QUANDO IRMÃOS DISCORDAM: O QUE DEUS NOS ENSINA?

“Houve entre eles tal desavença que vieram a separar-se.” — Atos 15:39 (NAA)

Falar sobre conflitos na igreja pode parecer delicado, mas evitar o assunto não ajuda ninguém. A verdade é simples: conflitos existem. Não é novidade. Um pastor amigo meu costuma repetir uma frase que sempre me faz sorrir: “onde há gente, há confusão”. Ele diz isso brincando, mas está certo. Desde os primeiros cristãos, as tensões já apareciam. Não porque a igreja não fosse um lugar de amor, mas porque ela é feita de pessoas reais, com histórias, temperamentos e modos diferentes de enxergar o mundo.

Às vezes imaginamos a igreja como um refúgio perfeito, onde todos pensam igual e nunca discutem. Mas basta olhar para o Novo Testamento para perceber que isso não corresponde à realidade. As diferenças de pensamento fazem parte da vida e, de certa forma, até são necessárias. O problema não é discordar, e sim como lidamos com a discordância. A unanimidade verdadeira, aquela que une sem forçar, vem apenas do Espírito Santo.

Em Atos 10, por exemplo, Pedro precisou ser visitado pelo Espírito para entender que Deus não faz acepção de pessoas. Em Atos 15, o Concílio de Jerusalém precisou ser convocado porque judeus e gentios estavam confusos e divididos sobre questões essenciais. E logo depois desse concílio tão importante, a Bíblia registra algo aparentemente desconfortável: uma forte discussão entre Paulo e Barnabé, por causa de João Marcos. Não foi pequena a desavença — foi séria o bastante para que se separassem.

Mas por que Deus fez questão de registrar isso na Bíblia? O que Ele quer nos ensinar?

Se olharmos com atenção, veremos que a Palavra não esconde a humanidade dos santos. Pedro e Paulo divergiram (Gálatas 2:11–14), os discípulos discutiram para saber quem era o maior (Lucas 22:24), e duas mulheres da igreja de Filipos entraram em conflito (Filipenses 4:2). Nada disso anulou a obra de Deus; ao contrário, apenas mostrou que todos nós estamos em processo de santificação.

Um primeiro ensinamento é que até cristãos maduros podem discordar. Paulo e Barnabé eram gigantes da fé. Mesmo assim, olharam para a situação de João Marcos e chegaram a conclusões diferentes. Discordar não significou que um amava menos que o outro, nem que o Espírito havia deixado de agir na vida deles. Era apenas humanidade somada a convicções fortes.

Outro ponto importante é que a desavença não impediu o avanço do Evangelho. O que era antes uma equipe missionária se transformou em duas. Em vez de reduzir a obra, Deus a multiplicou. Às vezes aquilo que parece ruptura é, na verdade, expansão. Às vezes o que soa como perda é, na verdade, oportunidade. O Reino cresce até nas nossas imperfeições.

Também aprendemos que Deus usa temperamentos diferentes. Barnabé, cujo nome significa “filho da consolação”, era restaurador por natureza. Ele acreditava em João Marcos, via potencial ali. Já Paulo era estrategista e firme: entendia que Marcos ainda não estava pronto para a responsabilidade que a missão exigia. Quem estava certo? Os dois — de acordo com seus dons. É por isso que a igreja de hoje ainda precisa tanto de “Paulos” quanto de “Barnabés”.

O tempo também traz outra lição: o Espírito Santo corrige, amadurece e restaura. Anos depois, Paulo escreve a Timóteo dizendo: “Toma contigo Marcos, pois me é útil para o ministério.”  (2 Timóteo 4:11). Paulo mudou de opinião. Marcos cresceu. Barnabé foi confirmado em sua visão. O tempo, quando guiado pelo Espírito, sempre organiza o que estava aparentemente desalinhado.

Finalmente, aprendemos que conflitos não precisam virar rupturas profundas. Paulo e Barnabé se separaram na missão, não na comunhão. Não vemos na Bíblia relatos de fofoca, mágoa, ressentimento ou divisão de grupos. Foi um desacordo momentâneo na estratégia, não no amor e nem na fé.

O que isso tudo nos ensina para os dias de hoje? Ensina que conflitos vão acontecer, e não devemos nos escandalizar por isso. Ensina que discordar não transforma ninguém em inimigo. Ensina que a motivação deve ser o Reino, não o ego. Paulo e Barnabé não brigaram por orgulho, mas por visão de ministério. Ensina que somente o Espírito Santo pode levar a igreja à verdadeira unidade — a mesma que vemos entre Pedro e Cornélio (Atos 10) e no Concílio de Jerusalém (Atos 15). E ensina que, quando surgir um conflito, vale fazer uma pergunta simples: “O que Deus quer fazer através disso?”

Na vida real, isso aparece quando dois líderes de ministério discordam sobre uma decisão, quando voluntários da igreja se frustram entre si, quando um projeto parece emperrar porque cada um enxerga o caminho de um jeito. Nessas horas, Deus pode estar ensinando paciência, humildade, discernimento ou coragem. Às vezes Ele separa para multiplicar. Às vezes Ele junta para completar. Às vezes Ele confronta para maturar.

A desavença de Atos 15:39 não é um escândalo. É um consolo. Ela nos lembra que os homens e mulheres usados por Deus também falham, mas o Evangelho nunca deixou de avançar por causa das falhas de seus mensageiros.

Conflitos fazem parte da jornada. O que não faz parte é desistir um do outro, nem deixar de amar um ao outro. O convite de Deus é para lidar com as diferenças com maturidade espiritual, graça e amor — sabendo que o Espírito continua trabalhando, mesmo quando nós tropeçamos.

“Quando o amor falha, a graça continua trabalhando — e é nela que a igreja aprende a caminhar.”

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

15/nov/25

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