QUANDO A ALMA NÃO QUER INDEPENDÊNCIA

“— Eu sou a videira, vocês são os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim vocês não podem fazer nada.” João 15:5 (NAA).

Hoje é 7 de setembro, o Brasil celebra sua independência. A palavra independência costuma trazer uma ideia muito positiva. Fala de liberdade, autonomia, capacidade de seguir o próprio caminho sem estar debaixo do domínio de outro. Para uma nação, isso tem grande importância. Mas, quando pensamos na vida espiritual, encontramos uma verdade aparentemente contrária: a alma não foi criada para viver independente de Deus.

Nosso problema começou justamente quando o ser humano desejou autonomia em relação ao Criador. No Éden, a tentação apresentada à humanidade foi, em essência, esta: “Vocês podem decidir por si mesmos o que é certo e errado. Não precisam depender de Deus.” Desde então, o coração humano continua sendo atraído por essa mesma ideia.

Queremos controlar a própria vida, definir os próprios caminhos, escolher nossos valores e, muitas vezes, procurar Deus apenas quando aquilo que planejamos não funciona.

Jesus, porém, apresentou uma imagem completamente diferente. Ele disse que é a videira e nós somos os ramos. Um ramo pode até parecer independente depois de ser cortado da árvore, mas aquela independência é apenas o começo da morte. Durante algum tempo ele ainda conserva a aparência de vida, mas perdeu a fonte que o sustentava.

Assim acontece conosco. Podemos trabalhar, estudar, construir uma família, fazer planos, administrar dinheiro e tomar muitas decisões sem perguntar nada a Deus. Aos olhos humanos, talvez pareçamos fortes e autossuficientes. Mas Jesus foi muito claro: sem mim vocês não podem fazer nada.” João 15:5 (NAA).

Isso não significa que uma pessoa sem Cristo seja incapaz de trabalhar ou realizar coisas importantes. Significa que, separados dEle, não conseguimos produzir aquilo que possui verdadeiro valor espiritual e eterno. Podemos construir uma vida inteira e, ainda assim, descobrir que construímos longe da Fonte da vida.

Pense numa pessoa que recebe uma proposta profissional excelente. O salário é maior, o cargo é melhor e tudo parece perfeito. Ela pode simplesmente decidir olhando para os números ou pode parar e perguntar: “Senhor, isso realmente é bom para mim e para minha família? Este caminho me aproxima ou me afasta de Ti?”

Outra pessoa enfrenta um problema no casamento. Sua vontade é agir impulsivamente, responder na mesma medida ou desistir. Depender de Deus é reconhecer: “Senhor, meus sentimentos estão me dizendo uma coisa, mas quero saber o que Tua Palavra me ensina.”

Dependência de Deus não significa falta de personalidade ou incapacidade de tomar decisões. Pelo contrário. Significa reconhecer que somos livres, mas não somos suficientes em nós mesmos.

Há uma independência da qual realmente precisamos: a independência do pecado. Jesus veio nos libertar daquilo que nos escravizava. Mas essa liberdade não nos transforma em pessoas que não precisam mais de ninguém. Cristo nos liberta do pecado para que possamos viver ligados a Ele.

Esse talvez seja um dos grandes enganos da nossa geração. O mundo nos ensina a dizer: “Eu não preciso de ninguém. Eu me basto. Eu decido minha verdade. Eu faço meu próprio caminho.” O Evangelho nos ensina outra oração: “Senhor, eu preciso de Ti.”

Existe uma enorme diferença entre viver escravizado aos homens e viver voluntariamente dependente de Deus. A primeira condição oprime; a segunda sustenta. A primeira rouba liberdade; a segunda nos conduz à verdadeira liberdade.

Até nossa oração revela essa dependência. Quando pedimos o pão de cada dia, estamos reconhecendo que nossa vida continua nas mãos de Deus. Quando pedimos direção, admitimos que nem sempre sabemos qual caminho escolher. Quando pedimos perdão, reconhecemos que não conseguimos resolver sozinhos o problema do pecado. Quando pedimos forças, confessamos que existem batalhas maiores do que nós.

A criança pequena segura a mão do pai não porque perdeu sua liberdade, mas porque confia naquele que conhece melhor o caminho. Talvez seja essa uma boa imagem da vida cristã. Deus não deseja nos transformar em pessoas incapazes de pensar ou decidir. Ele deseja que aprendamos a caminhar sabendo em Quem estamos segurando.

No Dia da Independência, celebramos a liberdade de uma nação. Mas também podemos fazer uma pergunta ao nosso coração: de quem estamos tentando nos tornar independentes?

