VOCÊ TAMBÉM JÁ VIU ESSE DIA?

Abraão, o pai de vocês, alegrou-se por ver o meu dia; e ele viu esse dia e ficou alegre.” João 8:56 (NAA).

Para algumas pessoas, todos os dias parecem iguais. Levantam-se, cumprem sua rotina, enfrentam as mesmas tarefas e chegam ao fim do dia quase sem perceber o que aconteceu. Para outras, os dias têm sido difíceis, pesados, cheios de preocupações, lutas e incertezas. Há também aquelas para quem cada dia parece trazer alguma coisa nova: uma surpresa, uma conquista, uma notícia, uma mudança.

Mas, afinal, como está sendo o seu dia hoje? Talvez esteja sendo um dia comum. Talvez seja um daqueles dias que gostaríamos de esquecer. Ou talvez esteja acontecendo algo que ficará marcado para sempre em sua memória.

A Bíblia também fala de um Dia que marcou a história. Um Dia tão importante que Abraão, mesmo vivendo muitos séculos antes de Jesus nascer, alegrou-se ao contemplá-lo pela fé.

Jesus estava conversando com pessoas que conheciam muito bem a história de Abraão. Para elas, Abraão era o grande patriarca, o pai da nação e uma das figuras mais importantes da fé de Israel. Mas Jesus fez uma afirmação surpreendente: Abraão havia se alegrado por ver o Seu dia; viu esse dia e ficou alegre. Que dia era esse?

Jesus estava falando do Seu próprio dia, daquilo que Deus realizaria por meio dEle. Abraão viveu muitos séculos antes do nascimento de Jesus em Belém, mas recebeu promessas que apontavam para algo muito maior do que aquilo que conseguiria ver durante sua própria vida. Deus havia dito que, por meio de sua descendência, todas as famílias da terra seriam abençoadas. Abraão recebeu a promessa, creu em Deus e viveu olhando para aquilo que ainda estava adiante.

Não precisamos afirmar que Abraão conhecia todos os detalhes da vida de Jesus como nós os conhecemos hoje. Ele não conheceu Belém, não caminhou pelas ruas da Galileia, não ouviu o Sermão do Monte nem viu com seus olhos os acontecimentos que cercaram a morte e a ressurreição de Cristo. Mas Jesus afirmou que Abraão viu o Seu dia e se alegrou. De alguma maneira, pela fé, aquele homem percebeu que a promessa de Deus alcançava muito além de sua própria existência. Isso torna a pergunta ainda mais séria para nós: você também já viu esse Dia?

Nós vivemos depois daquilo que Abraão esperou pela fé. Sabemos que Jesus nasceu. Conhecemos Sua história. Temos os Evangelhos. Ouvimos falar de Seus milagres, de Seus ensinamentos, de Sua morte e de Sua ressurreição. Podemos ter uma Bíblia dentro de casa, frequentar uma igreja durante muitos anos e conhecer dezenas de versículos. Mas existe uma grande diferença entre saber que Jesus veio e enxergar, pela fé, o significado de Sua vinda.

Há pessoas que conhecem Jesus apenas como personagem da história. Sabem que Ele nasceu em Belém, morreu numa cruz e ressuscitou. Conhecem as informações, mas o coração nunca foi alcançado por elas. É possível até passar muitos anos dentro de uma igreja e ainda não perceber a grandeza desse Dia. Abraão se alegrou.

Essa alegria é importante. Quando ele viu pela fé aquilo que Deus estava preparando, sua reação não foi de indiferença. A promessa produziu alegria.

Talvez seja exatamente aí que devamos examinar nossa própria vida. O que sentimos quando pensamos em Cristo? Apenas familiaridade? Costume? Uma história que ouvimos tantas vezes que já não nos impressiona?

Imagine alguém que espera durante muitos anos pela chegada de uma pessoa amada. A cada notícia, seu coração se enche de expectativa. Quando finalmente essa pessoa chega, ninguém precisa explicar que aquele momento é importante. A alegria aparece naturalmente.

Abraão esperou pela promessa. Nós vivemos depois de seu cumprimento. Por isso, nossa responsabilidade é ainda maior.

Mas existe algo mais. Nós também estamos esperando um Dia.

Abraão olhava para a frente e, pela fé, contemplava aquilo que Deus ainda faria. Nós podemos olhar para trás e ver que Cristo veio, morreu e ressuscitou. Entretanto, Jesus também deixou uma promessa para aqueles que são Seus: Ele voltará. “E, quando eu for e preparar um lugar, voltarei e os receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, vocês estejam também.” João 14:3 (NAA).

A Igreja vive entre esses dois grandes acontecimentos: Cristo veio e Cristo voltará. Olhamos para trás e contemplamos uma promessa cumprida; olhamos para frente e esperamos outra promessa que também se cumprirá. Por isso, podemos fazer novamente a mesma pergunta: Você já viu esse Dia?

Não com os olhos naturais, porque esse Dia ainda não chegou. Mas já o contemplou pela fé? A volta de Jesus é apenas uma doutrina que você aprendeu ou é uma esperança que influencia a maneira como você vive hoje?

