“Vocês sabem
que não foi mediante coisas perecíveis, como prata ou ouro, que vocês foram
resgatados da vida inútil que seus pais lhes legaram, mas pelo precioso sangue
de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula.” 1 Pedro
1:18-19 (NAA)
Costumamos afirmar
que a vida não tem preço. Essa frase aparece em campanhas, discursos e até em
conversas simples do dia a dia. Mas e se eu lhe dissesse que, para Deus, a vida
tem um preço? E não qualquer preço: um valor imensurável, pago de forma única e
definitiva. A Bíblia mostra que o valor da sua vida e da minha não é medido
pelo que possuímos ou conquistamos, mas pelo que representamos para Deus. E
esse valor é tão grande que custou o sangue precioso de Jesus Cristo.
À primeira vista,
pode parecer contraditório falar em valorizar a nós mesmos quando Jesus disse: “Se
alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.”
Marcos 8:34 (NAA). Como conciliar o
ensino de que temos valor com o chamado para negar a nós mesmos? Esse aparente
paradoxo se resolve quando entendemos o que a Bíblia diz sobre quem realmente
somos.
Nossa identidade é
composta de duas realidades. De um lado, fomos criados à imagem e semelhança de
Deus (Gênesis 1:27). De outro, fomos afetados pela queda, que distorceu essa
imagem e nos tornou incapazes de refletir plenamente a glória do Criador. Em nós
convivem a beleza da criação e as marcas do pecado.
Por isso, o ego que
precisamos negar, rejeitar e crucificar é aquele marcado pela queda: o orgulho,
a vaidade, o egoísmo, a vontade de viver longe de Deus. Esse é o “eu”
que precisa ser colocado na cruz todos os dias. Mas o ego que devemos afirmar e
valorizar é aquele que foi criado por Deus, a identidade moldada à sua imagem,
que encontra plenitude quando é conformada a Cristo. Negar a si mesmo,
portanto, não é anular-se, mas entregar-se para que a vida de Deus seja
revelada em nós.
Nossa humanidade
traz muitos aspectos que fazem parte do projeto original de Deus e não devem
ser desprezados: a vida em família, a capacidade de apreciar a beleza, a
criatividade artística, a responsabilidade de cuidar da criação, a fome de amor
e o desejo de viver em comunidade. Tudo isso foi afetado pelo pecado, mas em
Cristo pode ser restaurado. Por isso, ao pensar no nosso valor, não devemos nos
ver apenas como criaturas caídas, mas como seres criados, caídos e redimidos
pelo sangue do Cordeiro.
Na prática, isso
nos ajuda a lidar com as pressões do mundo. A sociedade insiste em medir o
valor das pessoas pelo status, pelos bens ou pela aparência, e descarta quem
não se encaixa nesses padrões. Ao mesmo tempo, muitos cristãos vivem culpados,
achando que negar a si mesmos significa anular seus talentos ou sua dignidade.
Mas nenhuma dessas visões é bíblica. O evangelho nos mostra que temos valor
porque fomos comprados por alto preço e que, por isso, já não vivemos para nós
mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por nós (2 Coríntios 5:15).
Um exemplo pode
ilustrar. Pense em uma joia de família herdada. Ela tem valor pelo material de
que é feita, mas pode estar suja, desgastada e marcada pelo tempo. Ainda assim,
continua sendo preciosa. Basta o trabalho de um ourives para restaurar seu brilho.
Assim somos nós: criados com valor, mas marcados pelo pecado. E Cristo é o
Redentor que nos purifica e nos devolve a dignidade de filhos de Deus.
Outro exemplo
prático é a vida em comunidade. No lar, na igreja, na escola ou no trabalho,
enfrentamos a tensão entre o egoísmo e a doação. Negar a si mesmo não é anular
sua identidade, mas permitir que Cristo seja o centro, usando nossos dons,
criatividade e capacidade de amar para servir. Isso é valorizar quem somos em
Cristo sem idolatrar o “eu” corrompido.
O valor da vida não
se mede por diplomas, contas bancárias ou curtidas em redes sociais. Ele é
definido pelo preço pago: o sangue de Jesus. Essa verdade nos dá
segurança em meio às crises de identidade e esperança em meio às lutas. Quando
Jesus nos chama a negar a nós mesmos, Ele não nos convida ao desprezo, mas à
entrega, onde descobrimos o verdadeiro valor que temos aos olhos de Deus.
A cruz é a medida
que o próprio Deus nos deu do valor do nosso ser, pois nela Cristo demonstrou o
seu amor morrendo por nós. Diante dela, contemplamos ao mesmo tempo o nosso
valor e a nossa indignidade: de um lado, a grandeza do amor e do sacrifício do
Salvador; de outro, a gravidade do nosso pecado que o levou à morte.
O valor da vida é
infinito porque custou o sangue de Cristo; e negar a si mesmo não é perder
valor, mas encontrar a verdadeira identidade naquele que nos criou, nos redimiu
e nos amou até o fim.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
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