Se for do pecado, das paixões que nos dominam, do medo, da opinião dos outros e de tudo aquilo que nos afasta de Deus, devemos desejar essa liberdade cada vez mais.

Mas, se estamos tentando nos tornar independentes do Senhor, estamos deixando justamente Aquele de Quem nossa alma mais precisa.

Há independências que são conquistas. E há uma dependência que é privilégio.

A verdadeira liberdade não é aprender a viver sem Deus, mas ser libertado de tudo aquilo que nos impede de reconhecer que, sem Ele, nossa alma nunca será verdadeiramente livre.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

07/set/26

 

VOCÊ PODE ESCOLHER O CAMINHO, MAS NÃO AS CONSEQUÊNCIAS

Hoje tomo o céu e a terra por testemunhas contra vocês, que lhes propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolham, pois, a vida, para que vivam, vocês e os seus descendentes,” Deuteronômio 30:19 (NAA).

Deuteronômio 28 apresenta algo que chama muito a atenção. Os primeiros 14 versículos falam das bênçãos relacionadas à obediência, enquanto do versículo 15 ao 68 encontramos as consequências da desobediência. São 14 versículos de bênçãos e 54 versículos de advertências e maldições. A diferença é grande, mas isso não significa que Deus tenha mais prazer em castigar do que em abençoar. Mostra, antes, como Ele queria deixar absolutamente claro que abandonar Sua aliança não era uma decisão sem consequências.

Israel estava prestes a entrar na terra prometida. Uma nova geração precisava compreender que receber as bênçãos de Deus também envolvia responsabilidade. Moisés não queria que, mais tarde, o povo dissesse: “Não sabíamos aonde a desobediência poderia nos levar.” Por isso, as consequências são descritas detalhadamente. Derrota, enfermidade, fome, opressão, perda da terra e, finalmente, dispersão entre as nações aparecem numa sequência cada vez mais grave.

O capítulo começa dizendo: Se vocês ouvirem atentamente a voz do Senhor, seu Deus, tendo o cuidado de guardar todos os seus mandamentos que hoje lhes ordeno, o Senhor, seu Deus, exaltará vocês sobre todas as nações da terra.” Deuteronômio 28:1 (NAA).

Depois vem o outro caminho: “Porém, se não derem ouvidos à voz do Senhor, seu Deus, deixando de cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos que hoje lhes ordeno, então virão sobre vocês e os alcançarão todas estas maldições:” Deuteronômio 28:15 (NAA).

Portanto, a questão principal não é simplesmente bênção ou maldição. É ouvir ou não ouvir a voz de Deus. O povo tinha diante de si uma escolha real e era responsável por ela. Deus mostrou o caminho, explicou as consequências e chamou Seu povo à obediência.

Existe uma verdade que precisamos entender: podemos escolher nossas atitudes, mas não podemos escolher todas as consequências que elas produzirão. Podemos escolher uma estrada, mas não podemos exigir que ela termine em outro lugar.

Isso continua muito atual. Uma pessoa pode mentir para conseguir uma vantagem no trabalho, mas não pode controlar o que acontecerá quando perder a confiança das pessoas. Alguém pode escolher uma relação escondida fora do casamento, mas não pode determinar o tamanho das feridas que essa escolha poderá causar no cônjuge e nos filhos. Um jovem pode ignorar continuamente os conselhos dos pais e os princípios da Palavra de Deus, mas poderá descobrir mais tarde que certas escolhas deixam consequências que não desaparecem facilmente.

O mesmo acontece no sentido contrário. Escolhas de honestidade, fidelidade, perdão, domínio próprio, temor a Deus e obediência também produzem frutos. Nem sempre percebemos imediatamente, mas estamos plantando alguma coisa todos os dias.

Paulo escreveu: Não se enganem: de Deus não se zomba. Pois aquilo que a pessoa semear, isso também colherá.” Gálatas 6:7 (NAA).

Entretanto, precisamos tomar cuidado com uma interpretação errada de Deuteronômio 28. Aquelas bênçãos e maldições estavam ligadas à aliança de Deus com Israel. Não podemos simplesmente afirmar que todo cristão obediente será rico, nunca ficará doente ou jamais enfrentará sofrimento. Homens e mulheres fiéis também passam por enfermidades, desemprego, luto e dificuldades. Obedecer a Deus não significa comprar uma vida sem problemas.

O princípio que permanece é outro: Deus leva o pecado a sério, e a graça não transforma a desobediência em algo insignificante.