Quem espera encontrar alguém se prepara para esse encontro. Da mesma maneira, esperar a volta de Cristo não é simplesmente tentar descobrir uma data. É viver hoje sabendo que haverá um amanhã diante dEle. É rever prioridades, perdoar enquanto há tempo, abandonar aquilo que nos afasta de Deus, buscar uma vida de comunhão com Ele e não permitir que as coisas passageiras deste mundo ocupem todo o nosso coração.

Talvez alguém esteja procurando felicidade em dinheiro, reconhecimento, segurança, relacionamentos ou conquistas pessoais. Não há necessariamente algo errado em possuir essas coisas, mas nenhuma delas consegue ocupar o lugar que pertence a Cristo. Podemos conquistar muito e continuar sem perceber que o maior acontecimento da história já ocorreu: Deus cumpriu Sua promessa e enviou Seu Filho. E podemos estar tão ocupados com esta vida que nos esqueçamos de que ainda existe uma promessa diante de nós: Esse mesmo Cristo voltará.

Logo depois das palavras sobre Abraão, os judeus perguntaram como Jesus poderia ter visto Abraão, já que não tinha nem cinquenta anos. Então Jesus fez uma declaração ainda mais impressionante: “Em verdade, em verdade lhes digo que, antes que Abraão existisse, Eu Sou.” João 8:58 (NAA).

Eles estavam diante dAquele a Quem Abraão havia esperado pela fé, mas não conseguiam enxergar.

Esse talvez seja um dos maiores perigos da vida espiritual: estar perto de Jesus e não perceber Quem Ele é.

Abraão estava distante no tempo e viu pela fé. Aqueles homens estavam fisicamente diante de Jesus e não O reconheceram. Nós estamos muitos séculos depois de Sua primeira vinda e aguardamos Sua volta. Por isso, a pergunta permanece atual:

Você também já viu esse Dia?

Abraão viu pela fé o Dia que estava adiante e se alegrou. Nós olhamos para trás e contemplamos a promessa cumprida, mas também levantamos os olhos para outra promessa. Cristo veio. Cristo morreu. Cristo ressuscitou. Cristo voltará para buscar a sua igreja.

Abraão viu pela fé o Dia de Cristo que ainda viria e se alegrou; nós contemplamos o Dia que já aconteceu e aguardamos, também pela fé, o grande Dia em que Ele voltará para nos buscar. A pergunta é: você também já viu esse Dia?

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

14/set/26

 

QUANDO VOLTAR É O COMEÇO DE UMA NOVA HISTÓRIA

O seu povo é o meu povo, e o seu Deus é o meu Deus.” Rute 1:16 (NAA).

Quando voltar se faz necessário? Há momentos em que percebemos que estamos no lugar errado, seguindo uma direção que já não deveríamos seguir ou insistindo em algo que Deus está mostrando que precisa mudar. Às vezes isso acontece porque não esperamos o tempo do Senhor. Queremos resolver depressa aquilo que Ele está usando para nos ensinar, fortalecer e amadurecer. Em vez de esperar, tomamos decisões precipitadas, como se Deus precisasse de nossa ajuda para cumprir Seus planos.

O primeiro capítulo de Rute começa com fome. Elimeleque sai de Belém com Noemi e seus dois filhos e vai morar em Moabe. A Bíblia não diz diretamente que aquela mudança foi um pecado, e por isso precisamos ter cuidado para não afirmar o que o texto não afirma. O que sabemos é que uma família saiu de Belém procurando sobrevivência e, em Moabe, Noemi enfrentou perdas terríveis. Primeiro morreu seu marido. Depois morreram seus dois filhos. Aquela mulher, que havia partido acompanhada da família, agora estava viúva e sem filhos.

Então alguma coisa mudou. Noemi soube que o Senhor havia novamente dado alimento ao Seu povo e decidiu voltar para Belém. Essa decisão nos ensina algo precioso: o retorno começa quando reconhecemos que chegou a hora de voltar.

Isso também acontece conosco. Uma pessoa pode perceber que se afastou de Deus, abandonou a comunhão da igreja, deixou a oração de lado e quase não abre mais a Bíblia. Outra pode ter tomado uma decisão precipitada, rompido um relacionamento que poderia ter sido restaurado ou escolhido um caminho profissional apenas por ansiedade. Talvez não seja possível desfazer tudo o que aconteceu, mas sempre podemos perguntar: “Senhor, onde estou e para onde Tu queres me conduzir agora?”

Reconhecer que precisamos voltar exige humildade. Muitas vezes permanecemos em situações ruins simplesmente porque não queremos admitir que fizemos uma escolha errada. Temos medo de voltar e ouvir perguntas, enfrentar comentários ou reconhecer que as coisas não aconteceram como imaginávamos. Noemi também teria de retornar a Belém e encontrar pessoas que a conheceram antes de sua partida. Mesmo carregando tristeza, ela voltou.

O retorno também exige decisões e renúncias. Rute poderia permanecer em Moabe. Ali estavam sua origem, seus costumes e tudo aquilo que lhe era conhecido. No entanto, ela decidiu acompanhar Noemi e fez uma declaração que revelou algo muito maior do que amor por sua sogra: escolheu também o Deus de Israel.

