O CÂNTICO DA
TERCEIRA IDADE
“Não me rejeites na minha velhice; quando me faltarem
as forças, não me desampares.” Salmo 71:9 (NAA)
O Brasil está envelhecendo rapidamente. Estima-se que, em
2025, haverá mais de 31 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o que
corresponde a cerca de 15% a 16% da população. As projeções indicam que, por
volta de 2045, esse número pode alcançar 50 a 60 milhões de idosos, quase um
terço dos brasileiros.
Esse cenário mostra que nossa sociedade precisará se
organizar cada vez mais para atender com dignidade esse grupo em crescimento.
Governos e famílias terão de se unir para garantir saúde, assistência e
inclusão. Mas, acima de tudo, é preciso lembrar que, mais do que as estruturas
humanas, está o cuidado de Deus. E, naturalmente, a igreja não pode ficar de
fora desse chamado, sendo instrumento de acolhimento, amor e esperança.
A Bíblia deixa claro que o Senhor se preocupa com o idoso.
Um dos textos mais belos sobre isso é o Salmo 71, muitas vezes chamado de “o
salmo do idoso” ou “a oração na velhice”. O salmista, já avançado em
idade, faz uma oração sincera pedindo a Deus que não o abandone quando suas
forças se esgotarem. Ele declara: “Não me rejeites na minha velhice;
quando me faltarem as forças, não me desampares.” Sl 71:9 (NAA). Há uma
brandura nesse salmo, uma serenidade que nasce de uma vida inteira vivida na
dependência do Senhor. Apesar de ser um salmo anônimo, muitos estudiosos
acreditam que pode ter sido escrito por Davi, talvez em seus últimos anos de
vida, quando enfrentava duras crises, como a rebelião de Absalão, seu próprio
filho.
Nesse contexto, percebemos que o salmista não estava cansado
de Deus; muito pelo contrário, seu receio era que Deus estivesse cansado dele.
É como se ele dissesse: “Senhor, não me abandones agora que estou frágil e
tão necessitado de Ti”. Essa é uma oração que ecoa até hoje. A velhice nos
rouba a beleza física e nos tira a energia para muitos serviços ativos, mas
nunca diminui o amor e o favor de Deus para conosco. As marcas do tempo podem
afetar o corpo, mas não apagam a graça do Senhor, que renova a alma e mantém
viva a esperança.
Quem já não viu um idoso debilitado no físico, mas cheio de
vida espiritual, irradiando fé e transmitindo sabedoria aos mais jovens? É isso
que o salmista pede: que mesmo em sua fragilidade, Deus o sustente para que ele
possa continuar deixando testemunho às próximas gerações. Ele ora: “Agora,
na velhice e de cabelos brancos, não me desampares, ó Deus, até que eu tenha
anunciado a força do teu braço à presente geração, o teu poder a todos os que
hão de vir.” Sl 71:18 (NAA).
Aqui está a essência da fé madura: não apenas querer ser cuidado, mas continuar
sendo útil, servindo como exemplo vivo da fidelidade de Deus.
É comovente pensar na imagem dos cabelos embranquecidos que
o tempo pinta como se fossem “as neves de muitos invernos”. Cada fio
branco é memória de lutas, lágrimas e vitórias. E embora as doenças se
multipliquem e as limitações se tornem maiores, existe também a certeza de que,
no mundo da graça, Deus amplia seus privilégios para compensar a perda da força
natural. A velhice se torna, assim, não apenas tempo de limitações, mas também
de um relacionamento mais íntimo com o Senhor, de uma confiança mais profunda e
de uma esperança ainda mais viva.
Infelizmente, em nossa realidade vemos muitos idosos sendo
abandonados, esquecidos em asilos ou isolados por suas famílias. Isso é
doloroso. Mas diante desse abandono humano, permanece a verdade imutável da
Palavra: “Ainda na sua velhice darão frutos, serão cheios de seiva e de
verdor.” Sl 92:14 (NAA). O Senhor jamais abandona aqueles que nele
confiam. Mesmo quando a sociedade falha, Deus não falha. Mesmo quando a família
se afasta, o Pai Celestial permanece ao lado dos seus filhos.
Nos dias de hoje, em que o número de idosos cresce
rapidamente, é importante que cada um de nós reflita sobre nossa
responsabilidade diante desse grupo. Não apenas como sociedade ou governo, mas
como igreja e como cristãos. Precisamos valorizar os mais velhos, ouvir suas
histórias, aprender com sua experiência e honrar sua caminhada. Muitos deles
são como colunas invisíveis que sustentam famílias inteiras em oração. Se a
cultura atual valoriza apenas a juventude, a força e a beleza exterior, a
Palavra de Deus nos ensina a valorizar a fé madura, a sabedoria acumulada e o
testemunho perseverante dos idosos.
Me alegro pela iniciativa da minha igreja em formar uma
classe voltada para a terceira idade, onde irmãos e irmãs são acompanhados de
perto e recebem ensino adaptado à sua realidade e capacidade de compreensão.
Também me alegro pelo empenho dos jovens, que visitam os idosos e procuram
suprir suas necessidades com carinho e dedicação.
Isso é integrar o idoso à vida diária da igreja, mostrando
que cada geração tem seu valor diante de Deus. Assim como o salmista do Salmo
71, cada idoso pode orar: “Senhor, não me abandones agora”. E a
resposta do Senhor é sempre fiel: “E até a vossa velhice eu serei o
mesmo, e ainda até as cãs eu vos carregarei; já o tenho feito, levar-vos-ei,
pois eu vos carregarei e vos salvarei.” Is 46:4 (NAA). Essa promessa garante segurança
e paz a todo aquele que envelhece em Cristo.
A velhice pode enfraquecer o corpo, mas nunca diminui o amor
e o cuidado de Deus; pelo contrário, é o tempo em que sua fidelidade se mostra
ainda mais visível, sustentando-nos para que sejamos testemunhas vivas às
gerações que vêm depois de nós.
Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça
e paz.
Pr. Décio Fonseca
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