VER AS PESSOAS COM OS OLHOS DE JESUS

“O homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração.” 1 Samuel 16:7 (NAA)

Juízo de valor é um tema intrigante. Desde cedo aprendemos a observar e emitir opiniões sobre os outros, muitas vezes sem perceber. Julgar alguém pelo modo como se veste, pelo jeito de falar ou pelo comportamento é algo natural da nossa condição humana. Criamos padrões baseados em nossas próprias referências e, a partir deles, medimos os outros, quase sempre de forma injusta.

O teólogo Anthony Hoekema relata a experiência de um jovem negro norte-americano que, cansado de se sentir inferior e rejeitado, pendurou em seu quarto uma faixa com os dizeres: Eu sou eu e sou bom, porque Deus não produz lixo.” Essa frase, simples e direta, traduz uma grande verdade bíblica: cada ser humano tem valor porque foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:27). Em Cristo descobrimos que não somos fruto do acaso nem resultado de um erro, mas feitura do Senhor, preparados para uma vida de propósito (Efésios 2:10). Essa consciência nos ajuda a olhar para nós mesmos e para os outros com os olhos da graça, reconhecendo a dignidade que Deus concedeu a cada pessoa.

O problema é que muitas vezes nossos julgamentos são superficiais. Enxergamos apenas a aparência e não percebemos a história, as dores e as lutas que cada pessoa carrega dentro de si. Enquanto nos apressamos em formar opiniões rápidas, Deus vê o que está oculto: as intenções, os sentimentos e a verdade do interior.

Além disso, nossos juízos quase sempre são influenciados por preconceitos, pela cultura ou por experiências pessoais. Isso pode gerar injustiça, afastamentos desnecessários e até o pecado da arrogância. Jesus nos advertiu claramente sobre isso quando disse: “Não julguem, para que vocês não sejam julgados.”  Mateus 7:1 (NAA) Ele não nos chama à indiferença, mas à humildade de reconhecer que só Deus é justo para julgar plenamente.

Refletir sobre esse tema nos leva a exercitar a empatia. Em vez de sermos rápidos em criticar, somos convidados a ouvir mais, compreender mais e amar mais. Se lembrarmos quantas vezes Deus nos olhou com misericórdia mesmo quando falhamos, aprenderemos a tratar os outros com a mesma graça.

Ao observarmos a vida de Jesus nos Evangelhos, vemos que Ele nunca tratou as pessoas com desprezo ou animosidade. Pelo contrário, Ele se aproximava delas, acolhia, ensinava e amava. Sua firmeza não era contra as pessoas em si, mas contra a hipocrisia e a injustiça dos líderes religiosos (Mateus 23:27-28). Ele acolheu crianças quando os discípulos tentaram afastá-las (Marcos 10:14), tratou com dignidade a mulher samaritana (João 4:9-10), tocou em leprosos rejeitados (Mateus 8:3), perdoou os que o crucificavam (Lucas 23:34) e permitiu que uma mulher pecadora o ungisse e beijasse seus pés. Honrou aqueles que o mundo desonrava, foi cortês com as mulheres em público, fez amizade com os rejeitados, falou palavras de esperança a samaritanos e gentios, ministrou aos pobres e caminhou entre os esquecidos da sociedade. Em tudo, despertava esperança, reconciliação e o desejo de transformação e vida nova.

Em todo o seu ministério, vemos um respeito compassivo, sem barreiras de preconceito ou desprezo. Esse é o exemplo que o nosso Mestre nos deixou. Se Ele, que é o Senhor, tratou cada pessoa com dignidade, como poderíamos agir de forma diferente? O cristão é chamado a reproduzir esse olhar de graça, sem se deixar dominar por juízos superficiais.

Na vida prática, isso significa dar espaço para ouvir quem pensa diferente, respeitar quem vem de outra cultura, tratar com bondade quem carrega marcas que não conhecemos. Significa lembrar, em cada situação, que diante de nós não está “um rótulo”, mas alguém criado por Deus e amado por Ele.

O jovem que pendurou a frase em seu quarto entendeu uma verdade fundamental: ele não era lixo, mas criação preciosa do Senhor. Esse é o lembrete que também precisamos carregar em nossos corações e transmitir aos outros.

Quem aprende a ver as pessoas com os olhos de Jesus descobre que ninguém é descartável, porque todo ser humano carrega em si a marca da dignidade dada por Deus.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

28/ago/25

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