Há coisas que não podemos levar conosco quando decidimos voltar para Deus. Não podemos desejar uma vida nova continuando presos aos mesmos hábitos que nos afastaram dEle. Quem deseja reconstruir o casamento talvez precise abandonar o orgulho. Quem deseja restaurar a comunhão com Deus talvez precise reorganizar seu tempo. Quem deseja uma vida diferente talvez tenha de se afastar de ambientes e escolhas que continuamente o conduzem para longe do Senhor. Não é possível caminhar em direção a Belém mantendo o coração preso a Moabe.

Entretanto, voltar não significa que a dor desaparecerá imediatamente. Noemi chegou a Belém ainda profundamente ferida. Em Rute 1:20-21, ela revela às mulheres da cidade toda a amargura que carregava e afirma que havia saído plena, mas estava retornando vazia.

Esse detalhe é muito importante. Podemos voltar para o lugar certo ainda carregando lágrimas. Podemos retornar à igreja e ainda ter perguntas. Podemos recomeçar um casamento e ainda precisar tratar feridas. Podemos voltar a orar depois de muito tempo e perceber que nossa fé ainda está enfraquecida. Deus não exige que estejamos completamente restaurados para iniciarmos o caminho de volta. Muitas vezes, a restauração começa justamente enquanto estamos voltando.

E há algo extraordinário na história de Noemi: ela dizia estar voltando vazia, mas Rute estava caminhando ao seu lado. Noemi ainda não conseguia perceber, porém uma parte da providência de Deus já a acompanhava pela estrada.

Ela ainda não conhecia Boaz. Não sabia o que aconteceria nos campos de Belém. Não imaginava o casamento de Rute, o nascimento de Obede nem tudo o que Deus ainda faria por meio daquela família. Muito menos poderia imaginar que, daquela linhagem, muitas gerações depois, viria Jesus, o Salvador. Via apenas aquilo que havia perdido, enquanto Deus já estava preparando aquilo que viria depois.

O primeiro capítulo de Rute termina no começo da colheita da cevada. O capítulo que começou com fome termina com colheita; a história que começou com uma saída termina com um retorno; e a mulher que acreditava estar chegando vazia estava, sem perceber, entrando exatamente no lugar onde Deus começaria Sua obra de restauração. “Assim, Noemi voltou, e com ela, Rute, a moabita, sua nora, que voltava dos campos de Moabe; e chegaram a Belém no princípio da sega das cevadas.” Rute 1:22 (ARC)

Talvez hoje também seja tempo de voltar. Não para tentar recuperar exatamente o que ficou para trás, mas para colocar novamente a vida na direção de Deus. Quem volta talvez ainda carregue feridas, perguntas e consequências de escolhas passadas. Mas uma coisa muda: está novamente caminhando na direção certa.

O retorno não apaga todas as marcas do caminho que percorremos, mas nos coloca novamente no lugar onde a providência de Deus pode transformar nosso vazio em começo de uma nova história.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

13/set/26

 

VOTO É COISA SÉRIA

E Jefté fez um voto ao Senhor e disse: Se totalmente deres os filhos de Amom na minha mão, aquilo que, saindo da porta de minha casa, me sair ao encontro, voltando eu dos filhos de Amom em paz, isso será do Senhor, e o oferecerei em holocausto.” Juízes 11:30-31 (ARC).

Tenho quase certeza de que já tratamos desse tema em algum momento, mas alguns assuntos são sérios demais para serem esquecidos. E um deles é aquilo que prometemos a Deus.

Encontramos em Juízes 11, a partir do versículo 29, um acontecimento que marcaria profundamente a vida de Jefté como consequência de uma palavra precipitada. Ele era um homem valente e havia sido escolhido para liderar Israel na batalha contra os filhos de Amom. O momento era de tensão, responsabilidade e perigo.

Mas existe um detalhe que não pode passar despercebido. Antes de Jefté fazer seu voto, a Bíblia diz que o Espírito do Senhor veio sobre ele. Somente depois disso ele pronunciou aquelas palavras: se Deus lhe desse a vitória, aquilo que primeiro saísse da porta de sua casa ao seu encontro seria do Senhor. Mal sabia ele as consequências daquela promessa.

Esse detalhe nos ensina algo muito importante: não precisamos negociar com Deus para receber aquilo que Ele já decidiu fazer. O Espírito do Senhor já estava sobre Jefté antes do voto. Deus já estava agindo. A promessa de Jefté não fez o Senhor começar a trabalhar.

Quantas vezes fazemos algo parecido? Surge uma doença, uma dificuldade financeira, um problema com um filho, uma ameaça no emprego ou alguma situação que parece não ter saída, e começamos a negociar: “Senhor, se o Senhor fizer isso, eu prometo aquilo.” “Se meu filho ficar bom, vou fazer isto.” “Se eu conseguir esse emprego, nunca mais vou deixar de fazer aquilo.” “Se o Senhor me tirar desta situação, vou dedicar isto a Ti.”

É como se tentássemos dar uma “ajudinha” a Deus, imaginando que o problema fosse difícil demais para o Criador e Todo-Poderoso resolver sem a nossa negociação.