É justamente aqui que a mensagem se torna ainda mais bonita. A Bíblia não apresenta apenas as consequências do pecado; apresenta também a graça de Deus para o pecador. “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.” Romanos 6:23 (NAA).

E Deuteronômio não termina no capítulo 28. No capítulo 30, depois de anunciar as consequências da rebeldia, Deus fala de arrependimento, retorno e restauração. Se o povo voltasse para o Senhor de todo o coração, encontraria misericórdia.

Isso mostra que as advertências de Deus não existem simplesmente para nos assustar. Elas também são uma expressão do Seu amor. Um pai que vê o filho caminhando em direção ao perigo não permanece calado. Ele avisa porque ama.

Por isso, depois de apresentar a vida e a morte, a bênção e a maldição, Deus diz algo extraordinário: “escolham, pois, a vida”. Ele mostra os dois caminhos, revela suas consequências e aponta qual deles deseja que escolhamos.

A obediência não compra o amor de Deus. Nós O obedecemos porque confiamos nEle e reconhecemos que Sua vontade é melhor do que a nossa. E, quando falhamos, Sua misericórdia continua nos chamando ao arrependimento e à restauração.

Deus leva tão a sério a bênção que deseja conceder que também nos adverte, com toda clareza, sobre o preço de escolhermos viver longe dEle.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

06/set/26

 

O PERIGO DE ALIMENTAR A OFENSA

“Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.” Romanos 12:21 (NAA).

Há uma frase atribuída ao filósofo Friedrich Nietzsche que diz: “Aquele que luta com monstros deve ter cuidado para não se tornar um monstro.” Em seguida, ele acrescenta a conhecida imagem de alguém que olha durante muito tempo para um abismo e acaba sendo, de certa maneira, alcançado por aquilo para o qual olha.

Sem transformar uma reflexão filosófica em doutrina bíblica, existe nessa ideia uma advertência que encontra eco nas Escrituras: precisamos tomar cuidado para que a luta contra o mal não faça o mal nascer dentro de nós. É possível começar uma luta tendo razão e terminá-la com o coração errado.

Alguém nos ofende. No início queremos apenas justiça. Depois começamos a alimentar pensamentos de vingança. Repetimos a história muitas vezes, imaginamos respostas que gostaríamos de dar, desejamos que a pessoa sofra e, quando percebemos, aquilo que começou como uma reação diante de uma injustiça transformou-se em amargura.

A outra pessoa pecou contra nós, mas agora o pecado dela está produzindo alguma coisa dentro de nós. Por isso Paulo não diz simplesmente que devemos enfrentar o mal. Ele escreve: “Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.” Romanos 12:21 (NAA).

Existe uma maneira de aparentemente vencer uma discussão e, ao mesmo tempo, ser vencido pelo mal. Podemos provar que estamos certos e perder a mansidão; defender a verdade e perder o amor; combater uma injustiça e nos tornar cruéis; denunciar o pecado e começar a tratar o pecador com desprezo e podemos sofrer uma traição e permitir que a desconfiança passe a governar todos os nossos relacionamentos.

É por isso que a batalha cristã não acontece somente do lado de fora. Uma das batalhas mais importantes acontece dentro de nós – em nossa mente.

Quando alguém nos machuca, nossa primeira preocupação normalmente é com aquilo que a pessoa fez. Deus, porém, também está interessado no que aquela experiência está fazendo conosco.

Talvez alguém tenha mentido a nosso respeito. O problema é real. Mas existe outra pergunta: essa mentira está fazendo nascer ódio em meu coração? Talvez alguém tenha sido injusto. A injustiça precisa ser tratada. Mas preciso perguntar: estou me tornando uma pessoa amarga por causa disso?

Talvez estejamos há anos combatendo determinado problema dentro da família, da igreja ou do trabalho. A causa pode até ser legítima. Entretanto, precisamos observar se a luta não passou a ocupar tanto espaço que já não conseguimos conversar sobre outra coisa, pensar em outra coisa ou enxergar aquela pessoa de outra maneira.

Há pessoas que já não possuem apenas um inimigo. O inimigo passou a morar dentro dos pensamentos delas. A pessoa acorda pensando nele, passa o dia lembrando do que aconteceu e dorme imaginando o que deveria ter respondido. Nesse momento, quem realmente está vencendo?

Jesus nos apresenta outro caminho. Ele nunca chamou o mal de bem. Nunca tratou o pecado como algo sem importância. Enfrentou a hipocrisia, denunciou a injustiça e falou a verdade com absoluta clareza. Entretanto, o pecado dos outros nunca conseguiu transformar Jesus naquilo que Ele combatia.

