AINDA HÁ TEMPO PARA DAR FRUTO

“Senhor, deixe-a ainda este ano, até que eu escave ao redor dela e ponha estrume. Se vier a dar fruto, muito bem. Se não der fruto, o senhor poderá cortá-la.” Lucas 13:8-9 (NAA).

A vida é um presente de Deus. Cada manhã em que abrimos os olhos significa que recebemos mais um dia, mais uma oportunidade para amar, perdoar, corrigir caminhos, aproximar-nos do Senhor e produzir frutos que revelem aquilo que Ele está fazendo em nós.

Em Lucas 13, Jesus contou a história de um homem que tinha uma figueira plantada em sua vinha. Durante três anos, ele procurou frutos naquela árvore e não encontrou. A figueira estava em boa terra, ocupava um lugar privilegiado e recebia cuidados, mas continuava estéril. O problema não era falta de oportunidade; era ausência de resultado.

Essa parábola aparece logo depois de Jesus falar sobre duas tragédias: alguns galileus haviam sido mortos por Pilatos e dezoito pessoas morreram quando a torre de Siloé caiu sobre elas. Em vez de permitir que Seus ouvintes discutissem se aquelas pessoas eram mais pecadoras do que as outras, Jesus voltou a atenção para quem ainda estava vivo e advertiu: se, porém, não se arrependerem, todos vocês também perecerão.” Lucas 13:3 (NAA).

A mensagem era clara: em vez de perguntar por que a vida de alguém terminou, precisamos perguntar o que estamos fazendo com a vida que Deus ainda nos concede.

A figueira havia recebido tempo, espaço e cuidado, mas o dono procurava fruto. Isso também nos faz pensar sobre nossa vida espiritual.

Podemos frequentar uma igreja durante muitos anos, conhecer muitos versículos, cantar louvores, participar de reuniões e até ocupar funções, mas Deus não procura apenas folhas de aparência religiosa. Ele procura frutos.

Esses frutos aparecem na maneira como tratamos nossa família, na honestidade com que trabalhamos, na disposição para perdoar, no abandono do pecado, no amor ao próximo, na humildade para reconhecer nossos erros e no desejo de obedecer à Palavra de Deus.

Alguém pode dizer: “Estou na igreja há vinte anos.” A pergunta da parábola não é apenas há quanto tempo estamos plantados. A pergunta é: que frutos esse tempo produziu em nós?

Uma pessoa que antes era dominada pela ira está aprendendo a controlar suas palavras? Alguém que guardava ressentimento começou a perdoar? Quem vivia apenas para si passou a perceber a necessidade do próximo? Quem estava distante de Deus começou a buscar Sua presença? Isso é fruto.

Há, porém, uma das frases mais bonitas da parábola. Quando o dono manda cortar a figueira, o homem que cuidava da vinha pede: Senhor, deixe-a ainda este ano.” Essa expressão fala de misericórdia.

A figueira merecia ser cortada, mas recebeu mais tempo. O viticultor ainda cavaria ao redor dela, colocaria adubo e voltaria a cuidar de suas raízes. Havia uma nova oportunidade.

Quantas vezes Deus também fez isso conosco! Houve momentos em que erramos, prometemos mudar e voltamos a cometer os mesmos erros. Mesmo assim, recebemos outra manhã, outra Palavra, outra oportunidade de oração, outro culto, outro conselho, outra ocasião para recomeçar.

Algumas vezes, Deus permite que determinadas circunstâncias mexam profundamente conosco. Uma conversa pode nos despertar. Uma pregação pode revelar algo escondido. Uma perda pode fazer-nos repensar prioridades. Uma enfermidade pode lembrar-nos da fragilidade da vida. Até uma crise pode fazer com que raízes endurecidas sejam novamente alcançadas. É como se a terra estivesse sendo cavada ao redor da figueira. Nem sempre esse processo é confortável, mas pode ser uma expressão da misericórdia de Deus trabalhando em nós.

Jesus ensinou posteriormente: “Eu sou a videira, vocês são os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim vocês não podem fazer nada.” João 15:5 (NAA).

Aqui está o segredo. Não produzimos fruto simplesmente fazendo força para parecermos melhores. O verdadeiro fruto nasce de uma vida ligada a Cristo. Quanto mais permanecemos nEle, ouvimos Sua Palavra e permitimos que Ele transforme nosso coração, mais Sua vida aparece em nossas atitudes.

Mas a parábola também contém uma advertência. O viticultor pediu mais um ano, não tempo ilimitado. A oportunidade recebida deveria produzir uma resposta.

Por isso, não devemos transformar a paciência de Deus numa desculpa para adiar decisões. “Um dia vou mudar.” “Depois procurarei o Senhor.” “Mais tarde abandonarei esse pecado.” “Quando tiver mais tempo, cuidarei da minha vida espiritual.” Ninguém sabe quanto tempo ainda possui.

Hoje estamos vivos. Hoje podemos nos arrepender. Hoje podemos pedir perdão. Hoje podemos abandonar aquilo que desagrada a Deus. Hoje podemos entregar nossa vida a Jesus.

Talvez você olhe para os últimos anos e perceba poucos frutos. Não use isso apenas para se condenar. Enquanto Deus lhe concede este dia, existe oportunidade para recomeçar.

