QUANDO O CORAÇÃO PERDE A ALEGRIA DA PRESENÇA
“Disse-lhes
mais: Ide, e comei as gorduras, e bebei as doçuras, e enviai porções aos que
não têm nada preparado para si; porque esse dia é consagrado ao nosso Senhor;
portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa força.”
Neemias 8:10 (ARC)
Eu congrego em uma
igreja que possui um dos cultos mais rápidos que já vi. Nos finais de semana
chego à igreja às 18h30 para o período de busca. Depois vêm cerca de vinte
minutos de louvor e mais vinte minutos de ministração da Palavra. Após o
encerramento, ainda há o momento de assistência à igreja e aos visitantes.
Muitas vezes, quando olho no relógio ao final de tudo, ainda são apenas 20h15.
Isso me faz pensar
em como os cultos, em muitos lugares, têm se tornado cada vez mais rápidos e
objetivos. Então olho para a Bíblia e fico imaginando como teria sido
participar daqueles cultos nos dias de Salomão, quando o povo permaneceu
catorze dias na presença do Senhor e, ao final, voltou para casa alegre e de
coração contente por causa do bem que Deus havia feito. A Bíblia relata que: “No
vigésimo terceiro dia do sétimo mês, o rei despediu o povo para as suas tendas;
e todos voltaram alegres e de coração contente por causa do bem que o Senhor
tinha feito a Davi, a Salomão e a Israel, seu povo.” 2 Crônicas 7:10
(NAA)
Que cena linda.
Ninguém saiu reclamando do tempo. O texto não relata qualquer sinal de cansaço
espiritual. Pelo contrário, tudo nos leva a entender que o povo não queria
deixar a presença de Deus, porque havia alegria verdadeira naquele lugar.
Quando o Senhor se manifesta, o coração humano encontra prazer na comunhão, e
aquilo que poderia parecer cansativo se transforma em refrigério para a alma.
O que notamos hoje?
Existe algo muito triste acontecendo em muitas igrejas hoje. Após um culto
neste final de semana, conversei com um jovem que, com os olhos cheios de
lágrimas, fez uma confissão dolorosa. Ele disse que chorou durante o culto
porque se lembrou de um tempo em que se alegrava profundamente na presença de
Deus. Havia prazer em cultuar, vontade de orar, alegria em ouvir a Palavra e
entusiasmo em estar na casa do Senhor. Porém, segundo ele mesmo confessou,
aquela alegria já não existia mais dentro do seu coração.
Isso nos leva a
refletir profundamente sobre os nossos dias. Talvez o problema nunca tenha sido
apenas a duração dos cultos, porém a intensidade da presença de Deus que
experimentamos neles. Quando o coração está sedento do Senhor, o tempo parece
pequeno. Quando existe comunhão verdadeira, a alma encontra descanso, alegria e
vida.
E esse não é um
caso isolado. Existem muitas pessoas dentro das igrejas vivendo exatamente
assim. Sentam nos bancos, ouvem mensagens, cantam louvores e participam dos
cultos, porém sem alegria no coração. O corpo está presente, entretanto a alma
parece distante. Jesus falou sobre isso quando declarou: “Este povo
honra-me com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim.” Mateus
15:8 (ARC)
Muitas vezes isso
acontece lentamente. As preocupações da vida começam a ocupar o coração. O
excesso de distrações esfria a comunhão com Deus. Divergências doutrinárias,
decepções e falta de cuidado dentro das igrejas também acabam ferindo muitas
pessoas. Em alguns casos, o olhar passa a se voltar mais para homens do que
para o próprio Senhor.
Pequenas concessões
espirituais começam a endurecer a alma silenciosamente. A oração perde espaço.
A leitura da Palavra diminui. A presença de Deus deixa de ocupar o primeiro
lugar. Aos poucos, a frequência aos cultos, às escolas dominicais e às reuniões
já não recebe a mesma importância de antes.
Sem perceber, o
coração vai se afastando lentamente. A pessoa continua dentro da igreja
fisicamente, porém distante em seu interior. O corpo permanece no culto,
entretanto a alma já não consegue sentir a mesma alegria e o mesmo prazer na
presença do Senhor. Jesus explicou isso na parábola do semeador. Ele disse que
alguns ouvem a Palavra, porém “... os cuidados deste mundo, e os enganos
das riquezas, e as ambições de outras coisas, entrando, sufocam a palavra, e
fica infrutífera.” Marcos 4:19 (ARC)
Vivemos dias em que
muita gente está emocionalmente cansada. Problemas familiares, pressões
financeiras, ansiedade, excesso de informações e preocupações constantes têm
roubado a paz de muitas pessoas. Alguns chegam aos cultos já esgotados por
dentro, carregando lutas silenciosas maiores do que muitos imaginam.
Por isso, antes de
julgar alguém que parece frio espiritualmente, precisamos lembrar que existem
almas feridas sentadas ao nosso lado, necessitando mais de acolhimento, oração
e cuidado do que de críticas.
Diante de tudo
isso, percebemos que Deus nunca desejou filhos vivendo apenas de aparência
religiosa. A vida cristã não foi criada para se resumir a hábitos e
compromissos. O Senhor nos chamou para relacionamento verdadeiro com Ele.
Quando a presença
de Deus ocupa novamente o centro da vida, a fé deixa de ser peso e volta a ser
alegria. O culto deixa de ser obrigação e se transforma em encontro. A oração
deixa de ser rotina e se torna necessidade da alma.
Davi conheceu esse
sentimento quando percebeu que sua alma havia se tornado pesada
espiritualmente. Então clamou ao Senhor: “Torna a dar-me a alegria da tua
salvação e sustém-me com um espírito voluntário.” Salmos 51:12 (ARC)
Observe que Davi
não pediu riquezas nem poder. Pediu que Deus devolvesse a alegria espiritual.
Ele entendeu que sem a presença do Senhor o coração do homem fica vazio.
Entretanto, ainda
existe esperança. O fato daquele jovem ter chorado já revelava algo importante:
o Espírito Santo ainda estava falando com ele. Um coração completamente
endurecido já não sente saudade da presença de Deus. Porém quem sente falta da
alegria espiritual ainda pode ser restaurado.
O Senhor continua
chamando vidas de volta para perto d’Ele. Ainda hoje Deus restaura corações
cansados, fortalece os abatidos e reacende a chama que parecia apagada.
A verdadeira
alegria da igreja nunca esteve apenas na estrutura, na programação ou nos
eventos. Sempre esteve na presença de Deus.
Quando a presença de Deus deixa de ocupar o
centro da vida, a alma continua dentro da igreja, porém o coração começa a se
afastar silenciosamente.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
19/mai/26