DE JOELHOS, SOMOS MAIS ALTOS

“Porque todo o que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado.” Lucas 14:11 (NAA).

Nossa Constituição afirma que todos são iguais perante a lei. Essa igualdade é indispensável para a vida em sociedade: ninguém deveria ser considerado superior ou inferior diante da lei por causa de sua origem, condição social, sexo ou qualquer outra característica. Mas, quando passamos da lei dos homens para a Palavra de Deus, precisamos compreender de que igualdade estamos falando.

A Bíblia não ensina que todas as pessoas são iguais em capacidade, inteligência, beleza, força, oportunidades ou talentos. Algumas cantam, outras não. Algumas ensinam com facilidade, outras trabalham melhor com as mãos. Algumas ocupam posições de destaque, enquanto outras realizam silenciosamente tarefas que quase ninguém percebe. Somos diferentes em muitas coisas.

Entretanto, há algo que nos coloca no mesmo chão diante de Deus: todos fomos criados por Ele e todos dependemos igualmente de Sua graça.

A Bíblia diz: “Assim Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” Gênesis 1:27 (NAA). Isso significa que o ser humano possui uma dignidade que não depende de riqueza, inteligência, posição social ou utilidade. Ao mesmo tempo, essa dignidade não significa que tenhamos algum mérito capaz de obrigar Deus a nos salvar. É justamente aqui que a cruz se torna tão extraordinária.

Jesus não morreu por nós porque éramos bons o bastante, justos o bastante ou merecedores de Seu sacrifício. Paulo escreveu: “Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.” Romanos 5:6 (NAA). E acrescentou: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores.” Romanos 5:8 (NAA). Essa diferença é fundamental.

Cristo não morreu porque encontrou em nós méritos suficientes para justificar Seu amor. Ele nos amou porque o amor faz parte de Quem Deus é. A cruz não demonstra o tamanho de nossa bondade; demonstra a grandeza de Sua graça.

Imagine alguém que ajuda somente aqueles que podem retribuir. Existe aí uma troca. Mas quando alguém ajuda quem nada pode oferecer em retorno, começamos a compreender melhor o significado da graça. Foi isso que aconteceu conosco. Estávamos sem condições de resolver nosso problema diante de Deus e, ainda assim, Ele veio ao nosso encontro.

É nesse ponto que uma conhecida ideia de Chesterton se torna muito bonita: nós nos tornamos mais altos quando nos curvamos.

À primeira vista, parece uma contradição. Quando alguém se curva, fisicamente fica menor. No Reino de Deus, porém, acontece o contrário. Quando reconhecemos que Deus é maior, que dependemos dEle e que tudo o que temos veio de Suas mãos, encontramos nosso verdadeiro lugar.

Humildade não significa pensar que não temos valor. Significa reconhecer que não somos o centro de tudo.

Jesus ensinou exatamente isso ao dizer que aquele que se exalta será humilhado, mas aquele que se humilha será exaltado.

Essa verdade vale especialmente para quem possui alguma responsabilidade sobre outras pessoas. Um pastor, professor, líder ou alguém que ensina a Bíblia pode começar a imaginar que o conhecimento o coloca acima dos demais. Mas deveria acontecer justamente o contrário: quanto mais aprendemos, mais percebemos quanto ainda temos para aprender. Quem ensina não deveria subir em um pedestal, mas descer para servir.

Pense em alguém que conhece profundamente a Bíblia, mas trata com desprezo quem ainda está começando na fé. Seu conhecimento não produziu aquilo que deveria produzir. Quanto mais nos aproximamos de Cristo, mais deveríamos aprender com Ele, Aquele que possuía toda autoridade e ainda assim lavou os pés de Seus discípulos.

No mundo, grandeza muitas vezes significa subir. No Evangelho, muitas vezes significa descer. Descer do orgulho. Descer da necessidade de aparecer. Descer da ideia de que somos melhores porque sabemos mais, temos mais ou ocupamos determinado cargo.

E há algo maravilhoso no final dessa história. Jesus promete: “Ao vencedor, farei com que seja uma coluna no santuário do meu Deus, e dali jamais sairá.” Apocalipse 3:12 (NAA).

Aquele que talvez tenha passado despercebido neste mundo não será esquecido por Deus. Aquele que serviu silenciosamente, permaneceu fiel e caminhou com Cristo possui diante de si uma esperança eterna.

Tudo aquilo que hoje usamos para medir a importância das pessoas desaparecerá: títulos, cargos, patrimônio, aplausos e posições. Permanecerá aquilo que está ligado a Cristo.

Por isso, nossa verdadeira grandeza não está em sermos maiores do que os outros, mas em pertencermos a Jesus. No Reino de Deus, quanto mais compreendemos Quem Ele é, menos necessidade sentimos de provar quem somos.

