FILHOS NAS MÃOS DE DEUS

" Mas a mulher cujo filho era o vivo falou ao rei (porque o seu coração se lhe enterneceu por seu filho) e disse: Ah! Senhor meu, dai-lhe o menino vivo e por modo nenhum o mateis. Porém a outra dizia: Nem teu nem meu seja; dividi-o antes.” 1 Reis 3:26 (ARA)

A história da sabedoria de Salomão é uma das mais conhecidas da Bíblia. Duas mulheres compareceram diante do rei disputando a maternidade de um bebê. Durante a noite, uma delas havia perdido seu filho. A outra acordou e descobriu que seu bebê havia sido roubado enquanto dormia. Uma estava com o filho morto nos braços; a outra lutava para recuperar o filho que ainda estava vivo.

Quando lemos essa passagem, é impossível não fazer algumas perguntas. O que estava acontecendo naquela casa? Como uma mãe não percebeu a morte do próprio filho durante a noite? Como a outra conseguiu trocar as crianças sem ser notada? Aquela situação revela um ambiente marcado pela distração, pela falta de vigilância e por decisões que trouxeram sofrimento.

Embora o texto tenha um propósito específico, ele também nos leva a uma reflexão importante sobre os nossos dias.

Lembro-me de quando meus filhos gêmeos eram recém-nascidos. Eles eram tão pequenos que eu conseguia segurá-los juntos sobre minhas mãos. Dependiam totalmente dos meus cuidados e os de minha esposa. Precisavam ser alimentados, protegidos e acompanhados em cada etapa da vida.

Hoje, eles estão próximos dos quarenta anos. Tornaram-se homens, construíram suas próprias famílias e seguem seus próprios caminhos. Já não posso carregá-los nos braços como fazia quando eram crianças. Porém existe uma verdade que continua trazendo paz ao meu coração: aquilo que minhas mãos já não conseguem sustentar permanece perfeitamente seguro nas mãos de Deus.

Talvez esse seja um dos maiores desafios da paternidade. Compreender que os filhos crescem, mas nunca deixam de precisar de cobertura espiritual. Eles podem sair de casa, casar-se, mudar de cidade e construir sua própria história, mas continuam necessitando das orações, do exemplo e da intercessão dos pais.

Infelizmente, muitos lares vivem hoje uma situação parecida com a daquela casa apresentada diante de Salomão.

Há pais que estão dormindo espiritualmente. Não dormem no sentido físico, mas na vigilância espiritual. Estão tão envolvidos com trabalho, contas, compromissos, redes sociais, televisão e preocupações da vida que não percebem o que está acontecendo com seus filhos. Enquanto isso, o mundo vai ocupando espaços dentro do coração deles.

Pouco a pouco, o interesse pela Palavra diminui. A vontade de frequentar a igreja desaparece. O desejo de buscar ao Senhor se enfraquece. Os valores bíblicos são substituídos pelos valores deste século. Muitas vezes os pais só percebem quando a distância espiritual já se tornou grande.

O inimigo continua trabalhando para roubar. Rouba o tempo de comunhão. Rouba o interesse pelas coisas de Deus. Rouba a identidade espiritual dos jovens. Rouba a sensibilidade à voz do Espírito Santo. E tudo isso acontece de forma lenta e silenciosa. Mas existe outro perigo igualmente sério.

1 Reis 3:19 esclarece que uma das mães perdeu seu filho porque, durante a noite, deitou-se sobre ele, e o peso do seu próprio corpo acabou causando sua morte. Essa cena nos leva a uma reflexão importante. Há pais que não estão perdendo seus filhos por falta de atenção, mas pelo excesso de peso que colocam sobre eles.

São cobranças exageradas, comparações constantes e expectativas impossíveis de serem alcançadas. Alguns exigem tanto que os filhos passam a associar a vida cristã apenas a regras, obrigações e cobranças. Jesus, porém, nunca apresentou a fé dessa maneira. Ele ensinou um caminho de amor, graça, comunhão e transformação, onde a obediência nasce do relacionamento com Deus, e não da pressão humana.

Ele ensinou sobre graça, amor, perdão e relacionamento com Deus. Claro que disciplina é necessária. Limites são importantes. Correção faz parte da educação. Mas tudo isso precisa caminhar junto com acolhimento, compreensão e amor.

Filhos precisam ser corrigidos, mas também precisam ser abraçados. Precisam ouvir a verdade, mas também precisam sentir o amor. Precisam de direção, mas também de encorajamento.

A missão dos pais não é apenas impedir que o mundo roube seus filhos. Também não é apenas exigir deles um comportamento correto. A missão é conduzi-los aos pés de Jesus. Leva-los a uma experiência com Deus.

Nenhum pai consegue estar ao lado dos filhos vinte e quatro horas por dia. Nenhuma mãe consegue protegê-los de todos os perigos da vida. Mas existe Alguém que pode fazer aquilo que nós não conseguimos. Somente o Senhor pode guardar aquilo que não podemos guardar. Somente Ele pode proteger o coração e a mente dos nossos filhos quando eles estão longe dos nossos olhos.

Por isso, essa passagem nos convida a fazer uma pergunta sincera: estamos vigilantes ou estamos dormindo? Estamos aproximando nossos filhos de Deus ou estamos permitindo que outras coisas ocupem o lugar que pertence ao Senhor?

Que Deus nos ajude a sermos pais atentos, vigilantes e cheios de amor. Pais que oram, que ensinam, que corrigem com sabedoria e que conduzem seus filhos ao Salvador. Porque chega um momento em que nossos filhos já não cabem em nossos braços. Mas graças a Deus, nunca deixam de caber em Suas mãos.

Os filhos crescem e deixam de caber em nossos braços, mas nunca deixam de precisar das nossas orações. O maior descanso dos pais não está na força de suas mãos, mas na certeza de que seus filhos continuam seguros nas mãos de Deus.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

14/jun/26

Nenhum comentário:

Postar um comentário

  FILHOS NAS MÃOS DE DEUS " Mas a mulher cujo filho era o vivo falou ao rei (porque o seu coração se lhe enterneceu por seu filho) e...