A grande pergunta da parábola não é: Quanto tempo ainda me resta?” É: Que fruto estou produzindo no tempo que Deus está me dando?”

Cada novo dia é misericórdia, mas também responsabilidade. A figueira recebeu mais tempo porque ainda havia esperança de fruto. E enquanto Deus nos concede hoje, ainda há tempo para responder à Sua graça.

Cada novo dia não é apenas mais tempo de vida; é mais uma oportunidade que a misericórdia de Deus nos concede para que nossas raízes sejam tratadas, nossa vida seja transformada e os frutos que Ele espera finalmente apareçam.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

27/ago/26

 

QUANDO O PECADO ESCONDIDO ROUBA A VITÓRIA

Há coisas condenadas no meio de vocês, ó Israel. Vocês não poderão resistir aos seus inimigos enquanto não eliminarem do meio de vocês as coisas condenadas.” Josué 7:13 (NAA).

Israel vinha de uma vitória extraordinária. Jericó, uma cidade cercada por grandes muralhas, havia sido conquistada pelo poder de Deus. Depois de uma experiência tão marcante, enfrentar a pequena cidade de Ai parecia uma tarefa simples. Os homens enviados para observar o lugar chegaram a recomendar que nem todo o exército fosse mobilizado.

Mas aconteceu aquilo que ninguém esperava: Israel foi derrotado. Cerca de trinta e seis homens morreram, os demais fugiram e o povo perdeu a coragem. Josué ficou profundamente abatido e se colocou diante do Senhor tentando compreender o que havia acontecido.

Então Deus mostrou que o verdadeiro problema não estava no tamanho do inimigo nem na estratégia militar. O problema estava dentro do próprio povo.

Acã havia desobedecido à ordem de Deus. Quando viu entre os despojos de Jericó uma bela capa, prata e ouro, desejou aquelas coisas, tomou-as para si e as escondeu debaixo da terra, dentro de sua tenda. Para os outros, tudo parecia normal. Acã continuava no meio do povo como se nada tivesse acontecido. Mas Deus sabia.

E aqui encontramos uma das lições mais sérias desse episódio: o pecado de um homem trouxe consequências para muitos. Acã pecou escondido, mas Israel perdeu a batalha diante de todos. Aquilo que estava enterrado debaixo de uma tenda apareceu, em seus efeitos, no campo de batalha.

Às vezes pensamos que nossas escolhas dizem respeito somente a nós. Mas um pai pode tomar uma decisão errada e ferir toda a família. Uma pessoa desonesta pode prejudicar uma empresa inteira. Uma liderança irresponsável pode causar sofrimento a uma comunidade. Uma mágoa alimentada dentro de casa pode contaminar relacionamentos durante anos.

O pecado pode começar no segredo, mas suas consequências nem sempre permanecem secretas.

Quando aquilo que Acã havia escondido foi descoberto, a situação tornou-se ainda mais grave. O texto bíblico registra que foram levados ao vale de Acor Acã, seus filhos e suas filhas, seus bois, jumentos e ovelhas, sua tenda e tudo o que possuía. O juízo alcançou não apenas aquilo que ele havia roubado, mas sua casa e seus bens. Josué então lhe disse: “Por que você trouxe esta calamidade sobre nós? O Senhor hoje trará calamidade sobre você.” Josué 7:25 (NAA).

Que cena séria! Acã talvez tenha imaginado que estava escondendo apenas uma capa, prata e ouro. Na verdade, estava levando para dentro de sua casa algo que Deus havia condenado. Isso nos faz perguntar: o que estamos permitindo entrar em nossa “tenda”?

Hoje talvez não seja uma capa babilônica nem uma barra de ouro. Pode ser uma mentira que mantemos escondida, um relacionamento que sabemos ser errado, desonestidade financeira, pornografia, uma mágoa alimentada durante anos, inveja, orgulho, falta de perdão ou algum hábito que sabemos claramente não agradar a Deus.

Por fora, a vida pode continuar normalmente. A pessoa trabalha, conversa, frequenta a igreja, canta, participa das reuniões e até fala sobre Deus. Mas alguma coisa permanece escondida no coração.

É importante fazer uma observação: nem toda dificuldade significa que exista um pecado secreto. Nem toda enfermidade, problema financeiro ou período difícil é consequência direta de uma desobediência. A própria Bíblia mostra servos fiéis enfrentando provações.

Entretanto, Josué 7 nos ensina que, quando sabemos que existe algo contrário à vontade de Deus e insistimos em conservá-lo, não podemos imaginar que isso não afetará nossa vida espiritual.

Às vezes perguntamos: “Por que não consigo vencer? Por que minha vida espiritual não avança? Por que perdi a alegria de servir ao Senhor?” Talvez, antes de procurarmos o problema em Ai, seja necessário olhar para dentro da tenda.

Há momentos em que pedimos que Deus mude nossas circunstâncias, enquanto Ele quer primeiro tratar nosso coração. Pedimos paz, mas continuamos alimentando ressentimentos. Pedimos restauração da família, mas não queremos pedir perdão. Pedimos crescimento espiritual, mas mantemos hábitos que nos afastam de Deus. O caminho não é esconder ainda melhor. O caminho é confessar.

A maravilhosa diferença para nós é que, em Cristo, encontramos perdão e restauração: “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” 1 João 1:9 (NAA).

