“E Jefté fez
um voto ao Senhor e disse: Se totalmente deres os filhos de Amom na minha mão,
aquilo que, saindo da porta de minha casa, me sair ao encontro, voltando eu dos
filhos de Amom em paz, isso será do Senhor, e o oferecerei em holocausto.”
Juízes 11:30-31 (ARC).
Tenho quase certeza
de que já tratamos desse tema em algum momento, mas alguns assuntos são sérios
demais para serem esquecidos. E um deles é aquilo que prometemos a Deus.
Encontramos em
Juízes 11, a partir do versículo 29, um acontecimento que marcaria
profundamente a vida de Jefté como consequência de uma palavra precipitada. Ele
era um homem valente e havia sido escolhido para liderar Israel na batalha
contra os filhos de Amom. O momento era de tensão, responsabilidade e perigo.
Mas existe um
detalhe que não pode passar despercebido. Antes de Jefté fazer seu voto, a
Bíblia diz que o Espírito do Senhor veio sobre ele. Somente depois disso ele
pronunciou aquelas palavras: se Deus lhe desse a vitória, aquilo que primeiro
saísse da porta de sua casa ao seu encontro seria do Senhor. Mal sabia ele as
consequências daquela promessa.
Esse detalhe nos
ensina algo muito importante: não precisamos negociar com Deus para receber
aquilo que Ele já decidiu fazer. O Espírito do Senhor já estava sobre Jefté
antes do voto. Deus já estava agindo. A promessa de Jefté não fez o Senhor
começar a trabalhar.
Quantas vezes
fazemos algo parecido? Surge uma doença, uma dificuldade financeira, um
problema com um filho, uma ameaça no emprego ou alguma situação que parece não
ter saída, e começamos a negociar: “Senhor, se o Senhor fizer isso, eu prometo
aquilo.” “Se meu filho ficar bom, vou fazer isto.” “Se eu conseguir esse
emprego, nunca mais vou deixar de fazer aquilo.” “Se o Senhor me tirar desta
situação, vou dedicar isto a Ti.”
É como se
tentássemos dar uma “ajudinha” a Deus, imaginando que o problema fosse difícil
demais para o Criador e Todo-Poderoso resolver sem a nossa negociação.
A oração é bíblica
e necessária. A Palavra nos ensina que a oração do justo pode muito em seus
efeitos (Tiago 5:16). Devemos apresentar a Deus nossas necessidades, nossas dores, nossos
temores e nossos pedidos. Mas existe uma grande diferença entre oração e
barganha.
Orar é colocar
nossa necessidade diante de Deus e confiar nEle. Barganhar é tentar estabelecer
uma troca: “Senhor, se fizeres isso por mim, eu farei aquilo por Ti.”
E há outro
problema: muitas promessas são feitas durante a tempestade e esquecidas quando
o céu volta a ficar azul.
No hospital, alguém
promete. Diante de uma crise, promete. Quando está com medo, promete. Quando
parece que tudo será perdido, promete. Mas, depois que a resposta chega e a
vida volta ao normal, aquilo que parecia tão sério começa a desaparecer da
memória. É exatamente aí que Salmo 76:11 completa a advertência de Juízes: “Fazei
votos e pagai ao Senhor, vosso Deus...” Salmo 76:11 (ARC).
Jefté nos ensina a
ter cuidado antes de prometer; o salmista nos lembra de nossa responsabilidade depois
que prometemos.
A Bíblia não trata
o voto como brincadeira espiritual. Eclesiastes 5:4-5 também nos adverte que,
quando fazemos um voto a Deus, não devemos demorar em cumpri-lo. O princípio é
muito claro: é melhor pensar antes de prometer do que prometer impulsivamente e
depois procurar uma maneira de escapar daquilo que dissemos. A emoção de alguns
minutos pode produzir compromissos para muito tempo.
Jefté estava diante
de uma guerra. Havia tensão, perigo e expectativa. Foi justamente naquele
ambiente que pronunciou sua promessa. Por isso precisamos ter cuidado com
aquilo que dizemos nos momentos de maior aflição. Uma frase pode ser
pronunciada em poucos segundos, mas suas consequências podem permanecer quando
a emoção já passou.
Há ainda algo
especialmente sério no voto de Jefté: ele prometeu algo sem saber exatamente
quem seria alcançado por sua promessa. Quando voltou da batalha, quem saiu de
casa para recebê-lo foi sua própria filha.
Há diferentes
interpretações entre os estudiosos sobre a maneira como esse voto foi cumprido,
mas uma lição permanece independentemente dessa discussão: não devemos
comprometer irresponsavelmente a vida de outras pessoas por causa de decisões
espirituais tomadas por nós.
Também não devemos
pensar que promessas grandiosas impressionam Deus. O Senhor não Se deixa
convencer por nossos discursos. Ele deseja obediência.
Às vezes imaginamos
que uma promessa extraordinária seja sinal de grande fé. Nem sempre. Pode ser
apenas precipitação. A verdadeira fidelidade normalmente aparece nas coisas
simples: obedecer à Palavra, cumprir aquilo que assumimos, tratar corretamente
as pessoas, ser fiel quando ninguém está olhando e manter nossa palavra quando
já não existe emoção alguma nos empurrando.
Provérbios 20:25
também nos alerta sobre o perigo de consagrar alguma coisa precipitadamente e
somente depois pensar no que foi feito. A ordem deveria ser exatamente o
contrário: primeiro pensamos; depois prometemos.
Jesus também nos
ensina a importância de uma palavra confiável. Em Mateus 5:37, Ele mostra que
nosso “sim” deve ser sim e nosso “não”, não. A vida do cristão deve possuir
tamanha seriedade que sua palavra não dependa de grandes juramentos para ser
digna de confiança. Por isso, talvez antes de dizermos: “Senhor, eu prometo”,
precisemos aprender a dizer: “Senhor, seja feita a Tua vontade.”
Podemos pedir.
Podemos chorar. Podemos clamar. Podemos colocar diante dEle aquilo que parece
impossível. Mas não precisamos negociar com Deus. Podemos confiar que Ele sabe
o que faz e que Sua vontade continua sendo boa mesmo quando não compreendemos
tudo. E, se fizermos um voto, não devemos tratá-lo com leviandade.
Não prometa no
calor da aflição aquilo que pretende esquecer quando a tempestade passar. Diante
de Deus, a palavra não deve nascer da precipitação nem terminar no
esquecimento: antes de prometer, pense; depois de prometer, seja fiel.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
12/set/26
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