Quando foi insultado, não Se tornou um insultador. Quando sofreu injustiça, não Se tornou injusto. Quando foi traído, não Se tornou traidor. Quando encontrou ódio, não permitiu que o ódio definisse Seu coração.

Esse é também o nosso chamado.

A questão não é abandonar todas as lutas. Existem momentos em que precisamos defender a verdade, proteger nossa família, estabelecer limites, denunciar injustiças e dizer claramente que determinadas coisas estão erradas. Mas precisamos fazer tudo isso sem entregar nosso coração ao mesmo mal que estamos combatendo.

Talvez por isso uma das melhores respostas bíblicas para a imagem de alguém olhando continuamente para o “abismo” seja esta: o cristão precisa escolher cuidadosamente para onde mantém os olhos.

Quando passamos tempo demais olhando para a ofensa, ela cresce. Quando olhamos continuamente para quem nos feriu, a ferida começa a ocupar todo o horizonte. Mas quando voltamos nossos olhos para Cristo, começamos novamente a lembrar quem somos e, principalmente, quem Ele deseja que nos tornemos.

Não permita que a crueldade de alguém ensine você a ser cruel. Não permita que a mentira de alguém transforme você em mentiroso. Não permita que a amargura de alguém plante amargura em você. Não permita que o ódio recebido determine o amor que você será capaz de oferecer. Porque existe uma vitória maior do que derrotar aquele que nos feriu: é atravessar a luta sem permitir que ela destrua aquilo que Cristo está formando dentro de nós.

Não basta perguntar se estamos vencendo a batalha; precisamos perguntar no que estamos nos tornando enquanto lutamos. A maior vitória sobre o mal acontece quando ele nos atinge por fora, mas não consegue encontrar morada dentro do nosso coração.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

05/set/26

 

NÃO TROQUE O BANQUETE DO CÉU PELAS MIGALHAS DO MUNDO

“E cuidem para que não haja nenhum impuro ou profano, como foi Esaú, o qual, por um prato de comida, vendeu o seu direito de primogenitura.” Hebreus 12:16 (NAA).

Ontem mesmo vi uma frase escrita em um para-choque de caminhão: “Não troque o banquete do céu pelas migalhas do mundo.” É uma frase simples, mas que nos leva a uma profunda reflexão. Aos nossos olhos, parece muito fácil distinguir um banquete de algumas migalhas. Ninguém, diante de uma mesa farta, escolheria alguns restos espalhados pelo chão. Entretanto, quando se trata das escolhas do coração, nem sempre conseguimos enxergar com a mesma clareza.

Esaú é um exemplo impressionante disso. Ele chegou cansado e com fome, viu a comida que Jacó havia preparado e desejou satisfazer imediatamente aquela necessidade. Naquele momento, um prato de comida pareceu mais importante do que o seu direito de primogenitura. Esaú trocou algo de grande valor por aquilo que resolveria apenas uma necessidade passageira. A comida matou sua fome por algumas horas, mas sua decisão teve consequências muito maiores. Esse é um exemplo clássico de troca de migalhas por um banquete.

É assim também com muitas das “migalhas” que o mundo coloca diante de nós. Elas quase nunca parecem migalhas quando são oferecidas. Parecem prazeres, oportunidades, vantagens, reconhecimento ou liberdade. O problema é que nosso coração pode atribuir enorme valor ao que é passageiro e pouco valor ao que é eterno. A própria Bíblia nos adverte: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto. Quem poderá entendê-lo?” Jeremias 17:9 (NAA).

Uma dessas migalhas é o prazer passageiro. Existem escolhas que oferecem alguns minutos de satisfação, mas depois deixam vazio, culpa, dependência ou sofrimento. A pessoa sabe que determinada atitude não agrada a Deus, mas pensa: “Só desta vez.”

O pecado quase nunca apresenta a conta antes de servir o prato. Primeiro oferece o prazer; depois mostra o preço. O mundo promete felicidade imediata, enquanto Deus nos oferece uma alegria muito mais profunda, que não precisa ser comprada com a perda de nossa comunhão com Ele.

Outra migalha é viver buscando a aprovação das pessoas. Isso se tornou ainda mais evidente em nosso tempo. Há pessoas que medem seu valor pelo número de curtidas, comentários, seguidores ou elogios que recebem nas redes sociais. Outras fazem qualquer coisa para serem aceitas por amigos, colegas ou familiares, chegando até a esconder sua fé ou participar de coisas que sabem não agradar a Deus. Mas a opinião humana muda rapidamente. Quem hoje aplaude amanhã pode criticar. A aprovação das pessoas é frágil demais para sustentar uma vida inteira.