Deus não nos chama para viver escondendo aquilo que precisa ser tratado. Ele nos chama ao arrependimento, à confissão e a uma vida nova em Cristo.

Isso também serve para a igreja. Uma igreja não cresce espiritualmente apenas porque possui muitas pessoas, boa música, grandes programações ou muitos recursos. O verdadeiro crescimento acontece quando Cristo está no centro, Sua Palavra é obedecida e existe disposição para abandonar aquilo que Ele condena. Às vezes queremos novas estratégias, enquanto Deus está pedindo santidade.

Queremos vencer Ai, mas Deus está apontando para a tenda. Por isso, talvez hoje nossa oração precise ser: “Senhor, mostra-me se existe alguma coisa em minha vida que precisa ser retirada.”

Se Deus mostrar, não esconda. Confesse, abandone e coloque diante dEle. Porque aquilo que escondemos pode impedir nossos passos, mas aquilo que entregamos ao Senhor pode ser alcançado por Sua graça.

O pecado de Acã estava escondido numa tenda, mas suas consequências apareceram no campo de batalha. Aquilo que escondemos debaixo da terra pode impedir nossa caminhada; aquilo que confessamos diante de Deus pode encontrar perdão, purificação e um novo começo em Cristo.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

26/ago/26

 

O BOM SOLDADO NÃO VAI PARA A BATALHA DESARMADO

“Vistam toda a armadura de Deus, para poderem ficar firmes contra as ciladas do diabo.” Efésios 6:11 (NAA).

Comemoramos hoje em nosso país o Dia do Soldado. Quando pensamos em um soldado, algumas palavras logo vêm à mente: disciplina, preparo, coragem, obediência, vigilância e disposição para enfrentar dificuldades. Ninguém se torna um bom soldado simplesmente porque veste uma farda. É necessário treinamento, compromisso e capacidade de permanecer firme quando chegam os momentos difíceis.

A Bíblia também usa a figura do soldado para falar da vida cristã. Paulo escreveu a Timóteo: “Participe dos meus sofrimentos como bom soldado de Cristo Jesus.” 2 Timóteo 2:3 (NAA).

Isso nos ensina que seguir Jesus não significa viver sem lutas. Pelo contrário, existe uma batalha espiritual acontecendo todos os dias. Nossos maiores inimigos nem sempre são pessoas, como Paulo deixa claro: “Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados, contra as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestiais.” Efésios 6:12 (NAA).

Por isso, lutamos contra tentações, desânimo, medo, incredulidade, orgulho, mágoas, pensamentos errados e tudo aquilo que procura nos afastar de Deus. A batalha é espiritual e, justamente por essa razão, não pode ser vencida apenas com recursos humanos; precisamos da armadura que o próprio Deus coloca à nossa disposição.

Por essa razão, Paulo nos apresenta, em Efésios 6, a armadura de Deus.

O primeiro elemento é o cinturão da verdade. Um bom soldado de Cristo precisa amar a verdade. Vivemos numa época em que opiniões muitas vezes são tratadas como se fossem fatos e mentiras são repetidas até parecerem verdadeiras. O cristão precisa permanecer firmado na Palavra de Deus, porque não podemos vencer uma batalha espiritual alimentando nossa mente com aquilo que é falso.

Depois vem a couraça da justiça. A couraça protegia regiões vitais do soldado. Espiritualmente, ela nos lembra de uma vida que procura agradar a Deus. Não basta dizer que somos cristãos; nossas escolhas precisam confirmar aquilo que confessamos. No trabalho, em casa, na igreja, no trânsito e até quando ninguém está olhando, somos chamados a viver com integridade.

Paulo também fala dos pés calçados com a preparação do evangelho da paz. O soldado de Cristo não leva ódio por onde passa. Ele leva o Evangelho. Onde existe desespero, anuncia esperança; onde existe culpa, fala do perdão; onde existe alguém perdido, apresenta Jesus.

Há ainda o escudo da fé. Antigamente, o escudo protegia o soldado das flechas lançadas contra ele. Também recebemos muitas “flechas” durante a vida: notícias ruins, enfermidades, problemas familiares, dificuldades financeiras, decepções e pensamentos que dizem que Deus Se esqueceu de nós. A fé não significa fingir que essas coisas não existem. Significa continuar confiando em Deus mesmo quando não compreendemos o que está acontecendo.

O capacete da salvação protege a mente. Quantas batalhas são travadas primeiro dentro dos nossos pensamentos! O inimigo tenta produzir culpa, medo, dúvida e desânimo. Por isso, precisamos lembrar continuamente quem somos em Cristo e aquilo que Ele fez por nós.

Finalmente, Paulo apresenta a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus. Jesus mostrou isso quando foi tentado no deserto. Diante das tentações, respondeu com a Palavra. Um cristão que não conhece a Bíblia é como um soldado que entra numa batalha sem conhecer sua arma.

Mas há algo importante: nenhuma dessas peças funciona adequadamente sem comunhão com Deus. Por isso, depois de falar da armadura, Paulo ensina sobre oração. O soldado precisa permanecer em contato com Aquele que dirige a batalha.  “..._orando em todo tempo com toda oração e súplica no Espírito e vigiando nisso com toda perseverança e súplica por todos os santos...” Efésios 6:18 (ARC)

Ser um bom soldado de Cristo também exige disciplina. Há dias em que teremos vontade de orar e outros em que precisaremos orar mesmo sem vontade. Haverá momentos em que será fácil obedecer e outros em que obedecer custará alguma coisa. O bom soldado não abandona seu posto simplesmente porque o dia ficou difícil.

