilo que Ele está
usando para nos ensinar, fortalecer e amadurecer. Em vez de esperar, tomamos
decisões precipitadas, como se Deus precisasse de nossa ajuda para cumprir Seus
planos.
O primeiro capítulo
de Rute começa com fome. Elimeleque sai de Belém com Noemi e seus dois filhos e
vai morar em Moabe. A Bíblia não diz diretamente que aquela mudança foi um
pecado, e por isso precisamos ter cuidado para não afirmar o que o texto não afirma.
O que sabemos é que uma família saiu de Belém procurando sobrevivência e, em
Moabe, Noemi enfrentou perdas terríveis. Primeiro morreu seu marido. Depois
morreram seus dois filhos. Aquela mulher, que havia partido acompanhada da
família, agora estava viúva e sem filhos.
Então alguma coisa
mudou. Noemi soube que o Senhor havia novamente dado alimento ao Seu povo e
decidiu voltar para Belém. Essa decisão nos ensina algo precioso: o retorno
começa quando reconhecemos que chegou a hora de voltar.
Isso também
acontece conosco. Uma pessoa pode perceber que se afastou de Deus, abandonou a
comunhão da igreja, deixou a oração de lado e quase não abre mais a Bíblia.
Outra pode ter tomado uma decisão precipitada, rompido um relacionamento que
poderia ter sido restaurado ou escolhido um caminho profissional apenas por
ansiedade. Talvez não seja possível desfazer tudo o que aconteceu, mas sempre
podemos perguntar: “Senhor, onde estou e para onde Tu queres me conduzir
agora?”
Reconhecer que
precisamos voltar exige humildade. Muitas vezes permanecemos em situações ruins
simplesmente porque não queremos admitir que fizemos uma escolha errada. Temos
medo de voltar e ouvir perguntas, enfrentar comentários ou reconhecer que as
coisas não aconteceram como imaginávamos. Noemi também teria de retornar a
Belém e encontrar pessoas que a conheceram antes de sua partida. Mesmo
carregando tristeza, ela voltou.
O retorno também
exige decisões e renúncias. Rute poderia permanecer em Moabe. Ali estavam sua
origem, seus costumes e tudo aquilo que lhe era conhecido. No entanto, ela
decidiu acompanhar Noemi e fez uma declaração que revelou algo muito maior do
que amor por sua sogra: escolheu também o Deus de Israel.
Há coisas que não
podemos levar conosco quando decidimos voltar para Deus. Não podemos desejar
uma vida nova continuando presos aos mesmos hábitos que nos afastaram dEle.
Quem deseja reconstruir o casamento talvez precise abandonar o orgulho. Quem
deseja restaurar a comunhão com Deus talvez precise reorganizar seu tempo. Quem
deseja uma vida diferente talvez tenha de se afastar de ambientes e escolhas
que continuamente o conduzem para longe do Senhor. Não é possível caminhar em
direção a Belém mantendo o coração preso a Moabe.
Entretanto, voltar
não significa que a dor desaparecerá imediatamente. Noemi chegou a Belém ainda
profundamente ferida. Em Rute 1:20-21, ela revela às mulheres da cidade toda a
amargura que carregava e afirma que havia saído plena, mas estava retornando
vazia.
Esse detalhe é
muito importante. Podemos voltar para o lugar certo ainda carregando lágrimas.
Podemos retornar à igreja e ainda ter perguntas. Podemos recomeçar um casamento
e ainda precisar tratar feridas. Podemos voltar a orar depois de muito tempo e
perceber que nossa fé ainda está enfraquecida. Deus não exige que estejamos
completamente restaurados para iniciarmos o caminho de volta. Muitas vezes, a
restauração começa justamente enquanto estamos voltando.
E há algo
extraordinário na história de Noemi: ela dizia estar voltando vazia, mas Rute
estava caminhando ao seu lado. Noemi ainda não conseguia perceber, porém uma
parte da providência de Deus já a acompanhava pela estrada.
Ela ainda não
conhecia Boaz. Não sabia o que aconteceria nos campos de Belém. Não imaginava o
casamento de Rute, o nascimento de Obede nem tudo o que Deus ainda faria por
meio daquela família. Muito menos poderia imaginar que, daquela linhagem, muitas
gerações depois, viria Jesus, o Salvador. Via apenas aquilo que havia perdido,
enquanto Deus já estava preparando aquilo que viria depois.
O primeiro capítulo
de Rute termina no começo da colheita da cevada. O capítulo que começou com
fome termina com colheita; a história que começou com uma saída termina com um
retorno; e a mulher que acreditava estar chegando vazia estava, sem perceber,
entrando exatamente no lugar onde Deus começaria Sua obra de restauração. “Assim,
Noemi voltou, e com ela, Rute, a moabita, sua nora, que voltava dos campos de
Moabe; e chegaram a Belém no princípio da sega das cevadas.” Rute 1:22 (ARC)
Talvez hoje também
seja tempo de voltar. Não para tentar recuperar exatamente o que ficou para
trás, mas para colocar novamente a vida na direção de Deus. Quem volta talvez
ainda carregue feridas, perguntas e consequências de escolhas passadas. Mas uma
coisa muda: está novamente caminhando na direção certa.
O retorno não apaga
todas as marcas do caminho que percorremos, mas nos coloca novamente no lugar
onde a providência de Deus pode transformar nosso vazio em começo de uma nova
história.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
13/set/26