Diante de Deus, não crescemos tentando parecer maiores do que os outros; crescemos quando nos curvamos, reconhecemos que tudo vem dEle e descobrimos que nossa verdadeira grandeza não está na posição que ocupamos, mas em pertencermos a Cristo.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

11/out/26

 

DARWIN TEM RAZÃO? — “VAI NESSA TUA FORÇA”

“Então o Senhor se virou para ele e disse: — Vá nessa sua força e livre Israel das mãos dos midianitas. Não é verdade que Eu estou enviando você?” Juízes 6:14 (NAA).

Quando pensamos na teoria da evolução associada a Darwin, muitas vezes ouvimos a frase: “sobrevive o mais forte”. Mas essa não é exatamente a ideia. Na seleção natural, não necessariamente permanece o mais forte fisicamente, mas aquele que está mais bem adaptado às condições em que vive. A expressão “sobrevivência do mais apto” procura resumir esse princípio.

Ao ler Juízes 6:14, alguém poderia perguntar: estaria Deus dizendo algo parecido a Gideão? Quando Ele ordena: “Vá nessa sua força”, estaria ensinando que vence aquele que é suficientemente forte? O contexto mostra exatamente o contrário.

Gideão não se considerava forte. Quando recebeu a missão de libertar Israel dos midianitas, sua primeira reação foi destacar suas limitações: “Ah! Meu senhor! Como livrarei Israel? Eis que a minha família é a mais pobre em Manassés, e eu sou o menor na casa de meu pai.” Juízes 6:15 (NAA).

Gideão não respondeu: “Finalmente alguém percebeu minha capacidade.” Ele praticamente perguntou: “Por que eu?”

Isso torna ainda mais interessante aquilo que o Anjo do Senhor já havia dito: “O Senhor está com você, homem valente.” Juízes 6:12 (NAA).

Gideão provavelmente não se via como um homem valente. Naquele momento, estava malhando trigo no lagar, escondendo-se dos midianitas. Aos seus próprios olhos, era pequeno, incapaz e inadequado para aquela missão. Mas Deus enxergava Gideão de maneira diferente.

Quando o Senhor disse: “Vá nessa sua força”, não estava ensinando Gideão a confiar em si mesmo. A continuação da conversa mostra onde estava o verdadeiro segredo: “Já que Eu estou com você, você derrotará os midianitas como se fossem um só homem.” Juízes 6:16 (NAA).

A força de Gideão não estava simplesmente em Gideão. Estava na presença de Deus com ele. Por isso, “vá nessa sua força” não significa: “Você é forte o bastante; confie na sua capacidade.”

Significa algo muito mais profundo: “Levante-se, obedeça e use aquilo que Eu coloquei em suas mãos, porque Eu estou enviando você e estarei com você.”

Deus não disse a Gideão para permanecer parado esperando sentir-se forte. Também não disse que faria tudo enquanto Gideão apenas observava. Ele disse: “Vá.”

Gideão precisava sair. Precisava enfrentar o inimigo. Precisava obedecer. Precisava lutar. Mas não deveria confundir sua participação na batalha com a origem da vitória.

Gideão precisava ir, mas Deus lhe daria a vitória. Gideão precisava lutar, mas Deus seria a fonte de sua força. Gideão precisava obedecer, mas não deveria colocar sua confiança em si mesmo. Isso fica ainda mais evidente no capítulo seguinte.

O exército de Gideão era numeroso, mas Deus começou a reduzi-lo até restarem apenas trezentos homens. E o próprio Senhor explicou a razão: “O povo que está com você é demais para Eu entregar os midianitas nas mãos deles. Israel poderia se gloriar contra Mim, dizendo: ‘A minha própria mão me livrou.’” Juízes 7:2 (NAA).

Deus queria eliminar qualquer possibilidade de Israel olhar para a vitória e dizer: “Nós conseguimos porque éramos fortes.” A vitória deveria deixar uma mensagem muito clara: foi Deus quem fez. Isso nos ajuda a entender Juízes 6:14.

A força era de Gideão porque ele precisava colocá-la em ação. Mas a fonte daquela força era Deus, porque, sem a presença do Senhor, Gideão jamais seria suficiente para aquilo que tinha sido chamado a fazer.

Séculos depois, Paulo expressaria princípio semelhante: “Tudo posso nAquele que me fortalece.” Filipenses 4:13 (NAA). Paulo não disse: “Tudo posso porque sou forte.” Disse: “nAquele que me fortalece.”

Portanto, quando perguntamos se Darwin tem razão, precisamos separar as coisas. Na natureza, a discussão é sobre adaptação e sobrevivência. Na vida espiritual, a vitória não pertence necessariamente ao mais forte, ao mais capaz, ao mais preparado ou ao mais confiante em si mesmo. Deus muitas vezes escolhe justamente aquele que reconhece sua própria limitação para mostrar que o poder vem dEle.

Gideão não venceu porque descobriu que era extraordinário. Venceu porque descobriu que Deus estava com ele.