Talvez hoje alguém esteja cansado. Talvez esteja atravessando uma batalha que ninguém conhece. A orientação de Deus não é: “Você precisa ser forte sozinho.” A orientação é: vista a Minha armadura. Nossa segurança não está em nossa própria força, mas na força que recebemos do Senhor.

Neste Dia do Soldado, podemos reconhecer com respeito aqueles que servem à sociedade nessa missão, mas também devemos lembrar que todo cristão foi chamado para uma batalha espiritual.

Precisamos permanecer vigilantes, firmes na verdade, protegidos pela justiça, sustentados pela fé, conscientes da salvação, levando o Evangelho e usando corretamente a Palavra de Deus.

Um bom soldado não é aquele que nunca sente medo, nunca se cansa ou nunca enfrenta dificuldades. É aquele que, mesmo em meio à batalha, permanece no lugar onde seu comandante o colocou. E nosso Comandante é Cristo. Enquanto permanecermos nEle, poderemos enfrentar a luta sabendo que não estamos sozinhos.

O bom soldado de Cristo não vence porque confia na própria força, mas porque permanece vestido com a armadura de Deus, firmado em Sua Palavra e obediente Àquele que o chamou para a batalha.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

25/ago/26

 

O PASSADO NÃO PODE SER UMA PRISÃO

“Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia... Confessei-te o meu pecado e a minha iniquidade não mais ocultei. Eu disse: ‘Confessarei ao Senhor as minhas transgressões’; e Tu perdoaste a iniquidade do meu pecado.” Salmos 32:3, 5 (NAA).

A culpa pode construir prisões que ninguém consegue ver. Não existem grades, cadeados ou muros, mas quem vive dentro delas sabe como é difícil escapar. A pessoa continua trabalhando, conversando, indo à igreja, cuidando da família e realizando suas tarefas, porém carrega dentro de si o peso de alguma coisa que fez e gostaria de poder apagar.

Davi conheceu essa experiência. Ele havia pecado e tentou conviver com aquilo em silêncio. O problema é que o pecado escondido não ficou apenas no passado; começou a afetar o presente. Davi descreve seu sofrimento de maneira muito forte: enquanto se calava, sentia até seus ossos envelhecerem. A consciência acusava, a alegria desaparecia e aquilo que ele tentava esconder diante dos outros continuava completamente aberto diante de Deus.

Há uma diferença importante entre a culpa que nos leva ao arrependimento e a culpa que nos mantém presos. Quando o Espírito Santo nos mostra que erramos, Ele não faz isso simplesmente para nos destruir. Ele nos convence para que reconheçamos o pecado, confessemos, recebamos o perdão e mudemos de direção. O arrependimento olha para o erro e diz: “Eu pequei e preciso voltar para Deus.” A culpa sem esperança olha para o mesmo erro e diz: “Eu pequei e nunca mais poderei ser diferente.”

Muitas pessoas vivem assim durante anos. Um pai se lembra de palavras duras que disse aos filhos quando eram pequenos e pensa que jamais poderá reparar aquilo. Uma mãe se culpa por decisões tomadas na criação dos filhos. Alguém se recorda de um casamento que terminou, de uma amizade destruída, de uma oportunidade desperdiçada, de uma mentira, de uma traição ou de uma escolha feita num momento de fraqueza. O acontecimento terminou há muito tempo, mas dentro da pessoa continua acontecendo todos os dias. É como assistir repetidamente ao mesmo filme e desejar mudar o final.

Davi descobriu que a saída daquela prisão começava com uma decisão: parar de esconder. Ele confessou seu pecado ao Senhor e recebeu perdão. O passado não deixou de existir, mas deixou de governá-lo da mesma maneira.

A Palavra nos dá esta segurança: “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” 1 João 1:9 (NAA).

Observe que Deus não diz que talvez perdoe. Ele promete perdão àquele que confessa verdadeiramente seu pecado. Isso não significa apenas pronunciar algumas palavras. Confessar é reconhecer diante de Deus aquilo que fizemos, abandonar as desculpas e nos colocar diante dEle com sinceridade. Talvez alguém diga: “Mas eu não consigo me perdoar.”

Essa frase parece humilde, mas precisa ser examinada à luz da graça. Se Deus perdoou aquilo que confessamos sinceramente, por que insistimos em continuar pronunciando sobre nós mesmos uma sentença que Ele já retirou? Em Cristo, não precisamos viver tentando pagar uma dívida que Ele já pagou.

A Bíblia declara: “Agora, pois, já não existe nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus.” Romanos 8:1 (NAA).

Isso não significa que todas as consequências de nossos erros desaparecerão. Algumas escolhas deixam marcas. Uma palavra pode precisar de um pedido de perdão. Uma dívida talvez tenha de ser paga. Um relacionamento pode precisar de tempo para ser reconstruído. Há situações que nunca voltarão exatamente a ser como eram. Mas existe uma diferença enorme entre enfrentar as consequências de um erro e viver debaixo de condenação.