O dinheiro e os bens também podem se transformar em migalhas quando passam a ocupar o lugar que pertence a Deus. Não há pecado em trabalhar, prosperar, possuir uma casa, viajar ou oferecer conforto à família. O perigo começa quando possuir se transforma na principal razão de viver. Podemos acumular muito nesta terra e chegar pobres diante de Deus. Jesus ensinou: “..._mas ajuntem tesouros no céu, onde as traças e a ferrugem não corroem, e onde ladrões não escavam, nem roubam.” Mateus 6:20 (NAA). Acumular tesouros no céu é escolher o banquete.

Poder, posição e status são outras migalhas muito disputadas. Há pessoas que perdem amizades, ferem famílias, prejudicam colegas e até comprometem sua própria fé para conquistar um cargo, um título ou determinada posição. Entretanto, cargos terminam, empresas mudam, mandatos acabam, títulos ficam para trás e o prestígio de hoje pode desaparecer amanhã. É uma troca muito cara abandonar princípios eternos para conservar uma posição temporária.

E talvez as migalhas mais perigosas sejam os pecados que prometem liberdade: relacionamentos que nos afastam de Deus, vícios, pornografia, mentira, vingança, desonestidade e tantos outros caminhos que parecem oferecer prazer ou vantagem. O pecado sempre coloca alguma coisa em nossa mão, mas procura esconder aquilo que pretende tirar de nós. Esaú recebeu um prato de comida, mas entregou algo muito maior.

Por isso, diante de algumas decisões, precisamos aprender a perguntar: “Estou recebendo um banquete ou aceitando migalhas? O que estou ganhando agora e o que posso estar perdendo?”

Há coisas que brilham muito diante dos nossos olhos, mas valem pouco diante de Deus. E há coisas que o mundo considera pequenas: oração, fidelidade, santidade, comunhão com Deus, obediência à Sua Palavra, uma consciência limpa e uma vida colocada em Suas mãos, que fazem parte do verdadeiro banquete que Ele preparou para aqueles que O amam.

Não faça como Esaú. Não entregue algo precioso e duradouro para satisfazer uma necessidade momentânea. Não troque sua paz por um prazer, sua consciência por uma vantagem, sua família por uma aventura, sua fé pela aprovação das pessoas ou sua comunhão com Deus por qualquer coisa que o mundo possa oferecer.

As migalhas do mundo podem satisfazer por alguns instantes, mas o banquete de Deus alimenta a alma para a eternidade. O maior engano das migalhas do mundo é parecerem suficientes enquanto estão em nossas mãos; somente depois percebemos o valor daquilo que deixamos à mesa de Deus.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

04/set/26

 

POR QUE ALGUNS CRISTÃOS VIVEM VITÓRIAS PELA METADE?

“Porém os filhos de Judá não puderam expulsar os jebuseus que habitavam em Jerusalém.” Josué 15:63 (NAA).

Há cristãos que conhecem a vitória, mas parecem nunca desfrutar plenamente dela. Avançam em algumas áreas, vencem determinadas batalhas, experimentam respostas de oração, amadurecem espiritualmente, mas continuam convivendo com situações que há muito deveriam ter sido enfrentadas diante de Deus. Foi mais ou menos isso que aconteceu com Judá em Jerusalém.

A terra havia sido dada por Deus. A promessa existia. O povo havia avançado muito. Grandes inimigos tinham sido vencidos. Cidades haviam sido conquistadas. Mesmo assim, Josué registra algo surpreendente: os filhos de Judá não conseguiram expulsar os jebuseus que habitavam em Jerusalém. Eles possuíam a terra, mas não possuíam tudo aquilo que poderiam possuir.

Havia vitória, mas também havia resistência. Havia conquista, mas também havia uma fortaleza que permanecia.

Talvez essa seja a realidade espiritual de muitos cristãos. Não são pessoas sem fé. Não estão necessariamente afastadas de Deus. Já experimentaram muitas coisas com o Senhor. Entretanto, existem áreas de sua vida onde a vitória parece nunca se completar. Às vezes, o problema está justamente naquilo que aprendemos a tolerar.

No começo, lutamos contra determinada fraqueza. Depois nos acostumamos com ela. Começamos dizendo: “Isso precisa mudar.” Algum tempo depois passamos a dizer: “Eu sou assim mesmo.” E aquilo que deveria ter sido tratado torna-se parte da paisagem.

