O PRESENTE QUE DEUS ESPERA DE NÓS
Há momentos simples
da vida que nos colocam diante de perguntas profundas. Um deles acontece quando
somos convidados para um aniversário e precisamos levar um presente. Às vezes,
o aniversariante tem tudo. Não falta carinho, nem vontade de agradar, porém
surge aquela sensação sincera: nada do que eu levar parece suficiente. A
pergunta nasce quase sem percebermos: que presente dar a alguém que já tem
tudo?
Algo muito parecido
acontece no coração do salmista. Ao olhar para trás e lembrar-se dos
livramentos, dos cuidados e da bondade de Deus, ele se vê tomado por gratidão.
Não há reclamação, nem cobrança, nem dúvida. Há reconhecimento. Deus fez muito
por ele. E, diante disso, surge a pergunta que ecoa até hoje no coração de todo
cristão: “Que darei eu ao Senhor por todos os seus benefícios para
comigo?” Salmos 116:12 (NAA).
Essa pergunta não
nasce da culpa, mas do amor. Não vem do medo, mas da gratidão. O salmista
entende algo essencial: não existe nada que ele possa oferecer a Deus que pague
ou compense tudo o que recebeu. Deus não precisa de nada. Ele não carece de
presentes humanos. Por isso, a resposta surpreende: “Tomarei o cálice da
salvação e invocarei o nome do Senhor.” Salmos 116:13 (NAA). Em vez de
tentar entregar algo, ele decide receber. Em vez de apresentar méritos, ele
acolhe a graça.
Na Bíblia, o cálice
representa aquilo que alguém recebe das mãos de Deus. Em alguns textos, o
cálice aponta juízo; em outros, sofrimento. Aqui, ele simboliza livramento,
graça e vida preservada. O próprio salmo mostra que o autor passou por momentos
difíceis, cercado pela angústia e pela ameaça da morte. Ele clamou, Deus ouviu
e o socorreu. Por isso, ao pensar em retribuição, ele entende: não há pagamento
possível. O único caminho consiste em receber o que Deus oferece.
Tomar o cálice da
salvação significa reconhecer que a salvação vem do Senhor, não do esforço
humano. Muitas pessoas ainda tentam “pagar” a Deus com boas obras,
promessas ou sacrifícios. Outras pensam que precisam se tornar melhores para
então serem aceitas. O salmo ensina o contrário. Primeiro, recebemos. Depois,
respondemos. A salvação não começa com o que fazemos para Deus, mas com o que
Deus faz por nós.
Nos nossos dias,
isso fica claro quando pensamos em alguém que recebe um presente caro que
jamais conseguiria comprar. A única resposta possível não envolve pagamento,
mas gratidão. Aceitar o presente com humildade, valorizar quem o deu e viver de
modo coerente com esse gesto já representa muito. Assim também ocorre com a
salvação. Deus nos oferece vida, perdão e esperança. Tomar o cálice significa
dizer: “Senhor, eu recebo o que o Senhor me dá”.
Por isso, o texto
segue: “Invocarei o nome do Senhor.” Salmos 116:13 (NAA). Receber
a salvação conduz ao relacionamento. Invocar significa confiar, orar, depender,
chamar por Deus em todas as situações. A maior resposta ao que Deus fez não
consiste em uma oferta material, mas em uma vida ligada a Ele.
No Novo Testamento,
esse cálice ganha ainda mais sentido. Jesus, na última ceia, falou do cálice
que Ele beberia. Para Cristo, esse cálice envolveu sofrimento e morte. Para
nós, tornou-se graça e vida. Aquilo que foi dor para Ele se transformou em
salvação para todos os que creem. Assim, o cálice da salvação aponta
diretamente para Jesus.
O salmista, porém,
não para por aí. Depois de receber, ele responde. “Oferecerei sacrifícios
de louvor e invocarei o nome do Senhor.” Salmos 116:17 (NAA). No Antigo
Testamento, sacrifício sempre envolvia custo. Algo precioso era separado e
entregue. Ao usar essa expressão, o salmista mostra que o louvor não nasce
apenas quando tudo vai bem. Ele surge de um coração que passou pela dor, foi
alcançado pela graça e escolheu agradecer.
Louvor, aqui, não
aparece como emoção passageira. Ele se torna decisão. Há dias em que louvar
flui naturalmente. Em outros, exige renúncia da amargura, do silêncio e da
autopiedade. Mesmo assim, o louvor continua sendo oferecido. Isso honra a Deus,
pois reconhece que tudo vem dEle e tudo pertence a Ele.
O Novo Testamento
confirma essa verdade quando diz: “Por meio de Jesus, ofereçamos a Deus,
sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu
nome.” Hebreus 13:15 (NAA). O louvor não compra a salvação. Ele brota
dela. É resposta contínua de quem foi alcançado pela graça.
Além disso, o
salmista declara algo muito concreto: “Cumprirei os meus votos ao Senhor,
na presença de todo o seu povo.” Salmos 116:14 (NAA). Aqui, a gratidão
sai das palavras e entra na prática. Receber a graça gera compromisso. Votos,
na Bíblia, não representam barganha, mas decisões conscientes. Cumpri-los
significa alinhar a vida à vontade de Deus e viver de forma coerente com a fé
professada.
Ao repetir essa
afirmação mais adiante, “Cumprirei os meus votos ao Senhor, na presença
de todo o seu povo” Salmos 116:18 (NAA), o salmista mostra que gratidão
verdadeira produz constância. Não se trata de um gesto isolado, mas de uma vida
transformada.
Assim, o salmo
apresenta uma resposta completa aos benefícios do Senhor: receber a salvação,
invocar o nome do Senhor, oferecer louvor e viver de forma fiel. A maior
resposta não está no que entregamos, mas em acolher, com fé e humildade, aquilo
que Deus oferece gratuitamente.
Quando entendemos
que não podemos pagar a Deus, descobrimos que o maior presente consiste em
receber Sua graça, viver em gratidão e caminhar todos os dias em fidelidade
diante dEle.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
28/jan/26
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