A oração é bíblica e necessária. A Palavra nos ensina que a oração do justo pode muito em seus efeitos (Tiago 5:16). Devemos apresentar a Deus nossas necessidades, nossas dores, nossos temores e nossos pedidos. Mas existe uma grande diferença entre oração e barganha.

Orar é colocar nossa necessidade diante de Deus e confiar nEle. Barganhar é tentar estabelecer uma troca: “Senhor, se fizeres isso por mim, eu farei aquilo por Ti.”

E há outro problema: muitas promessas são feitas durante a tempestade e esquecidas quando o céu volta a ficar azul.

No hospital, alguém promete. Diante de uma crise, promete. Quando está com medo, promete. Quando parece que tudo será perdido, promete. Mas, depois que a resposta chega e a vida volta ao normal, aquilo que parecia tão sério começa a desaparecer da memória. É exatamente aí que Salmo 76:11 completa a advertência de Juízes: “Fazei votos e pagai ao Senhor, vosso Deus...” Salmo 76:11 (ARC).

Jefté nos ensina a ter cuidado antes de prometer; o salmista nos lembra de nossa responsabilidade depois que prometemos.

A Bíblia não trata o voto como brincadeira espiritual. Eclesiastes 5:4-5 também nos adverte que, quando fazemos um voto a Deus, não devemos demorar em cumpri-lo. O princípio é muito claro: é melhor pensar antes de prometer do que prometer impulsivamente e depois procurar uma maneira de escapar daquilo que dissemos. A emoção de alguns minutos pode produzir compromissos para muito tempo.

Jefté estava diante de uma guerra. Havia tensão, perigo e expectativa. Foi justamente naquele ambiente que pronunciou sua promessa. Por isso precisamos ter cuidado com aquilo que dizemos nos momentos de maior aflição. Uma frase pode ser pronunciada em poucos segundos, mas suas consequências podem permanecer quando a emoção já passou.

Há ainda algo especialmente sério no voto de Jefté: ele prometeu algo sem saber exatamente quem seria alcançado por sua promessa. Quando voltou da batalha, quem saiu de casa para recebê-lo foi sua própria filha.

Há diferentes interpretações entre os estudiosos sobre a maneira como esse voto foi cumprido, mas uma lição permanece independentemente dessa discussão: não devemos comprometer irresponsavelmente a vida de outras pessoas por causa de decisões espirituais tomadas por nós.

Também não devemos pensar que promessas grandiosas impressionam Deus. O Senhor não Se deixa convencer por nossos discursos. Ele deseja obediência.

Às vezes imaginamos que uma promessa extraordinária seja sinal de grande fé. Nem sempre. Pode ser apenas precipitação. A verdadeira fidelidade normalmente aparece nas coisas simples: obedecer à Palavra, cumprir aquilo que assumimos, tratar corretamente as pessoas, ser fiel quando ninguém está olhando e manter nossa palavra quando já não existe emoção alguma nos empurrando.

Provérbios 20:25 também nos alerta sobre o perigo de consagrar alguma coisa precipitadamente e somente depois pensar no que foi feito. A ordem deveria ser exatamente o contrário: primeiro pensamos; depois prometemos.

Jesus também nos ensina a importância de uma palavra confiável. Em Mateus 5:37, Ele mostra que nosso “sim” deve ser sim e nosso “não”, não. A vida do cristão deve possuir tamanha seriedade que sua palavra não dependa de grandes juramentos para ser digna de confiança. Por isso, talvez antes de dizermos: “Senhor, eu prometo”, precisemos aprender a dizer: “Senhor, seja feita a Tua vontade.”

Podemos pedir. Podemos chorar. Podemos clamar. Podemos colocar diante dEle aquilo que parece impossível. Mas não precisamos negociar com Deus. Podemos confiar que Ele sabe o que faz e que Sua vontade continua sendo boa mesmo quando não compreendemos tudo. E, se fizermos um voto, não devemos tratá-lo com leviandade.

Não prometa no calor da aflição aquilo que pretende esquecer quando a tempestade passar. Diante de Deus, a palavra não deve nascer da precipitação nem terminar no esquecimento: antes de prometer, pense; depois de prometer, seja fiel.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

12/set/26

 

                                    UMA IGREJA QUENTE NÃO PODE FICAR PARADA

“Conheço as suas obras, que você não é nem frio nem quente. Quem dera você fosse frio ou quente!” Apocalipse 3:15 (NAA).

A igreja de Laodiceia tinha um problema gravíssimo: estava satisfeita consigo mesma. Achava que possuía tudo de que precisava, mas Jesus enxergava outra realidade. Havia aparência de prosperidade, porém faltava vida espiritual. Aquela igreja havia perdido a percepção de quanto precisava de Cristo. Essa advertência continua atual.

O próprio nome Laodiceia é associado à ideia de “justiça do povo” ou “direitos do povo”. Isso chama atenção quando olhamos para os nossos dias. Nunca se falou tanto em direitos, dignidade, proteção dos vulneráveis, justiça e respeito às pessoas. Muitas dessas preocupações são legítimas. A Igreja de Cristo não pode olhar para a fome, a violência, a solidão, a pobreza e o abandono como se nada disso tivesse relação com sua missão.