Pode ser uma mágoa antiga que nunca foi verdadeiramente entregue a Deus. Pode ser um hábito que sabemos que não agrada ao Senhor. Pode ser orgulho, ressentimento, inveja, falta de perdão, negligência na oração, descontrole das palavras ou alguma área que insistimos em manter sob nosso próprio governo.

Não abandonamos Jerusalém. Mas também não expulsamos completamente os jebuseus. Passamos a conviver com eles.

Esse é um grande perigo da vida espiritual: transformar aquilo que Deus deseja transformar em algo que aprendemos simplesmente a administrar.

Judá talvez pudesse dizer: “Já conquistamos tanta coisa. Esta parte pode ficar assim.” Mas uma fortaleza não conquistada continua sendo uma fortaleza.

Mais tarde, encontramos os jebuseus ainda ocupando aquele lugar. Somente muito tempo depois, nos dias de Davi, a fortaleza de Sião seria finalmente tomada.

Isso nos ensina que algumas derrotas persistentes em nossa vida não existem porque Deus seja incapaz de nos dar vitória, mas porque determinadas áreas exigem de nós perseverança, dependência, obediência e disposição para continuar lutando.

Há pessoas que querem a vitória, mas não querem enfrentar aquilo que impede a vitória. Querem paz, mas não querem perdoar. Querem comunhão com Deus, mas não querem abandonar certos hábitos. Querem mudança, mas continuam alimentando aquilo que precisa morrer. Querem experimentar uma vida espiritual mais profunda, mas oferecem ao Senhor apenas algumas áreas da vida. Não podemos confundir a graça de Deus com permissão para acomodação.

Ao mesmo tempo, precisamos tomar cuidado para não pensar que uma vida cristã plenamente vitoriosa significa uma existência sem dificuldades. Jesus nunca prometeu isso. Podemos estar completamente entregues a Cristo e ainda enfrentar enfermidades, perdas, perseguições, lágrimas e períodos de profunda luta.

A vitória cristã não significa que nunca haverá batalha. Significa que nenhuma batalha precisa nos separar de Cristo.

Paulo enfrentou prisões, perseguições, fraquezas e sofrimento, mas pôde declarar: “Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.” Romanos 8:37 (NAA). Observe o seguinte: ele não disse que somos vencedores sem essas coisas, mas em todas essas coisas.

Talvez, portanto, a pergunta não seja apenas: “Por que ainda tenho lutas?” A pergunta mais profunda é: Existe alguma área da minha vida onde parei de lutar e comecei a conviver com aquilo que Deus quer transformar? Talvez exista uma Jerusalém dentro de nós na qual já avançamos bastante, mas onde ainda permanece uma fortaleza.

Cristo não nos chamou para uma vida de acomodação espiritual. Há lugares do nosso coração nos quais Ele ainda deseja governar plenamente. E talvez a vitória que estamos esperando comece quando deixarmos de chamar de convivência aquilo que Deus ainda chama de batalha.

A vida cristã perde o sabor da vitória completa quando fazemos acordo com aquilo que Deus nos chamou para vencer.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

03/set/26

 

QUANDO CONHECER A BÍBLIA NÃO É O MESMO QUE CONHECER JESUS

“Vocês examinam as Escrituras, porque julgam ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim.” João 5:39 (NAA).

É possível conhecer muitos versículos, participar de estudos bíblicos, ouvir pregações durante anos e, ainda assim, não compreender aquilo para o qual toda a Palavra de Deus deseja nos conduzir.

Esse foi um dos grandes problemas enfrentados por Jesus entre os religiosos de Seu tempo. Eles conheciam as Escrituras, discutiam a Lei, guardavam tradições e eram capazes de falar sobre Deus, mas muitos deles não reconheceram o Filho de Deus quando Ele estava diante deles.

João 5 começa com a cura de um homem que estava enfermo havia trinta e oito anos. Jesus o encontrou junto ao tanque de Betesda e o curou. O problema, para os líderes religiosos, era que aquilo havia acontecido no sábado. Em vez de se alegrarem porque um homem que sofrera durante tantos anos estava andando, começaram a questionar Jesus. O conflito aumentou porque Ele chamou Deus de Seu Pai e falou de Sua relação única com Ele.

Jesus então apresentou testemunhos que confirmavam quem Ele era. João Batista havia testemunhado a Seu respeito. As obras que Jesus realizava mostravam que o Pai O havia enviado. O próprio Pai dava testemunho dEle. Finalmente, Jesus apontou para aquilo que Seus adversários mais valorizavam: as Escrituras.