Deus pode usar até as marcas do passado para produzir maturidade. A pessoa que um dia feriu alguém pode tornar-se mais cuidadosa com suas palavras. Quem administrou mal seus recursos pode aprender responsabilidade. Quem perdeu relacionamentos por orgulho pode aprender humildade. Quem se afastou de Deus pode descobrir o valor de permanecer perto dEle. A graça não transforma o pecado em algo pequeno. Ela mostra que o perdão de Deus é maior.

Também precisamos compreender que não podemos mudar aquilo que aconteceu ontem, mas podemos decidir o que faremos hoje. O inimigo gosta de apontar continuamente para o passado e dizer: “Veja o que você fez.” Cristo aponta para a cruz e nos lembra do que Ele fez.

Talvez exista alguma lembrança que ainda governe suas emoções. Talvez ninguém saiba, mas você sabe. E Deus também sabe.

Se existe pecado ainda não confessado, não o esconda. Leve-o ao Senhor com sinceridade. Se for necessário pedir perdão a alguém, peça. Se houver algo que possa ser reparado, procure reparar. Mas, depois de confessar e receber o perdão de Deus, não continue morando numa prisão cuja porta Cristo já abriu.

Davi entrou no Salmo 32 carregando o peso do silêncio e saiu celebrando a alegria do perdão. Você também pode sair. Porque o passado pode explicar algumas de nossas cicatrizes, mas, nas mãos de Deus, não precisa determinar nosso futuro.

A culpa nos mantém olhando para aquilo que fizemos; a graça nos faz olhar para aquilo que Cristo fez. Quando Deus perdoa, o passado deixa de ser uma prisão e pode tornar-se uma lembrança da grandeza de Sua misericórdia.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

24/ago/26

 

QUANDO O MAL ENCONTRA A PORTA FECHADA

“..._e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal [pois Teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém]!” Mateus 6:13 (NAA).

Jesus encerra a oração do Pai Nosso ensinando-nos a reconhecer uma realidade que não podemos ignorar: somos fracos e precisamos diariamente da proteção de Deus. Depois de pedir o pão, o perdão e aprender a perdoar, chegamos ao último pedido: não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal.

Isso não significa que Deus nos tenta para nos fazer pecar. A Bíblia afirma: “Ninguém, ao ser tentado, diga: ‘Sou tentado por Deus.’ Porque Deus não pode ser tentado pelo mal e Ele mesmo não tenta ninguém.” Tiago 1:13 (NAA).

Portanto, quando pedimos não nos deixes cair em tentação, estamos dizendo: “Pai, conheço minha fraqueza. Guarda-me. Não permitas que eu caminhe sozinho por lugares onde minha fé poderá ser vencida. Dá-me sabedoria para reconhecer o perigo e força para fugir dele.”

Há uma grande diferença entre confiar em Deus e confiar excessivamente em nós mesmos. Muitas quedas começam quando alguém pensa: “Comigo isso nunca acontecerá.” A pessoa acredita que é suficientemente forte para permanecer perto daquilo que a tenta sem cair. Jesus nos ensina exatamente o contrário. Ele nos ensina a reconhecer nossa fragilidade.

Foi por isso que, no Getsêmani, disse aos discípulos: Vigiem e orem, para que não caiam em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.” Mateus 26:41 (NAA).

Observe as duas palavras: vigiar e orar.

Não basta orar e continuar entrando voluntariamente em situações que sabemos que podem nos derrubar. Se determinada conversa sempre termina em fofoca, precisamos ter cuidado. Se determinadas companhias nos afastam de Deus, precisamos estabelecer limites. Se o celular abre portas para conteúdos que alimentam pensamentos errados, precisamos vigiar aquilo que vemos. Se sabemos que nossa fraqueza é a raiva, devemos evitar responder no momento em que estamos dominados pela emoção. Às vezes pedimos: Senhor, livra-me da tentação, mas continuamos deixando aberta a porta por onde ela costuma entrar.

Em nossos dias, precisamos ter atenção especial com as redes sociais. Elas podem ser instrumentos úteis, mas também podem colocar diante dos nossos olhos, todos os dias, conteúdos, conversas e relacionamentos capazes de alimentar aquilo que deveríamos evitar. Uma imagem pode despertar um desejo errado; uma conversa aparentemente inocente pode ultrapassar limites; a comparação constante com a vida dos outros pode alimentar inveja, insatisfação e orgulho; uma discussão pode despertar ira; e a facilidade de falar sem estar diante da pessoa pode nos levar a dizer aquilo que jamais diríamos frente a frente.

Por isso, vigiar também significa saber o que vemos, quem seguimos, com quem conversamos e quanto tempo permitimos que as redes ocupem nossa mente. Não faz sentido pedir a Deus que nos livre daquilo que continuamos procurando ou manter aberta uma porta que sabemos para onde nos conduz.

Em determinadas situações, o livramento de Deus pode estar justamente na decisão de deixar de seguir alguém, encerrar uma conversa, bloquear determinado conteúdo, desligar o celular ou simplesmente afastar-se daquilo que percebemos estar enfraquecendo nossa comunhão com Ele.

A oração não substitui a vigilância. A oração nos dá força para vigiar e coragem para fechar as portas que não deveriam permanecer abertas.

