AVANÇAR PARA A PROMESSA OU RETROCEDER AO PASSADO?

"Se estivessem pensando naquela terra de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, e lhes preparou uma cidade." (Hebreus 11:15-16, NVI).

A travessia do deserto foi uma jornada marcada por desafios e decisões que revelaram o estado do coração de cada um. Josué e Calebe mantinham os olhos na Terra Prometida, confiantes na fidelidade de Deus, enquanto grande parte do povo hebreu olhava para trás, nutrindo uma nostalgia distorcida pelo Egito. No meio desse confronto de perspectivas, Moisés desempenhava o papel de líder, intercessor e mediador, conduzindo um povo muitas vezes rebelde rumo ao cumprimento das promessas de Deus.

Quando os doze espias foram enviados para explorar Canaã, todos viram a mesma realidade: uma terra fértil, mas habitada por povos poderosos. Dez deles ficaram paralisados pelo medo, mas Josué e Calebe, com um olhar de fé, afirmaram: “Se o Senhor se agradar de nós, ele nos fará entrar nessa terra, onde há leite e mel com fartura, e a dará a nós” (Números 14:8, NVI). Eles reconheceram os desafios, mas confiavam que o poder de Deus seria suficiente para superá-los. Sua visão era moldada pela fé nas promessas divinas, enquanto os demais deixaram que o medo obscurecesse a certeza da presença de Deus.

Por outro lado, o povo hebreu, mesmo após testemunhar milagres como o maná, o Mar Vermelho e a coluna de fogo, frequentemente demonstrava uma mentalidade escravizada ao passado. Frente às dificuldades, murmuravam contra Moisés e diziam: “Não seria melhor voltar para o Egito?” (Números 14:3, NVI). Eles preferiam o conforto ilusório da escravidão ao desafio da liberdade. Olhar para trás era, na verdade, um reflexo de incredulidade e ingratidão. Mesmo livres, continuavam presos ao passado, esquecendo-se de que o mesmo Deus que os libertara continuaria a sustentar sua jornada.

Nesse contexto, Moisés emergiu como a figura central de liderança, enfrentando o peso da murmuração do povo e a constante necessidade de interceder diante de Deus. Quando os israelitas ameaçaram apedrejar Josué e Calebe, Moisés clamou ao Senhor por misericórdia: “Perdoa a iniquidade deste povo, segundo a tua grande fidelidade” (Números 14:19, NVI). Ele não apenas liderava, mas também se colocava como mediador entre o povo rebelde e a justiça divina. Moisés apontava para o futuro, redirecionando o olhar dos israelitas para as promessas de Deus, mas enfrentava as limitações de sua própria humanidade e a resistência de um povo endurecido.

O confronto de olhares no deserto é um espelho de nossa caminhada espiritual. Seremos como Josué e Calebe, fixando nossos olhos nas promessas de Deus, ou permitiremos que o medo nos paralise e nos faça olhar para trás? Essa decisão continua sendo central para a vida de cada cristão. A fé nos convida a avançar, mesmo quando os desafios parecem insuperáveis, enquanto a incredulidade nos mantém presos ao passado.

Essa mesma tensão entre olhares encontra reflexo em nossos dias, onde há um confronto claro entre o olhar da Igreja e o olhar do mundo. A Igreja, como o povo de Deus, é chamada a avançar pela fé, com os olhos fixos em Cristo, “o autor e consumador da nossa fé” (Hebreus 12:2, NVI). O olhar da Igreja é guiado pela certeza de que “as coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas” (2 Coríntios 5:17, NVI), vivendo em esperança e proclamando o Reino de Deus.

Por outro lado, o mundo mantém um olhar preso ao que é terreno e passageiro. Como o povo no deserto que desejava voltar ao Egito, o mundo valoriza o conforto imediato, rejeitando a obediência que leva à verdadeira liberdade. Enquanto a Igreja enxerga a cruz como o símbolo máximo de redenção e esperança, o mundo a vê como loucura (1 Coríntios 1:18, NVI). Esse contraste reflete a diferença fundamental entre viver pela fé e depender das ilusões do presente.

No entanto, o papel da Igreja é não apenas manter os olhos fixos na promessa, mas também apontar para o caminho que conduz à vida. Como Moisés, a Igreja é chamada a ser luz em meio às trevas, conduzindo os que estão perdidos para o Reino de Deus. E, assim como Josué e Calebe, somos desafiados a confiar em Deus e avançar com coragem, mesmo quando a oposição parece esmagadora.

A história do deserto nos lembra que Deus honra aqueles que confiam n’Ele. Josué e Calebe foram os únicos de sua geração a entrar na Terra Prometida porque decidiram olhar para a promessa em vez de para os problemas.

Que nós, como Igreja, possamos aprender com eles, mantendo nossos olhos firmes em Cristo e proclamando com convicção: “O Senhor é fiel para cumprir tudo o que prometeu” (2 Coríntios 1:20, NVI).

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca



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