É nesse contexto que Ele declara: “Vocês examinam as Escrituras, porque julgam ter nelas a vida eterna.” João 5:39 (NAA). A palavra traduzida por “julgam” traz a ideia de pensar, considerar, estar convencido de alguma coisa. O problema, portanto, não estava em estudar a Bíblia. Jesus nunca condenou o conhecimento das Escrituras. O problema estava em acreditar que aquele conhecimento, sozinho, era suficiente. Eles conheciam o Livro, mas rejeitavam Aquele sobre quem o Livro falava.

Por isso, a frase seguinte de Jesus é ainda mais séria: “Contudo, vocês não querem vir a mim para ter vida.” João 5:40 (NAA).

Observe a diferença. Eles examinavam as Escrituras, mas não vinham a Cristo. Tinham informação, mas rejeitavam o Salvador. Conheciam textos sobre o Messias, porém, quando o Messias chegou, não O receberam. Esse perigo continua existindo.

Uma pessoa pode ter várias Bíblias em casa e nunca permitir que a Palavra transforme sua vida. Pode saber onde encontrar determinado versículo e continuar alimentando ressentimento. Pode discutir doutrina nas redes sociais e tratar as pessoas com arrogância. Pode conhecer a história da crucificação e nunca ter entregado sua própria vida a Cristo. Pode frequentar a igreja durante décadas e ainda depender mais de sua religião do que da graça de Deus.

A Bíblia não foi dada apenas para aumentar nosso conhecimento. Ela nos revela Deus e nos conduz a Cristo.

Depois de Sua ressurreição, Jesus caminhou com dois discípulos que seguiam para Emaús. Eles estavam confusos e decepcionados com tudo o que havia acontecido. Então, “começando por Moisés e todos os Profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras.” Lucas 24:27 (NAA).

Isso nos ensina algo precioso: quando lemos as Escrituras, precisamos enxergar mais do que personagens, acontecimentos, leis e histórias isoladas. A grande história bíblica revela o plano de Deus para salvar o ser humano e encontra seu centro em Jesus Cristo.

O cordeiro sacrificado aponta para Ele. As promessas apontam para Ele. Os profetas anunciam Sua chegada. Os Evangelhos mostram Sua vida, morte e ressurreição. E o restante do Novo Testamento explica o significado daquilo que Ele realizou.

Por isso, devemos estudar a Bíblia. Devemos lê-la com atenção, comparar textos, aprender doutrina e buscar compreender corretamente aquilo que está escrito. Mas todo esse conhecimento precisa produzir alguma coisa dentro de nós.

A Palavra deve nos levar ao arrependimento. Deve corrigir nossos caminhos. Deve aumentar nossa fé. Deve nos ensinar a amar. E, acima de tudo, deve nos aproximar de Cristo.

Hoje temos Bíblias impressas, aplicativos, comentários, vídeos, cursos, sermões e uma quantidade de conteúdo bíblico que gerações anteriores jamais imaginaram possuir. Podemos carregar centenas de traduções dentro do celular. Mas existe uma pergunta que continua tão atual quanto nos dias de Jesus: Tudo aquilo que sabemos sobre a Bíblia está nos levando para mais perto dEle?

Porque podemos conhecer o endereço de uma fonte e continuar com sede. Podemos estudar o caminho e nunca o percorrer. Podemos conhecer profundamente o Livro e ainda permanecer distantes dAquele que é revelado por suas páginas.

A Bíblia não foi dada para substituir Jesus. Foi dada para revelar Jesus e nos conduzir a Ele.

Conhecer as Escrituras é precioso, mas seu verdadeiro propósito se cumpre quando, através delas, encontramos Cristo. A Bíblia ilumina o caminho; Jesus é o Caminho.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

02/set/26

 

DESCULPAS PARA NÃO OBEDECER

“Nós tocamos flauta, mas vocês não dançaram; entoamos lamentações, mas vocês não choraram.” Lucas 7:32 (NAA).

Jesus usou uma cena muito simples do cotidiano para revelar um problema muito sério do coração humano. Ele falou de crianças sentadas numa praça, chamando outras para brincar. Primeiro tocaram flauta, como numa ocasião de alegria, mas ninguém quis dançar. Depois entoaram lamentações, como numa ocasião de tristeza, mas ninguém quis chorar. Nada parecia agradar.

