“Os filhos de
Hete responderam a Abraão, dizendo: — Escute: o senhor é príncipe de Deus em
nosso meio...” Gênesis 23:5-6 (NAA).
Interessante notar
que Abraão e Ló começaram sua caminhada em condições muito parecidas. Os dois
possuíam rebanhos, servos, tendas e muitos bens. A prosperidade havia se
tornado tão grande que a terra já não conseguia sustentar os dois juntos. Por
isso, surgiu uma discussão entre os pastores de Abraão e os pastores de Ló.
Abraão, mesmo sendo
o mais velho e tendo recebido a promessa de Deus, não usou sua posição para
impor uma escolha. Com humildade, permitiu que Ló decidisse primeiro para onde
desejava ir. Foi então que os dois revelaram, por suas escolhas, o que havia dentro
do coração.
Ló levantou os
olhos e viu a campina do Jordão. Era uma região bem regada, fértil e
aparentemente perfeita para os seus rebanhos. Tudo indicava prosperidade,
crescimento e segurança. Aos olhos humanos, parecia a melhor escolha possível.
A Bíblia, porém,
mostra que Ló escolheu guiado principalmente pelo que viu. Ele considerou a
fertilidade da terra, mas não avaliou com o mesmo cuidado o ambiente espiritual
daquela região. Próximo dali estavam Sodoma e Gomorra, cidades conhecidas pela
maldade de seus habitantes. “Ora os moradores de Sodoma eram maus e
grandes pecadores contra o Senhor.” Gênesis 13:13 (NAA).
Ló não entrou em
Sodoma de uma só vez. Primeiro, escolheu a campina. Depois, armou suas tendas
até Sodoma. Mais tarde, passou a morar dentro da cidade. Por fim, apareceu
sentado à porta de Sodoma, ocupando um lugar de reconhecimento entre os seus
moradores.
Esse processo
revela uma verdade importante: muitas quedas não começam com uma decisão
escandalosa, mas com pequenas aproximações. Primeiro, a pessoa olha. Depois,
considera inofensivo. Em seguida, aproxima-se. Quando percebe, já está
envolvida com aquilo que antes observava de longe.
Ló entrou naquela
região cercado por riquezas, pastores, servos e grandes rebanhos. No entanto,
quando Sodoma foi destruída, ele saiu apenas com a roupa do corpo e acompanhado
de duas filhas. A esposa ficou pelo caminho. Os genros não acreditaram em sua advertência.
Seus bens desapareceram da narrativa, e seu testemunho havia perdido a força
dentro da própria família.
Quando Ló avisou
aos genros que a cidade seria destruída, eles pensaram que ele estivesse
brincando. Isso mostra que sua palavra já não possuía autoridade entre os seus.
Talvez ele ainda fosse considerado um homem importante na cidade, mas havia
perdido algo muito mais precioso: a influência espiritual.
Abraão seguiu um
caminho diferente. Ele permaneceu na terra de Canaã, vivendo em tendas, sem
possuir cidades, palácios ou grandes construções. Aos olhos humanos, talvez sua
vida parecesse mais simples e insegura. Entretanto, Abraão tinha algo que Ló
estava deixando para trás: a presença de Deus, a promessa e a comunhão com o
Senhor.
Depois que Ló se
separou dele, Deus falou novamente com Abraão e reafirmou tudo o que lhe daria.
O homem que não escolheu pela aparência recebeu de Deus uma visão muito maior
do que aquela que Ló teve ao olhar para a campina.
Abraão permaneceu
como peregrino, mas sua influência cresceu. Reis o respeitaram. Povos
reconheceram sua grandeza. Quando precisou sepultar Sara, os habitantes da
terra o chamaram de “príncipe de Deus”. Ele não tinha um trono, mas carregava
autoridade. Não usava coroa, mas era reconhecido como alguém sobre quem
repousava a bênção do Senhor.
Ló buscou um lugar
que pudesse aumentar seus bens. Abraão buscou permanecer no lugar da promessa.
Ló escolheu uma terra fértil, mas perdeu quase tudo. Abraão viveu em tendas,
mas tornou-se pai de uma grande nação.
No fim, Ló
praticamente desaparece da narrativa bíblica. Depois dos acontecimentos
envolvendo suas filhas, sua história se encerra de maneira triste. Abraão,
porém, continua sendo lembrado como o pai da fé. Seu nome atravessou séculos e
permanece como referência de confiança em Deus até os nossos dias.
Essa comparação não
significa que Abraão nunca tenha errado. Ele também enfrentou momentos de
fraqueza, tomou decisões equivocadas e precisou ser corrigido. A diferença
estava na direção de sua vida. Quando falhava, voltava ao altar. Quando tinha
medo, aprendia novamente a confiar. Sua caminhada era marcada pelo
relacionamento com Deus.
A história dos dois
nos faz pensar em nossas escolhas. Muitas vezes, somos atraídos por aquilo que
parece mais vantajoso: um emprego melhor, uma oportunidade financeira, um
relacionamento, uma mudança de cidade ou um ambiente que promete conforto. Nada
disso é necessariamente errado. O perigo está em decidir apenas pelo que os
olhos veem, sem perguntar o que aquela escolha fará com nossa fé, nossa família
e nosso testemunho.
Nem toda campina
verde é o lugar preparado por Deus. Algumas oportunidades aumentam nossos
recursos, mas diminuem nossa comunhão. Algumas portas parecem boas, mas nos
aproximam lentamente de ambientes que enfraquecem nossos valores.
Antes de escolher,
precisamos perguntar: isso me aproxima de Deus? Preservará minha família?
Fortalecerá meu testemunho? Poderei continuar servindo ao Senhor com liberdade
e fidelidade?
Ló desejou a melhor terra e terminou numa caverna. Abraão aceitou viver em tendas e foi chamado de príncipe de Deus.
A grande diferença
não estava na riqueza que possuíam, mas na direção para a qual cada um conduziu
o coração. Um escolheu pela aparência. O outro aprendeu a viver pela promessa.
A vida nos coloca
diariamente diante dessas duas possibilidades. Podemos correr atrás daquilo que
parece melhor aos nossos olhos ou confiar naquele que enxerga o caminho
inteiro. No fim, não será lembrado aquele que acumulou mais, mas aquele que
permaneceu fiel a Deus e deixou uma herança de fé.
Quem escolhe apenas
pelo que os olhos veem pode conquistar uma boa paisagem e perder o futuro; quem
caminha pela fé pode viver em tendas, mas deixa uma herança que atravessa
gerações.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
19/jul/26
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