ESCRAVOS QUE ENCONTRARAM A VERDADEIRA LIBERDADE

“Mas, agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, vocês têm o seu fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna.” Romanos 6:22 (NAA)

Quando ouvimos a palavra “escravidão”, logo pensamos em algo terrível. Nossa memória vai direto para a escravidão humana que marcou o século XVIII, quando milhões de pessoas foram arrancadas de suas terras, vendidas como mercadorias e obrigadas a viver sem dignidade, sem liberdade e sem esperança. Essa foi uma das maiores manchas da humanidade e deixou feridas que ainda hoje afetam a sociedade.

Por isso, pode soar estranho quando a Bíblia também usa a palavra “escravo” para falar da nossa relação com Cristo. Como algo tão doloroso e negativo pode se aplicar à fé? O apóstolo Paulo nos ajuda a entender esse aparente paradoxo. A escravidão humana destrói, oprime e mata; já a escravidão a Cristo faz o oposto: liberta, restaura e dá vida.

Paulo se apresenta como “servo de Cristo Jesus.” Romanos 1:1 (NAA). No original, a palavra pode ser traduzida como “escravo”, alguém que pertence totalmente a outro. Mas, nesse caso, não se trata de uma submissão forçada. É uma entrega voluntária, fruto do amor e da fé. Pertencemos a Cristo porque Ele nos comprou, não com ouro ou prata, mas com o sangue precioso derramado na cruz. E, quando nos rendemos a Ele, descobrimos que fora de Cristo não existe verdadeira vida.

Essa liberdade em Cristo não é licença para viver sem limites ou fazer tudo o que queremos. É liberdade do poder do pecado, da condenação e do medo da morte. Paulo escreveu: “Porque o escravo que foi chamado no Senhor é liberto do Senhor; e, da mesma forma, o livre que foi chamado é escravo de Cristo.” 1 Coríntios 7:22 (NAA).

No Antigo Testamento, havia um costume que ilustra bem essa ideia. O escravo hebreu poderia ser liberto no sétimo ano. Mas, se amasse seu senhor e não quisesse sair, tinha a opção de permanecer para sempre na casa. Nesse caso, sua orelha era furada com uma sovela junto à porta, como sinal de compromisso (Êxodo 21:5-6). Esse gesto não nascia da obrigação, mas do amor e da fidelidade.

Muitos estudiosos enxergam nessa prática uma figura do cristão: servimos a Cristo não por imposição, mas porque decidimos, por amor, permanecer ao lado dEle para sempre. E repare em um detalhe maravilhoso: a marca era feita junto à porta. Quem será essa Porta? Jesus mesmo nos responde: “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem.”  João 10:9 (NAA).

Lembro também de uma propaganda que marcou minha juventude. Jovens aguardavam a “Maria Fumaça” numa estação, mochilas nas costas, cantando: “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar do jeito que quiser. Não usa quem não quer.” Era a propaganda da calça jeans marca Ustop, e refletia bem o espírito jovem daquela época: associar liberdade à moda, ao estilo, à independência.

A juventude sempre teve uma ligação forte com a ideia de liberdade. Muitas vezes isso se traduz em frases como “viver sem limites” ou “fazer tudo o que quiser”. Não dá para generalizar, mas é verdade que esse tempo da vida traz mais sede de experimentar, testar fronteiras e afirmar identidade. O problema é que essa busca, quando mal dirigida, pode levar a novas formas de escravidão.

O mundo continua oferecendo muitos significados para a palavra “liberdade”. Para alguns, é não ter dono. Para outros, é viver sem regras. Mas a Bíblia ensina que, no fundo, todos servimos a alguém ou a alguma coisa. Alguns são escravos do dinheiro, outros do poder, outros dos prazeres ou da opinião alheia. Essa busca desordenada acaba se transformando em prisão.

Isso fica claro em situações do dia a dia. Há quem seja escravo do trabalho, vivendo para produzir, sem tempo para a família e sem descanso. Outros são escravos das redes sociais, medindo seu valor em curtidas e seguidores, sempre comparando a própria vida com a dos outros. Muitos ainda são escravos de vícios: álcool, drogas, jogos, pornografia. Essas coisas prometem satisfação, mas acabam trazendo vazio, tristeza e solidão. Correntes invisíveis que prendem o coração.

Cristo veio para quebrar essas correntes. Ele disse: “Se, pois, o Filho os libertar, vocês serão verdadeiramente livres.” João 8:36 (NAA). Essa liberdade não significa ausência de dificuldades, mas uma vida transformada, na qual não somos mais dominados pelo pecado. A diferença é simples: a escravidão do mundo prende e mata; a escravidão a Cristo liberta e dá vida.

Na prática, ser servo de Cristo é escolher viver para agradar a Deus acima de tudo. É optar pela verdade quando mentir parece mais fácil. É perdoar quando a raiva grita mais alto. É amar quando tudo ao redor ensina a odiar. É andar na contramão do egoísmo e seguir no caminho do amor. Isso só é possível pela graça. Jesus disse: “Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração; e vocês acharão descanso para a sua alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” Mateus 11:29-30 (NAA).

Na verdade, existem dois tipos de serviço, e seus frutos são totalmente distintos. O pecado é um senhor cruel: promete prazer, mas entrega culpa e morte. Cristo, ao contrário, é o Senhor que dá sentido à vida, acolhe como filhos e guia com amor. Servir a Cristo não é escravidão, mas a única forma de experimentar a verdadeira liberdade.

Em Cristo, não precisamos viver acorrentados às expectativas dos outros. Nele encontramos liberdade para seguir a vontade de Deus. Isso nos leva a uma pergunta necessária: o que tem controlado a minha vida? O que tem me aprisionado? Seria o medo, a ansiedade, a busca por aprovação, algum vício ou desejo? Paulo foi direto ao afirmar: “Se ainda estivesse procurando agradar a homens, não seria servo de Cristo.” Gálatas 1:10 (NAA).

No século XVIII, milhões foram forçados à escravidão com correntes de ferro. Hoje, muitos ainda vivem aprisionados por correntes invisíveis. Mas a mensagem do evangelho continua a mesma: somente em Cristo encontramos a liberdade que precisamos. Ele nos chama a sermos Seus servos, e é nessa entrega que descobrimos dignidade, propósito e vida eterna.

A escravidão humana rouba a vida; a escravidão a Cristo devolve dignidade, dá liberdade e conduz à eternidade.

 A liberdade não é ausência de dono, mas escolha de senhor. O pecado aprisiona; Cristo é o único Senhor que transforma a escravidão em vida e a entrega em verdadeira liberdade.”

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

07/set/25

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