QUANDO DEUS AMA COM IRA E SALVA COM JUÍZO

"Como posso desistir de você, Efraim? Como posso entregá-lo, Israel? [...] Meu coração está enternecido, despertou-se toda a minha compaixão." (Oséias 11:8-9 – NVI)

A pergunta é instigante: Deus é homem para ter emoções? Se Ele é perfeito e imutável, como explicar um texto como Oséias 11:8-9, onde parece haver um conflito interno em Deus — como se Sua justiça dissesse "julga", e Seu amor gritasse "perdoa"? Como pode um Deus que não muda, demonstrar tamanha tensão?

Essa passagem é, sem dúvida, uma das mais comoventes do Antigo Testamento. Ela nos leva ao coração de Deus diante de um povo rebelde, expondo uma tensão profunda — não entre fraquezas emocionais, mas entre dois de seus atributos eternos: justiça e amor.

Deus está falando sobre Israel, que mesmo após ser libertado do Egito, continua a se afastar dEle. A linguagem do capítulo é carregada de ternura. Deus se apresenta como um Pai que ensinou o filho a andar, que o guiou com laços de amor, mas que agora precisa lidar com a persistência do pecado.

No verso 8, surgem quatro perguntas, todas começando com “Como...”:

"Como posso desistir de você, Efraim? Como posso entregá-lo, Israel? Como posso tratá-lo como Admá? Como posso fazer com você o que fiz com Zeboim?".  Admá e Zeboim foram cidades destruídas junto com Sodoma e Gomorra (Deuteronômio 29:23). Ou seja, Deus diz:
“Você merece o mesmo fim, mas meu amor me impede.”

Aqui está o ponto: o povo merece juízo, mas Deus escolhe conter Sua ira por amor.

Deus tem emoções? Ele sente? Sim, Deus revela emoções nas Escrituras. Mas com uma diferença essencial: “Eu sou Deus, e não homem” (v.9)

Deus não sente como a gente sente. Suas emoções não são exageradas, descontroladas ou por impulso. Tudo o que Ele sente mostra quem Ele é de verdade — santo e perfeito — e Ele mostra isso de um jeito que a gente consiga entender.

Quando a Bíblia diz que Deus se "arrependeu", ficou "triste", teve "compaixão" ou ficou "irado", ela está usando uma linguagem que nós, seres humanos, conseguimos entender. É como se Deus usasse sentimentos humanos para nos mostrar verdades profundas sobre quem Ele é e como Ele age.

Justiça e amor: são opostos ou caminham juntos? À primeira vista, parece que há um conflito em Deus: a justiça quer punir, o amor quer perdoar. Mas isso não é uma contradição. É uma tensão santa, que só se resolve na perfeição de Deus — onde amor e justiça andam juntos, sem erro e sem exagero.

Deus é perfeitamente justo — Ele não ignora o pecado. Deus é perfeitamente amoroso — Ele busca restaurar o pecador. Essa tensão encontra plena resolução na cruz de Cristo: “A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram.” (Salmo 85:10)

Na cruz, a ira justa de Deus é satisfeita e o amor incondicional de Deus é oferecido ao pecador. A cruz mostra que Deus não escolheu entre ser justo ou amoroso — Ele foi ambos ao mesmo tempo. Como sair dessa “intrincada emoção”?

A chave está na declaração de Oséias 11:9: Porque eu sou Deus, e não homem, o Santo no meio de vocês.”

O ser humano é limitado e cheio de contradições. Mas Deus manifesta emoções sem incoerência. Sua ira não é descontrole, é santidade. Seu amor não é conivência, é graça.

Deus não é dividido. Ele é completo, santo e sempre coerente. Quando a Bíblia mostra essa tensão entre justiça e amor, é para nos ensinar — para que a gente entenda o quanto o pecado é sério e o quanto a graça é profunda. Deus nunca se contradiz. Ele é amor, mas também é fogo consumidor. E quando Ele ama, faz isso com justiça.

A cruz é o lugar onde o amor de Deus enfrentou a sua própria ira. Como disse Agostinho, de forma marcante: “Deus odiava com amor.” Ou seja, Deus rejeitou o pecado com toda a seriedade da sua justiça, mas fez isso por amor a nós, oferecendo seu próprio Filho para nos salvar.

Uma frase paradoxal, mas profundamente bíblica. Porque na cruz, Deus se deu a Si mesmo, em Cristo, como sacrifício perfeito, para satisfazer Sua própria justiça e, ao mesmo tempo, oferecer salvação ao pecador. Foi ali que Deus demonstrou que a ira contra o pecado e o amor pelo pecador não são opostos — são unidos na santidade do Redentor.

Quando contemplamos a cruz, não vemos um Deus dividido, mas um Deus perfeito — que ama com justiça e julga com amor. A ira que caiu sobre Cristo foi o amor que nos alcançou.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

28/mai/25

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