Podemos, então, resumir a mensagem de Juízes 6:14 assim: Deus não chamou Gideão porque ele era forte; Gideão encontrou força porque Deus o chamou e prometeu estar com ele.

E essa verdade continua válida para nós: Deus não espera que sejamos suficientes para então nos chamar. Ele nos chama, e Sua presença torna possível aquilo que, sozinhos, jamais conseguiríamos realizar.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

10/out/26

 

QUERO SER COMO DAVI, TÃO PEQUENINO, NÃO CONFIAVA EM SI

“..._Diz Davi, filho de Jessé, e diz o homem que foi levantado em altura, o ungido do Deus de Jacó, e o suave em salmos de Israel”  2 Samuel 23:1 (ARC)

Desde que me entendo por gente, ouço histórias sobre Davi. A mais conhecida, sem dúvida, é a de sua vitória sobre Golias, o gigante filisteu.

Nas escolas dominicais, nas pregações, nos estudos bíblicos e até nas conversas entre cristãos, Davi sempre rende muito assunto. Sua coragem diante de Golias, sua amizade com Jônatas, sua fuga de Saul, seus salmos, suas vitórias e também seus erros fizeram dele um dos personagens mais lembrados de toda a Bíblia.

Em suas últimas palavras, registradas em 2 Samuel 23, encontramos quase um resumo da vida de Davi.

O texto começa lembrando sua origem: ele era “filho de Jessé”. Depois aponta para aquilo que Deus fez em sua trajetória: foi o “homem que foi levantado em altura”, elevado por Deus a uma posição que não possuía originalmente. Em seguida, revela sua relação especial com Deus: era “o ungido do Deus de Jacó”. Por fim, mostra também o lado sensível daquele homem que, além de rei e guerreiro, foi instrumento nas mãos do Senhor: “o suave em salmos de Israel”.

Em poucas palavras, temos o menino de uma família comum, o homem levantado por Deus, o rei ungido e o salmista cuja voz atravessaria gerações. Davi começa como “filho de Jessé” e termina como alguém que Deus levantou, ungiu e usou de maneira extraordinária. Não foi um homem sem falhas, mas foi um homem que conheceu o arrependimento, voltou-se para Deus e ficou marcado nas Escrituras como alguém segundo o coração dEle.

O Espírito do Senhor falou por Davi, e a palavra de Deus esteve em sua boca. Ainda hoje, a inspiração que recebemos por meio dos salmos que Davi escreveu nos consola nas dores, nos fortalece nas lutas, nos ensina a confiar em Deus e nos impulsiona a continuar caminhando.

Davi também apontou profeticamente para o Messias ao registrar as palavras que recebeu de Deus: “Disse o Deus de Israel, a Rocha de Israel a mim me falou: Haverá um justo que domine sobre os homens, que domine no temor de Deus.” 2 Samuel 23:3 (ARC).

A declaração apresenta o retrato do Rei ideal: justo, temente a Deus e governando com retidão. Embora tenha aplicação ao próprio reinado de Davi e ao padrão esperado para os reis de Israel, ela encontra em Cristo seu cumprimento pleno, pois nEle vemos o Rei perfeitamente justo, cuja autoridade é exercida em total harmonia com a vontade de Deus.

Profeticamente, Davi descreve com uma bela metáfora aquilo que encontraria sua expressão perfeita em Cristo: “E será como a luz da manhã, quando sai o sol, da manhã sem nuvens, quando, pelo seu resplendor e pela chuva, a erva brota da terra.” 2 Samuel 23:4 (ARC).

A imagem é de renovação, vida e esperança. Assim como o sol da manhã dissipa a escuridão e, junto com a chuva, faz a terra florescer, a presença de Cristo traz luz para as trevas, vida para aquilo que estava seco e esperança para quem já não conseguia enxergar um novo começo.

De todos os acordos que Davi fez com reis, povos e nações desta terra, nenhum foi tão importante quanto a aliança que Deus estabeleceu com ele. Sua segurança não estava apenas nos tratados humanos, nas alianças políticas ou na força de seu reino, mas na fidelidade do Senhor em quem confiava. Por isso, ao olhar para sua própria casa e reconhecer suas limitações, Davi pôde declarar: “Ainda que a minha casa não seja tal para com Deus, contudo estabeleceu comigo um concerto eterno, que em tudo será ordenado e guardado.” 2 Samuel 23:5 (ARC).

Davi sabia que sua casa não era perfeita, que sua história familiar carregava dores, conflitos e fracassos, mas também sabia que a fidelidade de Deus era maior do que suas imperfeições. Sua esperança não repousava na perfeição de sua família, mas na firmeza da aliança que o Senhor havia estabelecido com ele.

Neste mês, em especial, nossa igreja tem falado sobre dedicação: dedicação da nossa vida, dos nossos bens, do nosso coração e de tudo o que somos ao Senhor. Quando olhamos para Davi, percebemos que sua vida também foi marcada por essa entrega. Apesar de suas falhas e limitações, havia nele um coração voltado para Deus, uma confiança que colocava no Senhor sua esperança, sua segurança e seu prazer.