Mas a missão da Igreja não termina aí. Ela não foi chamada apenas para defender direitos ou aliviar necessidades temporais. Foi chamada para ir, anunciar o Evangelho, fazer discípulos e proclamar o Reino de Deus. Uma Igreja viva estende a mão a quem sofre, mas também aponta para Cristo.

Jesus deixou uma ordem clara: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês.” Mateus 28:19-20 (NAA). A Igreja nasceu para ir.

Ir até quem não conhece Cristo. Ir até quem perdeu a esperança. Ir até quem nunca ouviu o Evangelho com clareza. Ir até quem está perto, mas espiritualmente distante. Ir às casas, às ruas, aos hospitais, às escolas e aos locais de trabalho, porque ainda existem pessoas que precisam ouvir que não há salvação em nenhum outro, senão em Jesus.

Na parábola da grande ceia, o senhor manda o servo sair e buscar justamente aqueles que estavam à margem: “Saia depressa para as ruas e becos da cidade e traga para cá os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos.” Lucas 14:21 (NAA). E, quando ainda havia lugar, ordenou: “Saia pelos caminhos e atalhos e obrigue todos a entrar, para que a minha casa fique cheia.” Lucas 14:23 (NAA).

Jesus não está ensinando coerção, mas mostrando a urgência do convite. O servo não podia ficar dentro da casa esperando. Precisava sair. A Igreja também não pode permanecer dentro de seus templos esperando que os perdidos encontrem sozinhos o caminho. O “Ide” continua sendo uma ordem para sair. A Igreja foi chamada por Cristo, mas não para permanecer parada; foi chamada para pertencer a Ele e enviada para alcançar aqueles que ainda estão do lado de fora.

Uma igreja pode ficar tão ocupada cuidando de si mesma que se esquece de por que existe. Pode ter bons templos, cultos organizados e agendas cheias, mas já não alcançar ninguém fora de suas paredes. Isso também pode ser mornidão.

Uma Igreja quente não é apenas uma Igreja que canta com entusiasmo. É uma Igreja que carrega no coração aquilo que estava no coração de Cristo: alcançar pessoas.

Jesus disse: “E será pregado este evangelho do Reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim.” Mateus 24:14 (NAA). O Reino precisa ser anunciado. Cada vez que a Igreja vai, evangeliza e anuncia Cristo, participa do propósito de Deus que conduz a história para sua consumação e para a volta do Senhor Jesus.

Evangelizar não é aumentar o número de pessoas dentro de uma igreja. É cumprir uma ordem de Cristo. É anunciar que Deus não abandonou o pecador, que Cristo veio ao mundo, morreu e ressuscitou, e que nEle há perdão, nova vida e esperança eterna.

Mas esse anúncio precisa caminhar junto com aquilo que pregamos. Não adianta falar do amor de Deus e permanecer indiferente diante de uma família sem alimento. Não podemos anunciar que Cristo acolhe o pecador e tratar com desprezo alguém destruído pela vida. Não podemos falar de misericórdia e ignorar um idoso sozinho, um enfermo ou um jovem preso às drogas.

Por isso, uma Igreja viva trabalha em duas direções que nunca deveriam ser separadas: estende a mão ao homem e aponta o caminho para Cristo. Quando encontra alguém com fome, oferece alimento, mas não esconde o Pão da Vida. Quando encontra alguém ferido, oferece acolhimento, mas apresenta Aquele que pode restaurar o coração.

Uma igreja pode errar dos dois lados. Pode preocupar-se apenas com questões sociais e esquecer-se de anunciar arrependimento e salvação. Ou pode falar de salvação enquanto fecha os olhos para a dor que está diante de sua porta. Jesus não nos chamou para nenhum desses extremos. A ordem não foi: “Esperem que eles venham.” Foi: “Vão.”

Então precisamos perguntar: estamos indo? Quantos afastados foram procurados? Quantos enfermos foram visitados? Quantos necessitados receberam ajuda? Quantas pessoas foram convidadas não apenas para um culto, mas para conhecer Cristo?

Uma Igreja quente não vive fechada em si mesma. Ela ora, mas também vai. Adora, mas também anuncia. Ensina os que estão dentro, mas procura os que estão fora. Socorre a necessidade do corpo, mas não se esquece da eternidade da alma.

Laodiceia precisava voltar para Cristo. Nós também precisamos. Somente uma Igreja aquecida pela presença de Jesus terá amor suficiente para olhar para a dor humana e paixão suficiente para continuar anunciando o Seu Reino.

Uma Igreja aquecida pela presença de Cristo não vive para si mesma: estende a mão a quem sofre, vai ao encontro de quem está perdido e anuncia, com palavras e atitudes, que somente em Jesus há salvação e vida.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

11/set/26

 

QUANDO O DESERTO NÃO SIGNIFICA ABANDONO

“O Senhor ia adiante deles, durante o dia, numa coluna de nuvem, para os guiar pelo caminho; durante a noite, numa coluna de fogo, para os iluminar, a fim de que caminhassem de dia e de noite.” Êxodo 13:21 (NAA).

