"E,
tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras." Marcos
14:26 (NAA)
Poucas palavras da
Bíblia carregam tanta profundidade quanto este versículo. À primeira vista, ele
parece apenas um detalhe da narrativa. Porém, quando observamos o contexto,
percebemos algo extraordinário. Depois de celebrar a última ceia com os discípulos,
Jesus cantou um hino.
Isso talvez não nos
impressione de imediato. Afinal, cantar faz parte da vida da igreja. Cantamos
nos cultos, nas reuniões e em momentos especiais. Porém precisamos lembrar o
que aguardava Jesus nas próximas horas.
Ele sabia que seria
traído. Sabia que seria preso, abandonado pelos discípulos, injustamente
julgado, espancado e crucificado. Sabia que enfrentaria a dor mais intensa que
alguém poderia suportar. E, acima de tudo, sabia que, ao carregar sobre si os
pecados da humanidade, experimentaria o terrível desamparo expresso em seu
clamor: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Mesmo
assim, antes de seguir para o Getsêmani, Ele cantou.
Isso nos ensina uma
verdade poderosa. O louvor não nasce apenas nos dias de vitória. Muitas vezes,
o louvor mais sincero é aquele oferecido quando ainda não vemos a solução, mas
continuamos confiando em Deus.
O mundo costuma
cantar quando tudo vai bem. As pessoas celebram quando recebem uma boa notícia,
quando alcançam uma conquista ou quando os problemas desaparecem. Porém Jesus
nos mostra um caminho diferente. Ele cantou antes da vitória visível. Cantou
quando a cruz já estava diante dele. Esse tipo de adoração só é possível quando
existe confiança no Pai.
Ao longo das
Escrituras encontramos servos de Deus que aprenderam a louvar mesmo em tempos
difíceis. Paulo e Silas cantaram na prisão. Jó adorou depois de perder seus
bens e seus filhos. Davi escreveu muitos salmos em meio à perseguição e à dor. A
fé verdadeira não depende das circunstâncias. Ela permanece firme porque está
apoiada no caráter de Deus.
Talvez você esteja
vivendo um momento difícil. Talvez existam preocupações em sua família, uma
enfermidade, uma luta financeira ou uma situação que parece não ter solução.
Nesses momentos, a tendência natural do coração humano é reclamar, desanimar ou
perder a esperança.
Porém o exemplo de
Jesus nos ensina que o louvor tem o poder de mudar nossa maneira de enxergar a
situação. O louvor não altera apenas as circunstâncias ao nosso redor. Ele
fortalece nosso coração e nos ajuda a lembrar quem Deus é.
Quando louvamos,
declaramos que Deus continua no controle. Quando louvamos, afirmamos que sua
vontade é perfeita. Quando louvamos, reconhecemos que sua fidelidade não
depende do que estamos vendo. Por isso o louvor sempre esteve ligado à presença
de Deus.
Nos dias do Antigo
Testamento, Davi organizou os levitas para ministrarem continuamente diante da
arca da aliança. A presença da arca simbolizava a presença do Senhor entre o
seu povo. Onde a presença de Deus estava, havia louvor.
Isso nos ajuda a
compreender algo ainda mais profundo neste texto. Naquela noite, Jesus
caminhava para cumprir o plano eterno da salvação. Ele é o verdadeiro Emanuel,
o Deus conosco. Ele é a manifestação perfeita da presença de Deus entre os
homens.
Ao cantar aquele
hino, Jesus não estava apenas encerrando uma reunião com seus discípulos.
Estava caminhando em direção ao Calvário para realizar a maior obra de amor da
história.
Ele sabia que
morreria em nosso lugar. Sabia que levaria sobre si os nossos pecados. Sabia
que seria ferido para que pudéssemos receber perdão. E também sabia que a cruz
não seria o fim. A ressurreição viria. A morte seria vencida. A salvação seria
oferecida a todos os que cressem.
Por isso aquele
hino não era um cântico de derrota. Era um cântico de confiança. Jesus
enxergava além da cruz. Ele via o cumprimento do propósito do Pai.
Hoje, quando
aceitamos Jesus como Salvador, recebemos a presença do Espírito Santo em nossa
vida. Tornamo-nos morada de Deus. Não precisamos mais buscar a presença do
Senhor em um templo específico, porque Cristo habita em nós. Essa é uma das
razões pelas quais continuamos louvando. Não porque tudo está perfeito. Não
porque nunca enfrentamos lutas. Louvamos porque sabemos quem está conosco. O
mesmo Jesus que cantou antes da cruz continua sustentando seus filhos hoje.
Se você está
passando por dias difíceis, lembre-se deste versículo. Antes da cruz, houve um
hino. Antes do sofrimento, houve adoração. Antes da vitória visível, houve
confiança. E talvez a sua maior vitória hoje não seja a mudança das
circunstâncias, mas a decisão de continuar adorando ao Senhor enquanto espera
nele.
A fé madura não
canta apenas depois do milagre; ela aprende a louvar antes dele, porque confia
naquele que continua no controle de todas as coisas.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
09/jun/26