Por isso, ao falar da aliança que Deus havia estabelecido com ele, Davi declara: “Porque toda a minha salvação e todo o meu prazer estão nEle, apesar de que ainda não o faz brotar.” 2 Samuel 23:5 (ARC).

Essa declaração revela onde estava o centro da vida de Davi. Sua maior esperança não estava no trono, nas vitórias, nos bens ou na grandeza de seu reino, mas no Senhor. Sua salvação estava nEle, seu prazer estava nEle e sua confiança permanecia nEle. Dedicação é exatamente isso: quando Deus deixa de ocupar apenas uma parte da nossa vida e passa a ocupar o centro dela.

Há um louvor que nossas crianças cantam e que diz: “Quero ser como Davi, tão pequenino, não confiava em si.” A frase é simples, mas carrega uma verdade profunda.

Davi foi gente como nós. Começou como um simples pastor de ovelhas e foi exaltado por Deus. Foi servo, guerreiro, rei, salmista, amigo e ungido do Senhor. Teve momentos de grande coragem e fé, mas também errou, caiu e sofreu as consequências de suas escolhas. Ainda assim, quando confrontado, soube reconhecer seu pecado, humilhar-se diante de Deus e buscar restauração.

Talvez seja justamente isso que torne sua história tão próxima da nossa. Davi não foi um homem perfeito; foi um homem dependente de Deus. Sua grandeza não estava em nunca errar, mas em saber para onde voltar quando errava.

Por isso, ao olharmos para sua vida, não devemos procurar apenas o herói que venceu Golias, o rei que conquistou territórios ou o salmista que escreveu palavras tão belas. Devemos procurar o homem que aprendeu a confiar em Deus, a depender dEle, a se arrepender e a descansar em Sua misericórdia.

Busquemos nesse exemplo aquilo que também possa trazer paz, direção e descanso para nossa alma. E, com a simplicidade daquela canção, possamos dizer também: Eu quero ser como Davi — não pela coroa, não pelas vitórias, mas por aprender a confiar em Deus, reconhecer meus erros e permanecer com o coração voltado para Ele.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

09/out/26

 

NÓS TEMOS UM DONO: JESUS

“Então o rei de Sodoma disse a Abrão: — Dê-me as pessoas e fique com os bens para você.” Gênesis 14:21 (NAA).

Como é possível colocar pessoas e bens na mesma negociação? A frase do rei de Sodoma chama nossa atenção porque coloca diante de Abrão duas realidades completamente diferentes: de um lado estavam as pessoas; do outro, os bens. As riquezas poderiam ser recuperadas, divididas, guardadas ou perdidas. Mas aquelas pessoas tinham uma vida, uma história, uma família e um futuro. Isso nos leva a pensar sobre aquilo a que damos maior valor.

Dinheiro, casas, carros, roupas, propriedades e conquistas podem ser importantes. Precisamos de recursos para viver, sustentar nossa família, ajudar outras pessoas e cumprir responsabilidades. A Bíblia não ensina que possuir bens seja necessariamente errado. O problema começa quando aquilo que possuímos passa a ocupar um lugar maior em nosso coração do que as pessoas que Deus colocou perto de nós.

Jesus fez uma pergunta que atravessa os séculos: “De que adianta uma pessoa ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” Marcos 8:36 (NAA).

Imagine alguém que trabalhou durante toda a vida para construir um patrimônio, mas, nessa busca, perdeu o relacionamento com os filhos, destruiu o casamento, afastou os amigos e nunca encontrou tempo para Deus. Talvez tenha conseguido acumular muitas coisas, mas a pergunta de Jesus continua diante dele: de que adiantou ganhar tanto e perder aquilo que tinha um valor muito maior?

Pense nisto: bens podem ser substituídos. Pessoas, não.

Uma casa destruída pode ser reconstruída. Um carro pode ser trocado. Dinheiro perdido pode, algumas vezes, ser recuperado. Mas existem relacionamentos, oportunidades e momentos da vida que jamais poderão ser comprados novamente. Há ainda uma verdade mais profunda: nem sequer pertencemos a nós mesmos.

Vivemos em uma sociedade que frequentemente repete: “A vida é minha e faço dela o que quiser.” O Evangelho apresenta outra realidade. Se fomos alcançados por Cristo, nossa vida agora pertence a Ele. Paulo escreveu: “Porque vocês foram comprados por preço. Agora, pois, glorifiquem a Deus no corpo de vocês.” 1 Coríntios 6:20 (NAA). Fomos comprados por preço. E esse preço não foi dinheiro. Cristo entregou-Se por nós.