Também existem tentações muito comuns em nossos dias. Um funcionário pode ter a oportunidade de conseguir vantagem através de algo desonesto e pensar: “Ninguém descobrirá.” Uma pessoa casada pode começar uma conversa aparentemente inocente e perceber, aos poucos, que está ultrapassando limites. Alguém ofendido pode sentir vontade de responder imediatamente nas redes sociais. Outro pode receber dinheiro a mais por engano e decidir ficar calado. É nesses momentos comuns da vida que Mateus 6:13 se torna uma oração profundamente atual: Pai, não me deixes cair.”

A tentação normalmente não se apresenta dizendo: “Estou aqui para destruir sua vida.” Muitas vezes ela começa oferecendo algo agradável, fácil ou aparentemente sem importância. O problema é que pequenos passos podem nos levar para muito longe de onde imaginávamos chegar. Por isso precisamos diariamente da direção de Deus. Mas Jesus não ensina apenas a pedir que não caiamos. Ele acrescenta: mas livra-nos do mal”.

Existem batalhas das quais precisamos ser guardados antes mesmo de perceber o perigo. Há situações que Deus impede, caminhos que Ele fecha, encontros que não acontecem e circunstâncias das quais Ele nos livra sem que jamais saibamos.

Outras vezes, o livramento acontece no meio da própria tentação.

Paulo escreve: “Não sobreveio a vocês nenhuma tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar; pelo contrário, juntamente com a tentação proverá livramento, para que vocês a possam suportar.” 1Coríntios 10:13 (NAA).

Isso é maravilhoso. A tentação pode aparecer, mas Deus continua presente. Existe uma saída. Talvez seja desligar o telefone, sair daquele lugar, encerrar uma conversa, recusar uma proposta, procurar alguém de confiança, começar a orar ou simplesmente dizer não enquanto ainda podemos dizer não.

Muitas vezes queremos que Deus retire a tentação, enquanto Ele está nos mostrando a porta pela qual devemos fugir dela.

Também chama a atenção que Jesus continua usando o plural. Ele não diz apenas não me deixes cair ou livra-me, mas não nos deixes e livra-nos.

Mais uma vez aparece a comunhão. A vida cristã não foi feita para ser vivida sozinha. Precisamos orar uns pelos outros, cuidar uns dos outros e ajudar nossos irmãos quando percebemos que estão enfraquecendo. Às vezes, o livramento de Deus chega através de uma palavra, de um conselho, de uma oração ou de um irmão que percebe o perigo antes de nós.

E a oração termina voltando para onde começou: Deus.

Começamos dizendo Pai nosso e terminamos reconhecendo que dEle são o Reino, o poder e a glória.

Isso nos lembra de que nossa segurança não está em nossa força, mas na força dEle. Não vencemos porque somos incapazes de cair. Vencemos porque aprendemos a vigiar, orar, fugir do mal e depender diariamente de Deus.

Talvez essa seja a grande lição do último pedido do Pai Nosso: não devemos ter vergonha de reconhecer nossa fraqueza; perigoso é imaginar que não precisamos da proteção de Deus.

Todos os dias podemos começar dizendo: Pai, guia meus passos, guarda meus olhos, minhas palavras, meus pensamentos e minhas decisões. Mostra-me o perigo antes que eu caia e, quando o mal se aproximar, dá-me sabedoria para reconhecer a saída que Tu preparaste.”

A oração termina, mas a dependência continua.

A maior segurança do cristão não está em acreditar que é forte demais para cair, mas em saber que é fraco o suficiente para precisar de Deus e amado o suficiente para encontrar nEle o livramento.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

23/ago/26

 

PERDOADOS PARA PERDOAR

“..._e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores” Mateus 6:12 (NAA).

Depois de ensinar a pedir o pão de cada dia, Jesus nos leva a uma necessidade ainda mais profunda. O corpo precisa de alimento, mas a alma precisa de perdão. Podemos ter pão sobre a mesa e, ainda assim, carregar dentro de nós o peso da culpa, de erros cometidos, de palavras que não deveriam ter sido ditas e de atitudes que feriram a Deus e às pessoas.

Jesus chama nossos pecados de dívidas. Não está falando, nesse momento, de dinheiro. Pecar é ficar em dívida diante de Deus, porque deixamos de viver como Ele deseja. Quando mentimos, alimentamos orgulho, guardamos pensamentos ruins, tratamos alguém injustamente ou fazemos aquilo que sabemos ser errado, pecamos contra Deus. Por isso Jesus nos ensina a orar: perdoa-nos as nossas dívidas.

Essa oração começa com uma atitude muito importante: reconhecer que precisamos de perdão. É fácil enxergar os erros dos outros. Mais difícil é olhar para dentro de nós mesmos e admitir: “Senhor, eu errei. Preciso da Tua misericórdia.”

Vivemos em uma época em que as pessoas encontram muita facilidade para justificar seus próprios comportamentos. Dizemos: “Fiz isso porque ele me provocou”; “falei daquela maneira porque estava nervoso”; “todo mundo faz”; “eu tinha meus motivos”. Podemos encontrar muitas explicações, mas nenhuma delas substitui a confissão sincera.

Quem ora esta oração ensinada por Jesus não diz: “Pai, explica os meus erros.” Diz: Pai, perdoa-me.”