Jesus não estava simplesmente falando sobre crianças difíceis. Ele estava mostrando como muitas pessoas de Sua geração reagiam à mensagem de Deus. Qualquer que fosse a forma usada por Deus para falar, elas encontravam uma razão para rejeitá-la.

João Batista havia chegado com uma vida muito simples e austera. Sua mensagem era firme. Ele chamava as pessoas ao arrependimento e vivia de maneira diferente da sociedade ao seu redor. Jesus lembrou que João não vivia participando de refeições e bebendo vinho, mas, mesmo assim, algumas pessoas diziam que ele tinha demônio. (Lucas 7:33).

Depois veio Jesus. Sua maneira de agir era diferente. Ele Se aproximava das pessoas, aceitava convites para refeições, conversava com publicanos e pecadores e entrava em lugares onde muitos religiosos não gostariam de entrar. Então criticaram também Jesus. Chamaram-nO de glutão, bebedor de vinho e amigo de publicanos e pecadores. (Lucas 7:34).

Perceba a contradição. João vivia de uma maneira, e reclamavam dele. Jesus agia de outra maneira, e reclamavam também. João era austero demais. Jesus era acessível demais. João se afastava das festas. Jesus sentava-Se à mesa com pecadores. Para quem não queria ouvir, sempre havia alguma coisa errada.

O problema, portanto, não estava em João nem em Jesus. Estava no coração daqueles que já haviam decidido resistir ao chamado de Deus. O próprio contexto mostra que os fariseus e os intérpretes da Lei rejeitaram o plano de Deus para eles. (Lucas 7:30). Isso continua acontecendo em nossos dias.

Há pessoas que dizem: “Essa igreja é séria demais, o povo não dá um aleluia!” Quando chegam a outra onde há mais alegria, dizem: “Aqui o povo bate muita palma - é animado demais.” Se o pregador fala sobre pecado e arrependimento, reclamam: “Só fala de condenação.” Se fala sobre graça, amor e perdão, dizem: “Hoje ninguém mais prega contra o pecado.”

Se a mensagem confronta nossa maneira de viver, dizemos que o pregador foi duro demais. Se a mensagem traz consolo, alguém poderá dizer que faltou firmeza. Se Deus usa uma pessoa simples, questionamos sua preparação. Se usa alguém muito preparado, podemos dizer que fala de maneira difícil.

Naturalmente, isso não significa que toda igreja, todo pregador ou toda mensagem esteja acima de qualquer avaliação. A própria Bíblia nos ensina a examinar aquilo que ouvimos. “Ora, estes de Bereia eram mais nobres do que os de Tessalônica, pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim.” Atos 17:11 (NAA). O perigo aparece quando a crítica deixa de ser discernimento e passa a ser uma desculpa para não obedecer.

É possível chegar ao culto já decidido a não ouvir. É possível abrir a Bíblia procurando apenas confirmação para aquilo que já queremos fazer. É possível ouvir uma palavra que confronta exatamente uma área de nossa vida e, em vez de perguntar “O que Deus quer mudar em mim?”, começar a procurar defeitos em quem falou.

Às vezes Deus toca a flauta e não queremos dançar. Outras vezes Ele traz uma palavra que nos chama ao arrependimento e não queremos chorar. Mudamos as desculpas, mas mantemos a mesma resistência.

Jesus termina dizendo que a sabedoria é justificada por todos os seus filhos. (Lucas 7:35). Em outras palavras, os resultados acabam mostrando que o caminho de Deus é verdadeiro. João e Jesus eram muito diferentes na maneira de exercer Seus ministérios, mas ambos estavam dentro do propósito de Deus.

Por isso, precisamos tomar cuidado para não exigir que Deus fale conosco somente da maneira que preferimos. Ele pode usar uma palavra de consolo ou uma palavra de correção. Pode usar alguém que conhecemos ou alguém que nunca vimos. Pode falar no silêncio de uma oração, durante uma pregação, na leitura da Bíblia ou através de uma situação que nos obrigue a parar e pensar.

A pergunta mais importante não é: “Gostei da maneira como Deus falou?” A pergunta é: Estou disposto a ouvir o que Deus está me dizendo?”

Porque, quando o coração deseja obedecer, ele procura compreender a voz de Deus. Mas, quando já decidiu resistir, quase sempre encontrará alguma razão para rejeitar o mensageiro e continuar exatamente como está.

Quando o coração não quer obedecer, sempre encontra um defeito na maneira como Deus fala; quando deseja agradá-Lo, até uma palavra que dói pode tornar-se caminho de transformação.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

01/set/26

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