Quando pensamos no deserto, normalmente imaginamos um lugar seco, difícil, solitário e sem caminhos bem definidos. Na vida também passamos por períodos assim. Há momentos em que não sabemos o que fazer, não entendemos o que Deus está permitindo e nem conseguimos enxergar como será o dia seguinte. Podemos chamar essas fases de desertos da alma.

Foi justamente para o deserto que o povo de Israel caminhou depois de sair do Egito. Eles haviam experimentado uma grande libertação, mas isso não significava que, dali em diante, tudo seria fácil. À frente havia areia, sede, calor, noites frias, inimigos e muitas incertezas. Entretanto, havia algo ainda mais importante: Deus estava com eles.

Durante o dia, o Senhor ia adiante do povo numa coluna de nuvem. Durante a noite, numa coluna de fogo. A nuvem orientava o caminho e a coluna de fogo iluminava a escuridão. O deserto continuava sendo deserto, mas agora havia uma Presença dentro dele.

Isso nos ensina algo precioso: estar no deserto não significa ter sido abandonado por Deus.

Talvez alguém esteja vivendo um deserto porque perdeu uma pessoa querida. Outro não sabe como pagará as contas no próximo mês. Alguém procura trabalho e as portas parecem permanecer fechadas. Uma família espera o resultado de um exame médico. Pais choram por um filho que se afastou. Um casamento atravessa dias difíceis. Há também quem esteja cercado de pessoas, mas se sinta profundamente sozinho.

Nesses momentos, podemos pensar: “Onde está Deus?”

Israel poderia ter feito a mesma pergunta. Porém, bastava levantar os olhos. A nuvem continuava ali durante o dia e o fogo continuava brilhando durante a noite.

A Bíblia acrescenta algo ainda mais bonito: “A coluna de nuvem nunca se afastou do povo durante o dia, nem a coluna de fogo durante a noite.” Êxodo 13:22 (NAA). Observe a expressão: “nunca se afastou.”

Deus não retirou a coluna quando o povo estava cansado. Não a retirou porque começaram a surgir dificuldades. Não esperou que chegassem à Terra Prometida para estar com eles. Sua presença foi justamente com eles durante a caminhada.

Às vezes imaginamos que a presença de Deus será percebida somente quando o problema acabar. Pensamos que Deus estará conosco quando o emprego aparecer, quando a enfermidade passar, quando a família se reconciliar ou quando finalmente recebermos a resposta pela qual estamos orando. Mas a coluna de fogo nos ensina que Deus não está apenas no final do deserto. Ele está conosco enquanto atravessamos o deserto.

Talvez Ele não explique imediatamente por que estamos passando por determinada situação, mas continua indicando o próximo passo. Nem sempre ilumina todo o caminho de uma vez, mas oferece luz suficiente para continuarmos andando.

Isso também é fé. Fé não é possuir todas as respostas. É continuar caminhando porque sabemos Quem vai à nossa frente.

Há ainda um detalhe maravilhoso. A coluna de fogo aparecia justamente quando a noite chegava. Quando o povo mais precisava de luz, Deus providenciava luz. Assim também acontece conosco. Existem experiências que jamais escolheríamos viver, mas é nelas que muitas vezes aprendemos verdades sobre Deus que antes conhecíamos apenas de ouvir falar.

Na noite da tristeza descobrimos que Ele consola. Na incerteza descobrimos que Ele guia. Na fraqueza descobrimos que Ele sustenta. Na solidão descobrimos que Sua presença não depende da presença de outras pessoas.

Hoje não vemos uma coluna de nuvem no céu nem uma coluna de fogo diante de nossa casa, mas temos uma promessa ainda maior. Jesus declarou: “E eis que estou com vocês todos os dias até o fim dos tempos.” Mateus 28:20 (NAA).

Todos os dias incluem os dias bons e os ruins, os dias de celebração e os de lágrimas, os dias em que entendemos o caminho e aqueles em que tudo parece confuso.

Por isso, se você está atravessando um deserto, não conclua que Deus Se esqueceu de você. Talvez o cenário ao seu redor ainda não tenha mudado, mas olhe novamente pela fé: Ele continua presente.

A coluna de fogo não eliminou o deserto, mas mostrou que Israel não o atravessaria sozinho. E a presença de Cristo também não significa que jamais teremos desertos. Significa algo muito melhor: nenhum deserto precisará ser atravessado sem Ele.

O deserto pode esconder de nossos olhos o caminho, mas nunca consegue esconder a presença de Deus; quando não sabemos para onde ir, Ele continua indo à nossa frente.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

10/set/26

 

A PALAVRA QUE SE TORNA ALICERCE

“Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha.” Mateus 7:24 (NAA).

Quando Jesus terminou o Sermão do Monte, as multidões ficaram maravilhadas. Elas estavam acostumadas a ouvir mestres que conheciam profundamente a Lei e citavam antigas tradições. Jesus, porém, ensinava de maneira diferente. “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, as multidões estavam maravilhadas com a sua doutrina, porque ele as ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas.” Mateus 7:28-29 (NAA).