Se pertencemos a Jesus, então nosso tempo, nossos dons, nossos recursos, nossa inteligência, nossas oportunidades e tudo aquilo que colocamos sob Seu senhorio deixam de existir apenas para nossa satisfação. Começamos a perguntar: “Senhor, como aquilo que colocaste em minhas mãos pode servir aos Teus propósitos?”

Uma casa pode acolher alguém. Um carro pode transportar uma pessoa que necessita. Dinheiro pode alimentar uma família. Conhecimento pode ensinar. Um telefone pode levar uma palavra de consolo. Uma profissão pode servir com honestidade. Algumas horas do nosso dia podem ser usadas para visitar quem está sozinho, ouvir quem sofre ou anunciar o Evangelho. Os bens deixam, então, de ser simplesmente propriedades e passam a ser instrumentos.

É interessante observar que Abrão não aceitou a riqueza oferecida pelo rei de Sodoma. Ele declarou: “nada tomarei de tudo o que é seu, nem um fio, nem uma correia de sandália, para que você não diga: ‘Fui eu que enriqueci Abrão.’” Gênesis 14:23 (NAA). Abrão sabia que sua segurança não estava naquilo que o rei poderia lhe oferecer.

Essa também é uma lição para nós. O problema não é possuir bens; é permitir que os bens nos possuam. Podemos segurar dinheiro nas mãos sem permitir que ele domine nosso coração. Podemos administrar propriedades sem transformar aquilo que temos em nossa identidade. Podemos desfrutar das bênçãos que Deus nos concede sem esquecer Quem é o verdadeiro Senhor de nossa vida. E talvez a pergunta mais séria seja esta: estamos usando as coisas para servir às pessoas ou estamos usando as pessoas para conseguir coisas?

No Reino de Deus, essa ordem precisa estar muito clara. As coisas devem servir às pessoas. As pessoas devem servir a Deus.

Jamais deveríamos amar mais um patrimônio do que uma família, proteger mais uma conta bancária do que um relacionamento ou valorizar alguém pela quantidade de bens que possui. Vamos nos lembrar: Jesus morreu por pessoas.

O que possuímos permanecerá aqui quando nossa caminhada terminar. Casas terão outros moradores, carros terão outros proprietários, dinheiro passará por outras mãos e aquilo que levamos tantos anos para acumular ficará para trás. Mas nossa relação com Cristo aponta para a eternidade.

Por isso, quem reconhece Jesus como Senhor começa também a olhar de maneira diferente para aquilo que possui. Já não pergunta apenas: “Quanto tenho?”, mas: “Para que Deus colocou isso em minhas mãos?”

Nós temos um Dono: Jesus. E, quando reconhecemos essa verdade, entendemos que os bens são passageiros, enquanto as pessoas devem ser amadas, alcançadas e cuidadas. Tudo aquilo que Deus colocou em nossas mãos pode ser usado para tocar aquilo que está em Seu coração.

Quem pertence a Jesus aprende que os bens são apenas instrumentos colocados em nossas mãos por algum tempo; pessoas, porém, não têm preço, e aquilo que possuímos encontra seu verdadeiro valor quando é usado para servir àquilo que Deus ama.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

08/out/26

 

QUANDO A CULPA PESA, A CRUZ MOSTRA O CAMINHO DE VOLTA

“Carregando ele mesmo, em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça. Pelas feridas dele vocês foram sarados.” 1 Pedro 2:24 (NAA).

Por muito tempo, muitas pessoas ouvem a mensagem de que Jesus morreu por nossos pecados. Eu mesmo já repeti essa verdade em vários textos que escrevi, nas pregações e nas conversas sobre o Evangelho. Mas, para algumas pessoas, essas palavras podem permanecer apenas como uma informação religiosa. Elas sabem que Jesus morreu na cruz, mas talvez nunca tenham compreendido profundamente o que Sua morte significa para a própria vida.

Isso se torna ainda mais importante quando sentimos o peso da culpa. Há pessoas que carregam lembranças de escolhas erradas durante anos. Recordam palavras que gostariam de nunca ter dito, decisões que gostariam de mudar ou pecados dos quais se envergonham. Algumas vivem como se precisassem continuar se castigando pelo que fizeram. A culpa parece colocá-las no chão e dizer: “Você não merece mais nada.”

O Evangelho, porém, não nega a realidade do pecado, mas anuncia aquilo que Deus fez para tratar dele.

Quando dizemos que Jesus morreu por nossos pecados, estamos dizendo algo extraordinário: na cruz, Ele tomou sobre Si aquilo que nós não poderíamos resolver sozinhos. Pedro afirma que Jesus carregou “em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados” 1 Pedro 2:24 (NAA). A cruz mostra ao mesmo tempo a gravidade do pecado e a grandeza do amor de Deus.

Talvez alguém pergunte: “Mas por que Jesus precisou morrer? O que realmente aconteceu naquela cruz? Que diferença Sua morte pode fazer para mim hoje?”

