“Abrirei a
boca numa parábola; proporei enigmas da antiguidade, os quais temos ouvido e
sabido, e nossos pais no-los têm contado. Não os encobriremos aos seus filhos,
mostrando à geração futura os louvores do Senhor, assim como a Sua força e as
maravilhas que fez.” Salmos 78:2-4 (ARC).
Uma das minhas
queixas é não ter muitas memórias dos meus antepassados. Não conheci meus avós
e sempre tive grande curiosidade de saber mais sobre eles: como viveram, quais
dificuldades enfrentaram, quais alegrias experimentaram, como era a família e
que histórias poderiam ter me contado. Talvez por isso eu tenha resolvido
escrever.
Em meu último livro
registrei um pouco da minha própria história. Não porque ela seja
extraordinária, mas porque desejo que meus filhos, netos e, quem sabe, bisnetos
possam um dia conhecer um pouco mais de mim, de nossa família e do caminho que
percorremos.
Ao ler a Bíblia,
percebo que a preocupação em transmitir às gerações futuras aquilo que foi
vivido e aprendido não começou com o salmista.
Muito antes, em
Deuteronômio, Deus já havia orientado Seu povo a guardar Suas palavras e
transmiti-las aos filhos. A fé não deveria terminar em uma geração. Aquilo que
Deus havia ensinado precisava ser contado, repetido e preservado.
Em Deuteronômio 6,
Deus orienta que Sua Palavra esteja primeiro no coração dos pais e, depois,
seja ensinada aos filhos. Há nisso uma verdade muito importante: não
transmitimos apenas aquilo que sabemos; transmitimos também aquilo que vivemos.
Mais tarde, depois
da travessia do Jordão, Josué mandou levantar pedras como memorial daquilo que
Deus havia feito. A intenção era que, no futuro, quando os filhos perguntassem
o significado daquelas pedras, os pais tivessem uma história para contar.
As pedras não
estavam ali apenas para lembrar uma travessia. Elas testemunhavam que Deus
havia agido.
A memória deveria
provocar uma pergunta, e a pergunta abriria espaço para um testemunho.
Séculos depois,
encontramos a mesma preocupação no Salmo 78. O salmista fala daquilo que havia
ouvido e aprendido dos seus pais e declara que não esconderia essas coisas dos
filhos. Uma geração deveria contar à seguinte aquilo que Deus havia realizado. Mas
por que fazer isso? A resposta aparece poucos versículos depois: “Para
que pusessem em Deus a sua esperança, e se não esquecessem das obras de Deus,
mas guardassem os Seus mandamentos.” Salmos 78:7 (ARC). Aqui está o
verdadeiro propósito da memória.
O salmista não
queria apenas que os filhos conhecessem fatos do passado. Queria que, ao
saberem o que Deus havia feito, aprendessem a confiar nEle no presente e no
futuro. Por isso, ensinar os filhos, registrar memórias e testemunhar aquilo
que Deus fez não é apenas uma maneira de conservar o passado. É também uma
forma de preparar o futuro.
Uma geração conta
para a outra para que a próxima não precise começar do zero, mas saiba em Quem
pode confiar.
Talvez esse também
seja um dos maiores motivos para registrarmos nossa história.
Esquecer pode se
tornar um perigo espiritual. No Salmo 78, o problema não era apenas desconhecer
acontecimentos antigos, mas esquecer as obras de Deus. Quando uma geração deixa
de contar aquilo que o Senhor fez, a geração seguinte corre o risco de viver como
se Deus nunca tivesse agido antes. Por isso existe uma grande diferença entre
deixar lembranças e deixar um testemunho.
Fotografias podem
mostrar como éramos. Documentos podem dizer onde moramos, estudamos ou
trabalhamos. Datas registram acontecimentos importantes. Mas um testemunho vai
além: ele conta como Deus nos sustentou enquanto tudo isso acontecia.
Talvez, daqui a
muitos anos, um neto ou bisneto encontre um de nossos livros, uma fotografia
antiga, uma carta ou algum registro de nossa vida e queira saber mais.
Que encontre não
apenas nomes e datas.
Que conheça nossas
lutas, mas também a fidelidade de Deus. Nossas perdas, mas também Seu consolo.
Nossos momentos de incerteza, mas também as respostas que recebemos. Nossos
recomeços, mas também Sua mão nos sustentando.
Não desejo apenas
que meus descendentes saibam quem fomos, onde vivemos ou o que fizemos. Quero
que saibam Quem caminhou conosco.
Porque uma história
contada com fé pode se tornar, para a próxima geração, uma razão para continuar
esperando em Deus.
Talvez esse seja um
dos maiores legados que podemos deixar. Não apenas uma história sobre nós
mesmos, mas um testemunho que diga aos que vierem depois: “O Deus em Quem
confiamos foi fiel durante a nossa caminhada. Vocês também podem confiar nEle.”
Por isso, mais do
que deixar lembranças, precisamos deixar um testemunho: Não apenas que nossos
descendentes saibam quem fomos, mas que saibam Quem caminhou conosco.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
16/set/26
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