A autoridade de Jesus não estava no volume de Sua voz nem em palavras difíceis. Ele falava como Aquele que conhece perfeitamente a vontade do Pai. Durante aquele sermão, falou sobre perdão, oração, ansiedade, pureza, amor, sinceridade, julgamento, prioridades e relacionamento com Deus. Seus ensinamentos não foram dados apenas para aumentar o conhecimento das pessoas, mas para transformar a maneira como elas viviam.

Por isso, Jesus terminou Seu discurso falando de duas casas. Uma foi construída sobre a rocha e a outra sobre a areia. As duas enfrentaram chuva, rios transbordando e ventos fortes. A diferença não estava na tempestade, porque ela chegou para ambas. A diferença estava no alicerce.

Jesus explicou claramente quem constrói sobre a rocha: aquele que ouve Suas palavras e as pratica. Portanto, não basta ouvir uma boa pregação, concordar com o pregador, anotar um versículo ou sair emocionado de um culto. A Palavra precisa encontrar lugar nas nossas decisões.

Imagine alguém que ouve uma mensagem sobre perdão. Durante o culto, sente-se tocado e reconhece que guarda ressentimento há muito tempo. No entanto, volta para casa e continua alimentando a mesma mágoa, repetindo as mesmas acusações e recusando qualquer possibilidade de reconciliação. A Palavra chegou aos ouvidos, mas ainda precisa alcançar as atitudes. Construir sobre a rocha começa quando aquela pessoa decide obedecer a Jesus, mesmo que perdoar seja difícil.

O mesmo acontece com a honestidade. Alguém recebe por engano um dinheiro que não lhe pertence e percebe que poderia ficar calado. Ninguém provavelmente descobriria. É justamente ali, longe do culto e sem ninguém observando, que o alicerce aparece. A Palavra que ouvimos no domingo precisa orientar também aquilo que fazemos na segunda-feira. Jesus disse: “O Espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita. As palavras que eu lhes tenho falado são espírito e são vida.” João 6:63 (NAA).

Vivemos cercados por palavras. Todos os dias chegam ao nosso celular opiniões, vídeos, notícias, conselhos e mensagens. Algumas despertam medo, outras alimentam a revolta, o orgulho ou a ansiedade. Há tanta informação disponível que uma pessoa pode passar horas ouvindo muitas vozes e, ainda assim, terminar o dia espiritualmente vazia.

Por isso precisamos conhecer cada vez mais a Palavra de Deus. Nem toda mensagem emocionante vem dEle. Nem toda pessoa que cita um versículo está ensinando corretamente. A Palavra não existe apenas para nos fazer sentir bem; algumas vezes ela consola, mas outras vezes confronta. Ela nos mostra o amor de Deus, mas também revela nosso pecado e nos chama ao arrependimento. Jesus falou sobre a obra do Espírito Santo: “Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo:” João 16:8 (NAA).

É por isso que alguém pode entrar num culto carregando uma decisão errada e, durante a pregação, perceber que precisa mudar. Outra pessoa pode chegar desanimada, pensando que não conseguirá continuar, e encontrar na Palavra forças para enfrentar mais um dia. Não é simplesmente a habilidade de quem fala. É o Espírito Santo usando a verdade para alcançar o coração.

O profeta Amós anunciou um tempo em que haveria “fome — não de pão, e sede — não de água, mas de ouvir as palavras do Senhor.” Amós 8:11 (NAA). Essa advertência também nos faz pensar em nossos dias. Temos acesso a milhares de mensagens, mas quantidade de conteúdo religioso não significa necessariamente alimento espiritual.

Há pessoas cansadas de promessas fáceis e de mensagens que falam somente de prosperidade, sucesso e ausência de problemas. Jesus nunca prometeu uma casa sem tempestades. Ele prometeu algo melhor: um fundamento capaz de sustentá-la quando a tempestade chegar.

Aquele que construiu sobre a rocha também enfrentou chuva, rios e ventos. Ser cristão não significa viver sem enfermidades, perdas, problemas familiares ou dias de ansiedade. Significa que, quando essas coisas chegarem, existe um fundamento que não depende das circunstâncias.

Por isso, o maior resultado de uma pregação não é ouvirmos alguém dizer: “Que mensagem bonita!” A multidão ficou maravilhada com Jesus, mas Ele esperava algo além da admiração: obediência.

Quando a Palavra consola, recebamos o consolo. Quando corrige, aceitemos a correção. Quando revela um pecado, arrependamo-nos. Quando mostra um caminho, sigamos por ele. Ouvir aproxima a Palavra dos nossos ouvidos; obedecer permite que ela desça ao coração e se transforme em alicerce para a vida.


Quando a Palavra de Jesus deixa de ser apenas aquilo que ouvimos e passa a ser aquilo que vivemos, nossa vida encontra na Rocha um alicerce que nenhuma tempestade poderá destruir.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

09/set/26

 

NÃO PRECISAMOS SER A CÓPIA DE NINGUÉM

“Mas que cada um examine o seu próprio modo de agir e, então, terá motivo de gloriar-se unicamente em si e não em outro.” Gálatas 6:4 (NAA).