Essas perguntas nos levam ao coração da fé cristã. A Bíblia ensina que o pecado rompeu nossa comunhão com Deus. Fomos criados para viver em relacionamento com nosso Criador, mas nossa desobediência nos afastou dEle. O problema não é apenas termos cometido alguns erros; diante de um Deus santo e justo, somos culpados e incapazes de resolver nossa própria condição.

É aqui que começamos a compreender verdadeiramente o que é “expiação”. Essa palavra pode parecer difícil, mas sua verdade é simples e maravilhosa. Expiação é  Deus providenciando, em Cristo, aquilo que era necessário para tratar nossa culpa e restaurar nosso relacionamento com Ele.

Paulo escreve: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores.” Romanos 5:8 (NAA).

Observe que Deus não esperou que nos tornássemos pessoas perfeitas para então nos amar. Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores. A cruz não é a recompensa dos bons; é a demonstração da graça de Deus aos que não poderiam salvar a si mesmos.

Imagine alguém que acumulou uma dívida tão grande que jamais teria condições de pagá-la. Chega o vencimento, mas não há dinheiro, não há patrimônio e não existe qualquer possibilidade de quitar aquela obrigação. Então outra pessoa, voluntariamente, paga aquilo que o devedor jamais conseguiria pagar. Essa ilustração é limitada, mas nos ajuda a compreender algo da cruz.

A Bíblia usa justamente a figura de uma dívida ao dizer que Cristo agiu “cancelando o escrito de dívida que era contra nós” e o removeu, “cravando-o na cruz.” Colossenses 2:14 (NAA).

Quando eu era criança, mesmo tendo crescido em um lar evangélico e ouvido muitas vezes que Jesus havia morrido por mim, não conseguia compreender toda a profundidade dessa afirmação. Sabia que Jesus havia sido crucificado. Sabia que aquilo tinha relação com meus pecados. Mas uma criança pode repetir uma verdade muito antes de conseguir perceber toda a dimensão de seu significado.

Com o passar dos anos, comecei a compreender melhor que a cruz não foi um acidente na história de Jesus nem o fracasso trágico de Sua missão. Ela estava no centro daquilo que Ele veio realizar. Jesus não foi simplesmente uma vítima impotente das circunstâncias. Ele entregou a Si mesmo, voluntariamente, por nós.

Paulo expressa essa realidade dizendo: “Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.” 2 Coríntios 5:21 (NAA).

Por isso, quando olhamos para a cruz, não devemos enxergar somente sofrimento. Devemos enxergar também amor, justiça, perdão e reconciliação. Ali, Deus mostrou que o pecado é sério demais para simplesmente ser ignorado, mas mostrou também que Seu amor é grande demais para nos abandonar em nossa culpa.

Talvez você ainda carregue algo que já confessou a Deus e do qual verdadeiramente se arrependeu. Talvez sua memória continue trazendo de volta aquilo que Cristo já perdoou. Nesse momento, precisamos aprender a olhar menos para a nossa capacidade de reparar o passado e mais para aquilo que Jesus realizou.

A cruz não nos autoriza a tratar o pecado com leveza. Pelo contrário, mostra quanto ele custou. Mas também não permite que vivamos como se a graça de Deus fosse pequena demais para nos alcançar.

Não existe Evangelho sem a cruz. Se retirarmos dela o lugar central, perderemos o coração da mensagem cristã. Foi ali que entendemos quanto o pecado é grave, quanto Deus é justo e quanto Seu amor por nós é profundo.

Na cruz, Jesus não apenas mostrou quanto o nosso pecado custava; mostrou também até onde o amor de Deus estava disposto a ir para nos trazer de volta para Ele; e isso é extraordinário.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

07/out/26

 

PERDOAR NÃO É DESCULPAR

“Porque, se perdoarem aos outros as ofensas deles, também o Pai de vocês, que está no céu, perdoará vocês; se, porém, não perdoarem aos outros as ofensas deles, também o Pai de vocês não perdoará as ofensas de vocês.” Mateus 6:14-15 (NAA).

Todos nós gostamos de falar sobre o perdão de Deus. É maravilhoso saber que podemos chegar diante dEle, confessar nossos pecados e encontrar misericórdia. O problema começa quando Jesus nos lembra que aquele que recebe perdão também precisa aprender a perdoar.

Na oração que ensinou aos discípulos, Jesus disse: “e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores.” Mateus 6:12 (NAA). Essas palavras nos colocam diante de uma verdade difícil: não podemos desejar misericórdia para nós e alimentar para sempre a dívida dos outros.

Mas antes precisamos compreender algo importante. Muitas vezes, quando pedimos perdão a Deus, não estamos realmente confessando nosso pecado. Estamos apresentando nossa defesa.

Dizemos: “Senhor, eu sei que falei aquilo, mas estava nervoso.” “Eu sei que menti, mas não queria criar um problema.” “Eu sei que tratei aquela pessoa mal, mas ela também me provocou.” “Eu sei que errei, mas, no meu lugar, qualquer um teria feito a mesma coisa.” Perceba como é fácil transformar uma confissão em um discurso de defesa.

