PÚLPITOS ALTOS, OVELHAS DISTANTES
“As minhas
ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem.” — João
10:27 (NAA)
Há algum tempo,
circulou na internet um vídeo simples, porém profundamente ilustrativo. Dois
pastores conduziam seus rebanhos até a mesma fonte de água. Enquanto as ovelhas
bebiam, os grupos se misturaram de tal forma que já não se distinguia quais ovelhas
pertenciam a qual pastor. Ao observar aquela cena, pensei comigo mesmo que os
pastores enfrentariam um problema sério. Como separar tudo aquilo depois?
Quando a sede foi
saciada, algo surpreendente aconteceu. Cada pastor tomou posição em um ponto
diferente e, no momento exato, emitiu um som próprio, familiar às suas ovelhas.
Em poucos instantes, o que parecia confusão começou a se desfazer. O rebanho se
moveu, reorganizou-se e, de forma impressionante, dois grupos distintos se
formaram novamente. Cada ovelha passou a seguir a voz do seu pastor. Não houve
gritos, força ou interferência externa. A voz foi suficiente.
Essa cena revela
uma verdade espiritual profunda. No ministério pastoral, existem vozes muito
diferentes. Há a voz que chama e há a voz que apenas informa. A voz de Jesus é
inconfundível. Ela não se limita a transmitir palavras ou orientações; ela
comunica vida, verdade e cuidado. As ovelhas seguem porque reconhecem essa voz,
não por obrigação, medo ou conveniência, mas por relacionamento.
Também existe outro
tipo de voz que se faz ouvir em muitos contextos religiosos. Trata-se da voz do
gerente de igreja. Ela comunica diretrizes, repassa decisões, estabelece metas
e cobra resultados. Organiza, estrutura e administra, porém não cria vínculo.
Essa voz informa, mas não envolve. Orienta, mas não pastoreia. Nesse modelo, as
pessoas até escutam, porém dificilmente seguem, pois seguir exige
relacionamento, não apenas informação.
Jesus afirma algo
decisivo quando diz: “eu as conheço”. Conhecer, no pastoreio
bíblico, vai muito além de saber nomes em listas ou números em relatórios.
Envolve proximidade, escuta atenta, convivência e interesse real pelas
histórias, dores e trajetórias de cada ovelha. Trata-se de um conhecimento
relacional, construído no caminho, no cuidado diário e na partilha da vida.
O modelo gerencial
segue outra lógica. Nele, o conhecimento se apoia em estatísticas, gráficos e
relatórios. Pessoas passam a ser vistas como números. O rebanho perde o rosto,
a voz e a singularidade. A igreja pode até funcionar de forma organizada, porém
deixa de ser pastoreada como Jesus
pastoreou.
Essa diferença
também se revela na maneira de conduzir o rebanho. O verdadeiro pastor caminha
à frente. Ele compartilha o caminho, assume riscos e oferece exemplo. Sua
liderança nasce da presença, do contato e do testemunho vivido. As ovelhas
confiam porque veem por onde ele anda.
Já aquele que se
ocupa mais em gerenciar do que em pastorear conduz à distância. Atua a partir
de gabinetes, circulares e reuniões. Sua liderança se expressa por orientações
formais, sem dividir o peso da caminhada nem sentir de perto as dores do
rebanho. Falta proximidade, falta coração compartilhado.
No pastoreio
segundo o coração de Cristo, o cuidado individual se torna indispensável. Jesus
trata cada ovelha como única. Ele toca feridas, restaura quedas e acolhe
fragilidades com graça e paciência. Seu cuidado não se apresenta de forma
genérica; ele é pessoal, atento e compassivo. Ele é Aquele que deixa as noventa
e nove em segurança e parte em busca da que se perdeu, mostrando que, para Ele,
nenhuma ovelha é insignificante, nenhuma história é descartável e nenhuma vida
pode ser tratada como número. (Lucas 15:4–7)
No modelo
gerencial, a prioridade recai sobre eficiência institucional, fluxo,
funcionamento e resultados. Pessoas frágeis passam a ser vistas como entraves
ou problemas a serem administrados, quando, na verdade, são exatamente elas que
mais necessitam de cuidado pastoral.
Os que seguem por
amor experimentam outra realidade. São conduzidos a pastos verdejantes e a
águas tranquilas. Caminham em relacionamento e confiança. Seguem Jesus não por
pressão, interesse ou conveniência, e sim porque existe vínculo, cuidado e
comunhão. Onde há amor pastoral, há alimento vivo e descanso para a alma.
Já o rebanho movido
por adesão por conveniência se sustenta de provisões padronizadas, tratadas de
forma impessoal, conforme critérios de funcionamento. Nesse ambiente, as
pessoas permanecem enquanto se sentem úteis, confortáveis ou alinhadas às
metas. Quando isso muda, elas se afastam quase sem serem notadas, pois nunca
foram vistas como ovelhas, apenas como parte de um sistema.
É verdade que o
Senhor levanta homens valorosos e os capacita para guiar o Seu rebanho, e a
Escritura ensina que esses líderes devem ser reconhecidos e honrados pelo
serviço que prestam. 1 Tessalonicenses 5:12–13
Podemos reconhecer
a importância do gerenciamento do rebanho, pois organização e responsabilidade
também fazem parte do cuidado pastoral. Métodos auxiliam, estruturas organizam e
relatórios orientam. Ainda assim, nada disso substitui o que é essencial: a
intimidade com a ovelha. É a proximidade, o conhecimento pessoal e o
cuidado relacional que revelam o verdadeiro pastoreio segundo o coração de
Cristo. Para isso, torna-se necessário descer do púlpito, sair dos gabinetes e
caminhar no meio do rebanho.
Diante disso,
permanece uma pergunta que precisa alcançar o coração: que tipo de pastor temos
seguido? Mais do que seguir homens, estruturas ou modelos, sigamos a Jesus. Ele
é o Bom Pastor. Ele conhece suas ovelhas, caminha à frente, cuida das feridas e
conduz à vida.
Siga a Jesus, meu
irmão, minha irmã. Ele não decepciona, não abandona e não trata ninguém como
número. Quem segue o Bom Pastor encontra cuidado, direção e descanso para a
alma. (Mateus 11:28-29)
Gerenciar é
necessário, mas pastorear exige intimidade; somente quem conhece a ovelha de
perto reflete o coração do Bom Pastor.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
06/jan/26
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