AFINAL, DEUS TIRA A VIDA OU DÁ A VIDA?
“Porque
certamente morreremos e seremos como águas derramadas na terra, que não se
ajuntam mais. Deus, pois, lhe não tirará a vida, mas ideará pensamentos, para
que se não desterre dele o seu desterrado.” 2 Samuel 14:14 (ARC).
A vida é um
presente de Deus. O fôlego de vida soprado nas narinas do homem formado no Éden
continua sendo, desde o princípio, uma lembrança de que nossa existência vem
dEle. É Deus quem nos dá capacidade para viver, pensar, agir e nos relacionar.
Ele é o Senhor da vida; Ele a concede e tem autoridade sobre ela.
A própria Escritura
declara: “O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e
faz subir.” 1 Samuel 2:6 (ARC).
Surge então uma
pergunta que para muitos parece difícil: se Deus é amor, como entender os
textos bíblicos nos quais Ele exerce juízo e esse juízo resulta na morte de
alguém?
A Bíblia não
esconde essa realidade. Nadabe e Abiú morreram quando saiu fogo de diante do
Senhor. Ananias caiu morto depois de mentir a Deus. Herodes foi ferido por um
anjo do Senhor porque não deu glória a Deus. Portanto, não podemos afirmar que
Deus jamais tira a vida. A própria Palavra mostra que Ele é soberano sobre a
vida e pode exercer juízo.
Mas aqui precisamos
compreender uma diferença fundamental: uma coisa é Deus exercer juízo; outra é
Deus ter prazer na morte do pecador.
O profeta Ezequiel
deixa isso muito claro: “Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do
ímpio? Diz o Senhor Jeová; não desejo, antes, que se converta dos seus caminhos
e viva?” Ezequiel 18:23 (ARC).
Deus pode julgar,
mas Seu prazer não está na destruição. Seu desejo é que o pecador se arrependa,
abandone seus caminhos e viva. A maior prova disso foi o envio de Seu próprio
Filho. Deus não apenas declarou que desejava salvar o homem; Ele providenciou o
meio pelo qual o homem poderia ser reconciliado com Ele.
É nesse ponto que 2
Samuel 14:14 se torna especialmente interessante.
Absalão havia
fugido depois de matar seu irmão Amnom. Joabe desejava trazê-lo de volta e,
para convencer Davi, enviou uma mulher de Tecoa ao rei. Portanto, é importante
perceber que as palavras do nosso texto-base não são uma declaração direta de
Deus. Elas fazem parte do argumento daquela mulher diante de Davi. Ela começa
dizendo: “Porque certamente morreremos e seremos como águas derramadas na
terra, que não se ajuntam mais.”
A figura é muito
forte. Quando a água é derramada sobre a terra, não conseguimos recolhê-la
novamente. Da mesma maneira, quando a vida termina, existem oportunidades que
não podem ser recuperadas.
A mulher estava, em
outras palavras, dizendo: “Davi, todos nós vamos morrer. Você morrerá,
Absalão morrerá, todos morreremos. Por isso, enquanto ainda existe vida, há
tempo para buscar a reconciliação.” É então que aparece a expressão: “Deus,
pois, lhe não tirará a vida.”
Essa frase merece
cuidado, porque o texto hebraico admite alguma dificuldade de tradução. A
expressão contém o verbo nāśāʾ, que pode assumir diversos sentidos, e a
palavra nefeš, que pode significar “vida”, “pessoa” ou “ser vivente”.
Por isso, algumas traduções seguem a ideia de que “Deus não tira a vida”,
enquanto outras entendem o texto de maneira diferente.
Isso é importante
porque não devemos pegar essa frase isoladamente e concluir: “A Bíblia está
dizendo que Deus nunca tira a vida.” Se fizéssemos isso, criaríamos uma
contradição com 1 Samuel 2:6 e com muitos outros textos das Escrituras.
O ponto principal
do versículo aparece logo depois: “...mas ideará pensamentos, para que se
não desterre dele o seu desterrado.” Aqui está o coração da mensagem.
Deus é justo, mas
também é misericordioso. Ele julga o pecado, porém providencia um caminho para
o pecador afastado voltar. Ele não olha para o desterrado apenas para
condená-lo; oferece-lhe a possibilidade de reconciliação. É exatamente isso que
encontramos de maneira plena no Evangelho.
O pecado nos
afastou de Deus. “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom
gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.”
Romanos 6:23 (NAA).
Nós éramos os
desterrados. O pecado criou uma separação que não conseguiríamos vencer por
nossos próprios esforços. Mas Deus providenciou o meio para que pudéssemos
voltar. Esse meio é Jesus Cristo.
Por isso, existe
uma diferença enorme entre dizer “Deus nunca tira uma vida” e afirmar “Deus não
tem prazer na morte do pecador e providencia um caminho para reconciliar aquele
que está afastado.”
A segunda afirmação
expressa muito melhor o conjunto da revelação bíblica.
Há ainda uma lição
séria na história. Davi permitiu que Absalão voltasse para Jerusalém, mas a
verdadeira reconciliação entre pai e filho não aconteceu. Absalão voltou
fisicamente, mas seu coração permaneceu distante. Mais tarde, a história
terminou tragicamente.
O Evangelho oferece
algo muito maior. Deus não apenas permite que o desterrado retorne. Ele perdoa,
transforma e restaura.
Afinal, Deus tira a
vida ou dá a vida?
Ele é o Senhor da
vida. Ele a dá e tem autoridade sobre ela. Como Juiz, pode tirá-la; como Deus
misericordioso, não tem prazer na morte do pecador. Por isso, enquanto há vida,
oferece ao afastado um caminho de volta.
E esse Caminho tem
Nome: Jesus Cristo.
A morte nos lembra
que o tempo para voltar é limitado; a graça nos revela que, enquanto há vida,
Deus ainda mantém aberto o caminho da reconciliação.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
13/out/26