Existe uma grande diferença entre perdoar e desculpar.

Se alguém realmente não teve culpa, não há pecado para ser perdoado. Uma explicação pode mostrar que determinado ato foi acidental ou que havia circunstâncias que diminuíam a responsabilidade. Deus conhece perfeitamente essas circunstâncias. Ele sabe aquilo que sentimos, aquilo que não sabíamos e aquilo que realmente não poderíamos evitar. Nós não precisamos convencer Deus de nossas circunstâncias. Ele as conhece melhor do que nós.

O que precisamos levar diante dEle é justamente aquilo que sobra depois de todas as explicações: o pecado que não conseguimos justificar.

É aí que começa o verdadeiro arrependimento.

Perdão significa olhar para aquilo que realmente aconteceu, reconhecer que foi errado e ainda assim encontrar misericórdia. Foi assim que Deus nos tratou em Cristo. Paulo escreveu: “Pelo contrário, sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando uns aos outros, como também Deus, em Cristo, perdoou vocês.” Efésios 4:32 (NAA). Observe a medida: “como também Deus, em Cristo, perdoou vocês.”

Quando alguém nos ofende, nossa tendência natural é olhar somente para a dívida daquela pessoa. Lembramos das palavras, das atitudes, da humilhação e da injustiça.

Mas o Evangelho nos convida também a olhar para outra dívida: a nossa, que foi alcançada pela graça de Deus. É justamente essa lembrança que começa a quebrar o ressentimento.

Perdoar, porém, não significa fingir que nada aconteceu. Não significa dizer que a maldade foi pequena quando ela foi grande. Também não significa permitir que alguém continue nos ferindo. Uma pessoa que sofreu violência, abuso ou repetidas agressões pode perdoar e, ao mesmo tempo, estabelecer limites, buscar proteção e permitir que existam consequências para aquilo que aconteceu.

Perdão e confiança também não são exatamente a mesma coisa. O perdão pode ser oferecido; a confiança, muitas vezes, precisa ser reconstruída. Jesus nunca apresentou o perdão como aprovação do pecado.

Ele conhecia muito bem a dificuldade de perdoar repetidamente. Pedro perguntou: “Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?” Jesus respondeu: “Não digo a você que perdoe até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” Mateus 18:21-22 (NAA). Jesus não estava ensinando Pedro a fazer uma conta. Estava mostrando que o perdão não deveria viver com uma calculadora na mão.

E talvez as maiores dificuldades nem estejam sempre nas grandes ofensas. Muitas vezes são as pequenas feridas repetidas da vida diária: o familiar que sempre faz a mesma crítica, o marido que responde de maneira ríspida, a esposa que repete determinada atitude, o filho egoísta, o colega de trabalho provocador, aquela pessoa da igreja cuja maneira de agir nos incomoda há anos. É justamente aí que percebemos como perdoar pode ser difícil. Por isso precisamos voltar continuamente à graça.

Paulo escreveu: “Assim como o Senhor perdoou vocês, perdoem também uns aos outros.” Colossenses 3:13 (NAA).

Não perdoamos porque a outra pessoa mereceu. Se dependesse de merecimento, nem nós teríamos recebido perdão. Perdoamos porque fomos perdoados. Isso não torna a ofensa menor. Torna a graça maior.

Talvez você ainda não consiga esquecer determinada dor. Perdoar não significa apagar a memória. Significa decidir que aquela lembrança não será transformada em uma cobrança permanente contra quem o feriu.

O perdão pode ser um processo. Algumas feridas precisam ser entregues a Deus muitas vezes até que deixem de controlar nosso coração. Mas o caminho continua sendo o mesmo: lembrar da misericórdia que recebemos e pedir ao Senhor forças para oferecê-la também.

Ser cristão significa descobrir que Deus nos amou não porque éramos fáceis de amar, mas porque Ele é misericordioso. E, depois de sermos alcançados por essa misericórdia, somos chamados a permitir que ela alcance também aqueles que nos feriram.

Perdoar não é dizer que o mal não aconteceu; é reconhecer a dívida e escolher não viver cobrando-a para sempre, porque quem se lembra do quanto foi perdoado por Deus começa a encontrar forças para estender ao outro a misericórdia que primeiro recebeu.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

06/out/26

 

COM QUE MEDIDA ESTAMOS MEDINDO AS PESSOAS?

“Também derrotou os moabitas. Fez com que se deitassem no chão e os mediu com uma corda: os que ficaram dentro de duas medidas foram mortos, e os que ficaram dentro da terceira medida foram deixados com vida. Assim, os moabitas se tornaram servos de Davi e lhe pagavam tributo.” 2 Samuel 8:2 (NAA).

