O SOLO QUE DEUS REGA COM LÁGRIMAS
Os que com
lágrimas semeiam com júbilo ceifarão.” Salmo 126:5 (NAA)
Quando pensamos na
salvação de almas, percebemos que muitas de nossas igrejas atravessam um
deserto espiritual profundo. Em vários lugares, meses inteiros se passam sem
que uma vida se renda a Cristo. E, se formos honestos, há lugares onde anos já
se acumularam sem nenhum novo convertido. O que antes era comum — pessoas
chorando aos pés da cruz, famílias sendo transformadas, batismos acontecendo
com frequência — hoje se tornou raro. Basta perguntar: “Quantas pessoas levamos
a Cristo este mês?” e quase sempre a resposta é silêncio. Se perguntarmos
sobre este ano, a realidade entristece ainda mais. E, olhando os últimos dez
anos, muitos perceberão que não houve crescimento espiritual verdadeiro, apenas
manutenção.
A igreja existe
para gerar vida, para anunciar o evangelho e trazer pessoas a Cristo. Assim
como uma ovelha gera outra ovelha, a igreja foi criada para gerar salvos.
Evangelizar não é um evento especial; é a respiração da igreja. Faz parte da
sua identidade. Quando uma igreja deixa de evangelizar, ela não está apenas
enfraquecida — ela está morrendo espiritualmente.
Mas por que isso
está acontecendo? O que impede a colheita? Por que o movimento espiritual que
deveria ser natural se tornou tão raro? A Bíblia mostra que, quando a colheita
não vem, algo já aconteceu antes no coração.
Um dos primeiros
problemas é a indiferença. Muitos cristãos se acostumaram a frequentar cultos
como quem vai a um lugar para receber algo, e não para servir. A urgência pela
salvação se perdeu. A eternidade deixou de pesar no coração. Esquecemos que
todos os dias pessoas morrem sem Cristo e entram na eternidade sem esperança.
Esse esquecimento torna a igreja fria.
Outro problema é a
falta de compaixão. Jesus só pregou às multidões depois de senti-las como
ovelhas sem pastor. Ele chorou por Jerusalém antes de entrar nela. Sem choro,
não há semeadura. Sem amor sincero pelas almas, evangelização vira estratégia,
não paixão. Em nossos dias, vemos muita organização e poucos joelhos dobrados,
muitas reuniões e pouca compaixão real.
Também há falta de
oração. Não existe colheita espiritual sem intercessão. Salvação é obra do
Espírito Santo, e o Espírito se move onde há oração intensa. Quando a igreja
para de orar pelos perdidos, ela deixa de gerar filhos espirituais. É como uma
lavoura sem água: até tem sementes, mas não tem vida.
Outro obstáculo é o
mundanismo, a chamada secularização do evangelho. Em muitos lugares, a igreja
está deixando de impactar o mundo e passou a ser impactada por ele. Aos poucos,
vai se conformando ao pensamento secular, até se parecer tanto com o mundo que
perde seu poder de transformar. E uma luz que não brilha não pode guiar
ninguém. É sal que ficou insípido. Essa
realidade aparece no dia a dia: cristãos que escondem a fé no trabalho, jovens
que têm vergonha de falar de Cristo, igrejas que evitam temas difíceis para não
desagradar. Quando a linha entre o santo e o profano se apaga, a mensagem perde
força.
E existe também a
falta de lágrimas. O salmista declara: “Os que com lágrimas semeiam com
júbilo ceifarão.” Salmo 126:5 (NAA). Quando não há lágrimas, é porque o
coração endureceu. A semente até está presente, mas cai em solo seco — e solo
seco não produz fruto. Hoje vemos igrejas que choram por necessidades
materiais, mas quase nunca choram por almas perdidas. O deserto espiritual não
é apenas falta de resultados; é falta de quebrantamento. É justamente a lágrima
que cai no chão árido que amolece a terra e permite que a semente finalmente
germine.
Mas a boa notícia é
que Deus sempre restaura campos que voltam a ser regados. Quando a igreja
retorna à oração, o céu volta a se mover. Quando volta a amar, vidas são
tocadas. Quando volta ao jejum, correntes invisíveis se rompem. E quando volta
a semear com lágrimas, a colheita inevitavelmente retorna. A escassez nunca é o
fim. A falta de frutos não é definitiva.
Nenhum deserto
permanece quando Deus é buscado de verdade. É por isso que Ezequiel, levado ao
vale de ossos secos, não fica olhando de longe — ele é colocado bem no meio
deles. Deus o conduz ao ponto mais morto do vale para mostrar que, quando a
Palavra e o Espírito se manifestam, até aquilo que parecia perdido pode viver
outra vez. O mesmo Deus que encheu aquele vale de vida é o Deus que pode
restaurar qualquer igreja que voltar ao Seu altar.
Jesus contou uma
parábola que explica por que a colheita é tão difícil. Ele disse que o semeador
saiu a semear, mas tudo conspirava contra a semente. Mateus 13 mostra que
algumas sementes caem à beira do caminho e os pássaros as comem. Outras caem em
solo pedregoso, até brotam, mas morrem por não criar raízes. Outras caem entre
espinhos e são sufocadas. Isso acontece hoje também. Os “pássaros” são
distrações, tentações, notícias, pressões do mundo moderno. Os “espinhos” são
preocupações, correria, ansiedade, prioridades erradas. As “pedras” são mágoas,
orgulho, durezas do coração. A semente é preciosa, mas continua vulnerável.
O que fazer então
para que a semente dê fruto no coração do homem que é terra seca? A resposta
continua sendo a mesma: semear com lágrimas. Semear com sinceridade,
dependência e quebrantamento. Continuar confiando quando nada muda. Plantar
mesmo quando o coração está cansado. Orar quando parece inútil. Servir quando
ninguém vê. Perdoar quando dói. A lágrima é a água que amolece o solo. A
perseverança empurra espinhos. A humildade afasta os pássaros. A entrega abre
espaço para raízes profundas.
A semente frutifica
não porque somos fortes, mas porque somos dependentes. Toda colheita começa no
choro, mas termina em cântico. Terra boa não é terra perfeita; é terra
quebrada, amolecida pelas lágrimas. E Deus sempre faz florescer aquilo que é
regado diante dEle. Lembre-se: nós podemos plantar e podemos regar, mas quem dá
o crescimento é Deus.
“A colheita
volta quando o coração volta; porque a semente sempre foi boa, mas é o solo
quebrantado que a faz florescer.”
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
27/nov/25
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