Há algo muito bonito nessa oração: Jesus coloca o pedido de perdão dentro da caminhada diária. Assim como precisamos do pão todos os dias, também precisamos examinar diariamente o coração diante de Deus. Nenhum de nós chega a um ponto da vida cristã em que possa dizer que não precisa mais da misericórdia do Senhor.

Mas Jesus acrescenta uma parte que torna essa oração ainda mais séria: assim como nós também perdoamos aos nossos devedores”. Agora já não estamos falando apenas do que Deus faz por nós, mas daquilo que Sua graça deve produzir em nós.

Pedimos perdão porque também somos devedores, mas existem pessoas que se tornaram nossas devedoras. Alguém nos magoou, decepcionou, traiu nossa confiança, falou contra nós, deixou de cumprir uma promessa ou nos tratou de maneira injusta. Algumas dessas feridas desaparecem rapidamente. Outras permanecem durante anos. É justamente aí que a oração de Jesus toca profundamente nosso coração.

Não podemos pedir misericórdia para os nossos erros e exigir julgamento sem misericórdia para todos os erros dos outros. O coração que conhece o perdão de Deus precisa aprender a perdoar.

Isso não significa que nosso perdão compra o perdão de Deus, como se pudéssemos merecê-lo através das nossas boas obras. Significa que quem verdadeiramente compreende quanto foi perdoado por Deus começa a olhar de maneira diferente para quem também lhe deve alguma coisa.

Jesus reforça esse ensino logo depois da oração ao falar sobre perdoarmos as ofensas dos outros em Mateus 6:14-15. O perdão recebido não deve parar em nós. Ele precisa alcançar nossos relacionamentos.

Talvez alguém esteja há anos sem falar com um irmão por causa de uma discussão sobre herança. Talvez uma amizade tenha terminado por causa de uma palavra dita num momento de raiva. Pode haver um filho que ainda guarda ressentimento dos pais, um casal que continua trazendo para cada nova discussão erros cometidos muitos anos atrás ou alguém que revive diariamente uma ofensa recebida.

Perdoar não significa dizer que o que aconteceu foi certo. Também não significa fingir que não doeu, apagar imediatamente todas as lembranças ou impedir que uma pessoa responda pelas consequências de seus atos. Há situações em que será necessário manter limites e prudência. Perdoar significa entregar a Deus o direito de alimentar a vingança dentro de nós.

Às vezes, quem nos feriu nem sequer pedirá perdão. Talvez nunca reconheça o mal que fez. Mesmo assim, não precisamos permitir que essa pessoa continue ocupando nosso coração através do ressentimento.

O perdão também pode ser um processo. Há feridas tão profundas que não desaparecem de um dia para o outro. Talvez seja necessário voltar muitas vezes à presença de Deus e dizer: “Senhor, ainda dói, mas eu não quero alimentar este ódio. Ajuda-me a perdoar.”

Perceba novamente a palavra nosso presente no Pai Nosso. Pedimos o pão nosso e agora pedimos perdão pelas nossas dívidas. A oração continua sendo feita em comunhão. Somos uma comunidade de pessoas imperfeitas vivendo pela mesma graça. Na Igreja não encontramos pessoas que nunca erram; encontramos pessoas que precisam aprender diariamente a pedir perdão e a oferecer perdão.

No fim, Mateus 6:12 coloca todos nós no mesmo lugar: diante da misericórdia de Deus.

Quem olha apenas para a dívida do outro pode guardar ressentimento. Mas quem se lembra da própria dívida e do quanto recebeu misericórdia encontra forças para começar a perdoar.

Talvez uma das orações mais difíceis que possamos fazer seja também uma das mais libertadoras: Pai, perdoa-me e ensina-me a perdoar.”

Quem se ajoelha diante de Deus pedindo que sua dívida seja perdoada aprende a se levantar sem carregar nas mãos a conta daqueles que lhe devem.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

22/ago/26

 

O PÃO DE HOJE NAS MÃOS DE DEUS

“..._o pão nosso de cada dia nos dá hoje.Mateus 6:11 (NAA).

Depois de ensinar Seus discípulos a pedir que o nome de Deus seja santificado, que venha o Seu Reino e que seja feita a Sua vontade, Jesus chega às necessidades da vida. Pela primeira vez na oração aparece um pedido diretamente relacionado àquilo de que precisamos: “o pão nosso de cada dia nos dá hoje”.

É uma frase pequena, mas cheia de ensinamentos. Jesus não ensinou a pedir o pão para o ano inteiro. Ele falou do pão de cada dia. Assim, ensina-nos a viver dependendo de Deus um dia de cada vez.

O pão representa aquilo que é necessário para nossa vida. É o alimento sobre a mesa, mas também nos lembra do trabalho, da casa, da saúde, da roupa, do remédio e de tantas outras necessidades. Quando pedimos o pão diário, reconhecemos que não dependemos apenas do nosso salário, da nossa capacidade ou dos recursos que conseguimos juntar. Por trás de tudo está o cuidado de Deus.

Isso não significa deixar de trabalhar, economizar ou planejar. A Bíblia não ensina irresponsabilidade. Jesus está falando da dependência do coração. Podemos planejar o amanhã sem permitir que a preocupação com o amanhã roube nossa paz hoje.