Vivemos em uma época em que nunca foi tão fácil olhar para a vida dos outros. Abrimos o celular e, em poucos minutos, vemos pessoas viajando, comprando casas, mudando de carro, alcançando posições profissionais, mostrando corpos perfeitos, famílias sorridentes e rotinas que parecem sempre melhores do que a nossa.

O problema não está em admirar alguém. Podemos aprender com outras pessoas, reconhecer qualidades e até nos inspirar em bons exemplos. O perigo começa quando a admiração se transforma em comparação e a comparação começa a nos convencer de que precisamos ser outra pessoa para ter valor. A Bíblia nos ensina algo diferente.

Paulo escreve que cada um deve examinar o seu próprio modo de agir. Ele não manda medir nossa vida pela vida do vizinho, do amigo, do irmão da igreja ou daquela pessoa que acompanhamos nas redes sociais. Deus não nos chamou para viver tentando reproduzir a história de outra pessoa.

Há pessoas sofrendo porque estão tentando ocupar uma vida que não lhes pertence.

O jovem olha para alguém que alcançou sucesso rapidamente e começa a considerar a própria caminhada um fracasso. Uma mulher observa outra nas redes sociais e passa a sentir que sua aparência não é boa o suficiente. Um homem compara sua situação financeira com a de amigos e passa a desprezar aquilo que conseguiu construir. Até dentro da igreja isso pode acontecer: alguém gostaria de cantar como outro, pregar como outro, ter a desenvoltura de outro ou possuir os mesmos dons de determinada pessoa.

A comparação tem uma característica perigosa: ela quase sempre nos faz esquecer aquilo que Deus já colocou em nossas mãos.

Davi poderia ter tentado ser Saul quando enfrentou Golias. Aliás, Saul até lhe ofereceu sua própria armadura. Mas Davi percebeu que não conseguiria lutar vestido como outra pessoa. Aquela armadura não correspondia à sua experiência. Ele a retirou e enfrentou Golias usando aquilo que Deus já havia ensinado a utilizar.

Existe uma grande lição nisso: não precisamos usar a armadura de outra pessoa para cumprir aquilo que Deus espera de nós. Deus não precisa de uma segunda versão de alguém que já existe. Ele quer trabalhar em nós.

Isso não significa dizer: “Eu sou assim e nunca vou mudar.” Esse pensamento não é bíblico. Cristo nos chama à transformação. Existem comportamentos que precisam mudar, pecados que precisam ser abandonados, atitudes que precisam amadurecer e áreas de nossa vida que precisam ser tratadas.

Ser você mesmo não significa permanecer exatamente como está. Significa permitir que Deus transforme você, e não viver tentando transformar você em outra pessoa.

Há uma diferença enorme o salmista reconheceu isso quando disse: “Graças te dou, visto que de modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem.” Salmos 139:14 (NAA).

Nossa identidade não começa diante do espelho, nem diante da opinião dos outros. Ela começa diante dAquele que nos criou.

Isso nos ajuda a compreender a verdadeira autoestima à luz da Bíblia. O cristão não precisa dizer: “Eu sou maravilhoso porque decidi pensar assim.” Nossa segurança possui fundamento muito maior: fomos criados por Deus, somos conhecidos por Ele e, em Cristo, somos chamados para uma vida com propósito. Por isso, não precisamos gastar a vida inteira tentando impressionar pessoas.

Também não precisamos construir uma personalidade para sermos aceitos.

É possível dizer “não sei” quando não sabemos. É possível reconhecer uma fraqueza. É possível admitir que precisamos aprender. É possível não possuir aquilo que os outros possuem e, ainda assim, agradecer pelo que Deus nos confiou.

As redes sociais tornam essa batalha ainda mais difícil porque normalmente comparamos nossa vida completa com pequenos recortes cuidadosamente escolhidos da vida de outras pessoas. Vemos a fotografia, mas não conhecemos as lágrimas. Vemos a conquista, mas não sabemos quanto custou. Vemos o sorriso, mas não sabemos o que acontece quando a câmera é desligada.

Por isso, Paulo nos direciona novamente para nossa própria caminhada: examine o seu próprio modo de agir.

A pergunta mais importante não é: “Estou tão bem quanto aquela pessoa?” A pergunta é: “Estou me tornando aquilo que Deus deseja que eu seja?”

Talvez você não tenha os mesmos dons. Talvez sua história tenha começado de maneira diferente. Talvez seu ritmo seja outro. Talvez sua oportunidade ainda não tenha chegado. Mas Deus nunca lhe pediu para viver a vida de outra pessoa.

Ele deseja que você coloque diante dEle exatamente quem você é — suas qualidades, limitações, medos, sonhos, talentos e fraquezas — e permita que Sua graça transforme essa vida. Porque maturidade espiritual não é tornar-se parecido com todo mundo. É tornar-se cada vez mais parecido com Cristo, sem deixar de ser a pessoa única que Deus criou.

Você não precisa viver tentando ser outra pessoa para provar que tem valor. Deus não o chamou para ser uma cópia de alguém; Ele o chamou para entregar a Ele quem você é e permitir que Cristo transforme essa vida naquilo que ela foi criada para ser.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

08/set/26

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