Esta é uma passagem forte do Antigo Testamento. Davi havia derrotado os moabitas e, depois da batalha, fez os prisioneiros deitarem no chão e serem medidos com uma corda. O texto indica que duas partes foram destinadas à morte e uma terceira foi preservada. Estamos diante de uma prática militar daquele período, não de uma orientação dada à Igreja para ser reproduzida em nossos dias.

Mesmo assim, aquela imagem do cordel nas mãos de Davi nos leva a pensar em algo muito atual: nós também gostamos de medir pessoas.

Medimos inteligência, aparência, patrimônio, formação, posição social, sucesso e influência. Às vezes fazemos isso até dentro da igreja. Medimos alguém pelo cargo que ocupa, pela facilidade de falar, pelo tempo de conversão, pelo conhecimento bíblico, pelo ministério ou serviço que exerce ou ainda pelo reconhecimento que recebe.

E também usamos outras réguas, ainda mais perigosas. Medimos pessoas pelo passado, pelos erros que cometeram, pelas escolhas ruins que fizeram ou pela impressão que formamos a respeito delas. O problema começa quando pensamos que nossa medida é também a medida de Deus.

A história dos moabitas nos lembra, primeiro, que as escolhas têm consequências. Eles haviam sido derrotados e estavam agora diante do vencedor. Aquela cena envolvia uma decisão entre vida e morte. Sem transformar o episódio em uma alegoria da salvação, podemos aprender que nossa vida também é feita de escolhas e que não devemos tratar com superficialidade nossa posição diante de Deus.

Mas existe uma diferença fundamental: naquela batalha, Davi segurava o cordel. Na vida espiritual, a medida final não está em nossas mãos.

Jesus fez uma advertência muito séria: “Pois com o critério com que vocês julgarem vocês serão julgados; e com a medida com que vocês tiverem medido vocês também serão medidos.” Mateus 7:2 (NAA). Talvez hoje não carreguemos uma corda, mas podemos carregar uma régua invisível.

Olhamos para alguém e pensamos: “Esse não tem mais jeito.” Vemos uma pessoa que caiu muitas vezes e concluímos: “Ela nunca vai mudar.” Conhecemos seu passado e acreditamos que já sabemos como terminará sua história. Mas quem nos entregou essa régua?

A Igreja não recebeu de Cristo uma medida para determinar quem merece graça ou quem ainda pode ser transformado. Recebeu o Evangelho para anunciar arrependimento, perdão e salvação.

Isso não significa que o cristão não possa discernir o certo e o errado. Jesus disse: “Não julguem segundo a aparência, mas julguem pela reta justiça.” João 7:24 (NAA). Portanto, discernimento é necessário. Podemos reconhecer que determinada atitude é errada, que um comportamento precisa ser corrigido ou que algo não está de acordo com a Palavra de Deus. O que não podemos fazer é transformar esse discernimento em arrogância e assumir o lugar que pertence a Deus.

Jesus aprofundou ainda mais essa questão: “Por que você vê o cisco no olho do seu irmão, mas não repara na trave que está no seu próprio?” Mateus 7:3 (NAA). É muito mais fácil perceber o defeito do outro do que enxergar o nosso. Observamos a impaciência de alguém e esquecemos nossa própria intolerância. Criticamos o orgulho do irmão e não percebemos nossa vaidade. Apontamos sua queda e escondemos nossas fraquezas. Por isso Jesus ensina: “Tire primeiro a trave do seu olho e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.” Mateus 7:5 (NAA).

Ele não diz que devemos fingir que o cisco não existe. Ensina que, antes de medir o outro, precisamos permitir que Deus nos examine.

Samuel aprendeu algo semelhante quando foi escolher o futuro rei de Israel. Ele se impressionou com aquilo que seus olhos conseguiam enxergar, mas Deus lhe disse: “Porque o Senhor não vê como o ser humano vê. O ser humano vê o exterior, porém o Senhor vê o coração.” 1 Samuel 16:7 (NAA). Nós vemos apenas uma parte.

Vemos o erro, mas não conhecemos toda a luta. Vemos a queda, mas não sabemos quantas vezes aquela pessoa tentou permanecer de pé. Vemos o presente, mas não conseguimos enxergar aquilo que a graça de Deus ainda poderá produzir em sua vida. Há medidas que pertencem aos homens e há medidas que pertencem a Deus. O perigo começa quando tomamos em nossas mãos uma régua que nunca nos foi entregue.

Podemos medir resultados, distâncias e muitas coisas desta vida. Podemos até avaliar atitudes à luz da Palavra. Mas somente Deus conhece completamente o coração.

Por isso, antes de perguntarmos quanto o outro mede diante de nossos olhos, talvez devêssemos perguntar: com que medida eu estou medindo meu irmão?

Podemos enxergar a aparência, os erros e até o passado de alguém, mas somente Deus conhece completamente o coração; por isso, antes de tomarmos a régua para medir o próximo, precisamos lembrar que nós também vivemos todos os dias debaixo da graça e da misericórdia dEle.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

05/out/26

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