HABITAR PERTO. HABITAR DENTRO. HABITAR PARA SEMPRE.
“E me farão um
santuário, para que eu habite no meio deles.”
Êxodo 25:8 (NAA)
Desde o princípio,
Deus sempre revelou o seu desejo de estar junto do ser humano. No Éden, Ele
andava com o homem em perfeita comunhão, num relacionamento direto e sem
barreiras: “Quando ouviram a voz do Senhor Deus, que andava no jardim
pela viração do dia…” Gênesis
3:8 (NAA). A presença divina não era distante nem mediada; era próxima, viva e
cotidiana.
Mesmo quando o
pecado rompeu essa comunhão, Deus não se afastou. Pelo contrário, foi Ele quem
deu o primeiro passo em graça e misericórdia ao perguntar: “Onde você
está?” Gênesis 3:9 (NAA). Não
era uma pergunta de ignorância, mas de amor restaurador. Desde então, a
história bíblica passa a revelar um Deus que insiste em se aproximar, mesmo
diante da fragilidade humana.
Esse desejo ganha
forma concreta no deserto, nos dias de Moisés. Deus ordena a construção do
tabernáculo, o Mishkán (מִשְׁכָּן), palavra hebraica que significa “habitação”.
Ali, o Senhor escolhe morar no meio do povo, manifestando Sua glória por meio
da nuvem e do fogo. A presença era real, visível e constante. Deus caminhava
com Israel.
Entretanto, embora
estivesse entre o povo, o acesso não era livre. O tabernáculo ensinava
santidade, limites e reverência. O povo via a glória à distância. Apenas os
sacerdotes entravam no Lugar Santo, e somente o sumo sacerdote, uma vez por
ano, tinha acesso ao Santo dos Santos. Havia presença, mas também separação.
Deus estava no meio deles, porém envolto por véus, sacrifícios e mediações.
Via-se a glória, mas não se tocava nela.
Séculos depois, o
profeta Isaías amplia essa revelação. Em Isaías 4:6, ele não descreve tendas,
móveis ou ritos. Usa a palavra Sukkáh (סֻכָּה), que significa “abrigo”,
“refúgio” ou “proteção”. O tabernáculo deixa de ser apenas um
lugar observado à distância e passa a ser apresentado como cobertura próxima,
sombra contra o calor e refúgio contra a tempestade.
Aqui, a presença de
Deus já não aparece apenas como algo a ser temido, mas como algo a ser
desfrutado. O Senhor não é somente aquele que se manifesta no centro do culto,
mas aquele que cuida, protege e acolhe o seu povo. Isaías não contradiz Moisés;
ele aprofunda a revelação. Aquilo que antes era visto de longe passa a ser
experimentado mais de perto.
Essa progressão
revela que o tabernáculo do deserto foi necessário para um povo em formação.
Deus estava presente, mas o acesso ainda não havia sido aberto. O tabernáculo
anunciado por Isaías aponta para um tempo de restauração, no qual a presença
divina não seria apenas contemplada, mas sentida; não apenas reverenciada, mas
vivida. Ambos, porém, apontam para algo ainda maior.
No Novo Testamento,
essa promessa encontra seu cumprimento pleno. João declara que “o Verbo
se fez carne e habitou entre nós”, usando o verbo grego skēnóō
(σκηνόω), que significa literalmente “armar tenda”. Deus não apenas se
aproxima do seu povo — Ele decide habitar no seu povo. Surge, então, o terceiro
tabernáculo.
Ele não é feito de
madeira, tecido ou ouro. Não está limitado a um espaço físico nem depende de
ritos externos. Esse tabernáculo somos eu e você. Em Cristo, Deus não apenas
está entre nós ou sobre nós; Ele passa a habitar dentro de nós. Aquilo que no
deserto era separado por véus agora é vencido pela graça. A presença que antes
descia sobre uma tenda agora faz morada no coração.
Nesse sentido, Deus
não apenas visita o homem — Ele tabernacula conosco. Ele arma sua tenda em nós.
O Espírito Santo transforma o interior do crente em lugar de comunhão,
manifestação e vida. O acesso que antes era restrito a um homem, um dia por
ano, torna-se permanente, diário e pessoal. Já não vemos a glória de longe; nós
a carregamos.
Assim, o movimento
bíblico se completa: no deserto, Deus estava entre o povo; em Isaías, Deus
prometeu estar sobre o povo, como proteção; em Cristo, Deus passa a estar
dentro do povo.
O tabernáculo não
desapareceu. Ele foi transfigurado. Hoje, Deus não habita em tendas feitas por
mãos humanas, mas em corações rendidos. Ele caminha conosco, habita conosco e
se manifesta por meio de nós. O que antes era símbolo tornou-se realidade viva.
Esse sempre foi o
desejo eterno de Deus: não apenas ser visto à distância, não apenas ser
reverenciado, mas habitar. Habitar perto. Habitar dentro. Habitar para sempre.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
05/jan/26
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