Esse ensino é muito atual. Há pessoas preocupadas com a prestação que vencerá no fim do mês. Famílias fazem contas no supermercado para que o dinheiro seja suficiente. Pais pensam nas despesas dos filhos. Aposentados se preocupam com medicamentos. Trabalhadores temem perder o emprego. São situações reais, e Deus não despreza nenhuma delas.

Quando oramos “o pão nosso de cada dia nos dá hoje”, estamos dizendo: “Pai, preciso de Ti para atravessar este dia. Dá-me força para trabalhar, sabedoria para administrar o que tenho e fé para não ser dominado pelo medo.

Mas existe ainda uma aplicação espiritual muito preciosa nessa palavra “pão”. O pão de Mateus 6:11 fala primeiro das nossas necessidades diárias, porém a Bíblia também nos apresenta um alimento sem o qual nossa alma não pode viver: Jesus Cristo.

O próprio Jesus declarou: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim jamais terá fome, e quem crê em mim jamais terá sede.” João 6:35 (NAA).

Precisamos do pão material para alimentar o corpo, mas precisamos de Jesus para alimentar a alma. Podemos ter a mesa cheia e, ainda assim, carregar um coração vazio. Podemos possuir bens, segurança financeira e conforto e continuar sentindo uma fome interior que nenhuma coisa deste mundo consegue satisfazer. Essa fome só encontra resposta em Cristo.

Isso nos faz lembrar do povo de Israel no deserto. Durante sua caminhada, Deus enviava o maná para sustentá-lo. Não era necessário guardar alimento para muitos meses. O povo precisava confiar que Deus daria novamente a provisão necessária. A Escritura diz: “Colhiam-no, pois, manhã após manhã, cada um quanto conseguia comer.” Êxodo 16:21 (NAA). O maná caía de manhã, e o povo precisava recolhê-lo. Havia, portanto, uma dependência diária.

Essa imagem nos ajuda a compreender nossa vida espiritual. Assim como Israel precisava receber diariamente o alimento enviado por Deus no deserto, nós também precisamos alimentar nossa comunhão com Cristo todos os dias. Não podemos viver hoje apenas da experiência que tivemos com Deus muitos anos atrás. O alimento de ontem foi importante, mas precisamos do pão de hoje.

Jesus continua presente para alimentar Sua Igreja. Ele nos alimenta por meio de Sua Palavra, da comunhão com Ele, da oração e da ação do Espírito Santo em nossa vida. Cada manhã é uma nova oportunidade de nos aproximarmos dEle e dizermos: “Senhor, alimenta hoje a minha alma.”

Por isso, o pão diário possui uma aplicação muito profunda. Precisamos perguntar não apenas: “Há pão sobre minha mesa?”, mas também: “Minha alma está sendo alimentada por Cristo?”

Há cristãos que cuidam cuidadosamente do corpo, da profissão, da casa e das finanças, mas passam dias sem abrir a Bíblia, sem orar e sem separar um momento para estar diante de Deus. Aos poucos, a alma enfraquece. Não porque Jesus tenha deixado de ser suficiente, mas porque deixamos de buscar nEle o alimento de que necessitamos.

Há ainda uma palavra muito importante nessa oração. Jesus não disse o meu pão, mas o pão nosso. Isso nos fala de comunhão.

O mesmo Pai que cuida de mim é o Pai que cuida dos meus irmãos, e o pão que pedimos não é pensado apenas de forma individual. Na oração ensinada por Jesus, ninguém caminha sozinho. Somos uma família que depende do mesmo Pai e recebe dEle o sustento para a caminhada. Por isso, o pão é “nosso”: lembra-nos de que pertencemos uns aos outros e de que a fé cristã não pode ser vivida de maneira isolada.

Quando um irmão sofre, a Igreja se importa; quando alguém tem necessidade, os outros são chamados a compartilhar; quando Deus coloca provisão em nossas mãos, podemos nos tornar instrumentos para que o pão também chegue à mesa de quem precisa. O pão que vem do Pai alimenta a vida, mas o “nosso” nos lembra de que essa vida é vivida em comunhão.

E há ainda uma ligação muito bonita com o que você acrescentou sobre Cristo: Jesus é o Pão da Vida dado não apenas a indivíduos isolados, mas à Sua Igreja. Assim, o “pão nosso” pode conduzir naturalmente à ideia de um povo reunido em torno do mesmo Cristo, alimentado diariamente por Ele.

O pão é de cada dia, mas não é apenas meu: é nosso, porque o Pai que nos sustenta também nos ensina a caminhar, repartir e viver em comunhão.

Mateus 6:11, portanto, ensina-nos uma dependência completa: pão para o corpo e Cristo para a alma; provisão para a caminhada e presença de Deus para o coração.

A cada manhã, Deus continua nos chamando a confiar nEle. Como o maná no deserto, Sua graça nos encontra no caminho. E como o Pão da Vida, Jesus continua sendo suficiente para sustentar Sua Igreja até o fim da jornada.

Precisamos do pão de Deus para atravessar o dia e do Pão da Vida para atravessar a vida; o corpo necessita da provisão de Suas mãos, mas a alma só encontra verdadeira satisfação na presença de Jesus.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

21/ago/26

  AINDA HÁ TEMPO PARA DAR FRUTO “Senhor, deixe-a ainda este ano, até que eu escave ao redor dela e ponha estrume. Se vier a dar fruto, mui...