“Então os
apóstolos disseram ao Senhor: Aumenta a nossa fé.” Lucas 17:5 (NAA)
Muitas pessoas
ficam confusas quando leem o texto de Lucas 17:5-6. Os discípulos pedem a Jesus
que aumente a fé deles, e, à primeira vista, pode parecer que esse pedido não
tem relação com o que vinha sendo tratado antes. Mas, se prestarmos atenção ao
contexto, veremos que Jesus estava falando sobre pecado e perdão. Ele havia
acabado de ensinar que, se alguém pecasse contra o outro várias vezes no mesmo
dia e se arrependesse, deveria ser perdoado todas as vezes (Lucas 17:3-4). Foi
diante dessa exigência tão difícil que os discípulos disseram: “Senhor,
aumenta a nossa fé.” Lucas 17:5 (NAA).
A pergunta é: por
que ligar fé com perdão? A resposta é simples e profunda: perdoar exige fé. Não
se trata apenas de boa educação, força de vontade ou palavras bonitas. Perdoar
é crer que obedecer a Jesus é melhor do que guardar rancor, é confiar que Deus
é justo e que Ele sabe lidar com cada situação.
A verdadeira fé nos
leva a entregar a justiça nas mãos de Deus. Perdoar não significa fingir que
nada aconteceu ou minimizar a dor de uma ofensa. O perdão não anula a gravidade
do que foi feito, mas tira de nós o peso da vingança. Paulo explicou isso claramente:
“Não se vinguem de ninguém, meus amados, mas deem lugar à ira de Deus;
porque está escrito: ‘Minha é a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor.’”
Romanos 12:19 (NAA). Quando cremos nisso, temos coragem de liberar perdão,
confiando que Deus é justo e cuida de nós.
Sem essa fé, o
coração humano se inclina naturalmente para a vingança. Queremos revidar,
provar que temos razão, ver a outra pessoa pagar pelo que fez. Mas quando a fé
entra em ação, o perdão se torna possível. A fé abre espaço para a cura: cura
de feridas profundas, de corações machucados, de almas aflitas que carregam
sede de vingança. Guardar rancor nos aprisiona; perdoar, pela fé, nos liberta.
Jesus também deixou
claro que o perdão está ligado à nossa comunhão com Deus. Ele disse: “Quando
estiverem orando, se tiverem alguma coisa contra alguém, perdoem, para que
também o Pai de vocês, que está nos céus, perdoe as ofensas de vocês.” Marcos
11:25 (NAA). Ou seja, a oração verdadeira só tem efeito quando o coração não
está preso pela mágoa. Não é à toa que os discípulos suplicaram: “Senhor,
aumenta a nossa fé.”
Eles perceberam que
perdoar repetidamente, mesmo quando dói, não seria possível com as próprias
forças. Perdoar sete vezes no mesmo dia a mesma pessoa? Humanamente impossível!
Mas Jesus não estava pedindo algo ilógico, e sim mostrando que só com fé n’Ele
esse mandamento se tornaria possível.
É interessante
notar como esse ensino toca a vida prática. Muitas vezes ouvimos histórias de
pessoas que dizem perdoar, mas guardam reservas. Certa vez, pedi perdão a um
irmão e ele respondeu: “Perdoar até perdoo, mas tomar café na minha casa não.”
Essa resposta mostra como o perdão humano, sem fé, é limitado. Ele até libera
da boca para fora, mas não consegue restaurar a comunhão. A fé genuína, porém,
nos leva a obedecer a Cristo e buscar um perdão completo, que não guarda restos
de rancor.
O perdão, quando
vivido pela fé, não significa ingenuidade nem fraqueza. Pelo contrário, é sinal
de maturidade e força espiritual. É a confiança de que Deus pode transformar o
mal em bem, como fez na vida de José, que perdoou os irmãos que o venderam como
escravo. José disse a eles: “Vocês, na verdade, intentaram o mal contra
mim; porém Deus o tornou em bem.” Gênesis 50:20 (NAA). Esse é o tipo de fé que
sustenta o perdão: crer que Deus governa todas as coisas e que a justiça final
está em Suas mãos.
Nos nossos dias,
vemos isso se repetir em muitas situações. Quantas famílias estão divididas
porque alguém não conseguiu liberar perdão? Quantas amizades se romperam porque
faltou fé para confiar a Deus o acerto das contas? Por outro lado, quantos
casamentos foram restaurados, quantas igrejas foram fortalecidas, quantos
relacionamentos foram reconstruídos quando a fé operou no coração e o perdão
foi praticado?
O perdão, sem fé, é
frágil e cheio de condições. Com fé, porém, ele se torna verdadeiro, profundo e
libertador. É um ato que começa em nós, mas termina em Deus.
Por isso, podemos
entender melhor o pedido dos discípulos. Eles não estavam pedindo fé para
realizar milagres extraordinários, mas para viver a difícil tarefa de perdoar.
O perdão exige mais do que palavras — exige fé.
“A fé é a ponte
que liga o perdão humano à justiça de Deus; sem ela, guardamos mágoa, mas com
ela, encontramos libertação e cura.”
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
Nenhum comentário:
Postar um comentário