“Deem graças
em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo
Jesus.” — 1 Tessalonicenses 5:18 (NAA)
Seu Antonio cuidava
do nosso jardim quando morávamos no Mato Grosso. Homem extremamente humilde e
servo fiel de Deus, tinha apenas 40 anos, mas as marcas da vida o faziam
parecer ter quase 60. Seu rosto carregava sinais de batalhas silenciosas,
reflexo da dureza de sua caminhada, que o fazia envelhecer antes do tempo.
De vez em quando,
para ajudar no sustento da família, ele nos oferecia legumes frescos colhidos
da horta de casa, sempre por um valor quase simbólico. Nunca colocava preço em
seus produtos, apenas dizia: pague o que o senhor acha justo. No fim da capina,
que muitas vezes durava o dia inteiro debaixo de um sol escaldante, a cena se
repetia. Perguntávamos: — Seu Antonio, quanto devemos pelo seu serviço? E ele,
com a mesma simplicidade desarmante, respondia: — Me dê o quanto o senhor acha
que valeu o meu trabalho.
Esse homem tinha
sempre uma experiência para contar sobre a forma como Deus agia em sua vida.
Dizia que sua casa não tinha trancas resistentes; ao sair, simplesmente passava
o trinco e confiava no Senhor para guardar o lar. Sua fé simples, firme e viva
era um testemunho silencioso que nos edificava. Nunca o vimos triste ou
amargurado. Pelo contrário, sempre trazia um sorriso no rosto e uma palavra de
ânimo no coração, como se a gratidão fosse o combustível de sua vida.
Até hoje, quando
falamos sobre gratidão em família, inevitavelmente lembramos dele. O “Seu”
Antonio se tornou um símbolo de que a verdadeira gratidão não depende do quanto
temos, mas do quanto confiamos em Deus.
Sem medo de errar,
posso dizer que, perto de cada um de nós, sempre existem dois tipos de pessoas:
aquelas que possuem muito, mas vivem insatisfeitas e reclamando, e aquelas que
têm pouco, quase nada, mas agradecem por cada detalhe — e, às vezes, até pelo
que ainda não receberam. A diferença não está na quantidade de bens, mas no
olhar que cada um lança sobre a vida. Gratidão não é sobre o quanto temos, mas
sobre reconhecer que tudo o que recebemos é presente de Deus.
Gratidão é mais do
que uma palavra de dicionário. É memória, afeto e a disposição de valorizar
cada bem recebido, grande ou pequeno. É guardar no coração os presentes da vida
e exercitar, dia a dia, o reconhecimento: primeiro a Deus, depois às pessoas que
Ele coloca em nosso caminho — até mesmo nas dificuldades, que tantas vezes se
tornam aprendizado.
A Bíblia fala com
clareza sobre a gratidão e nos mostra por que, a quem e quando devemos
agradecer. E a resposta é simples: sempre, a Deus e às pessoas, porque tudo vem
d’Ele.
Por que ser grato?
Porque nada do que temos é fruto apenas da nossa força. O ar que respiramos, a
saúde que nos sustenta, o alimento na mesa, a salvação em Cristo — tudo vem de
Deus. A gratidão nos lembra da nossa total dependência d’Ele. “Toda boa
dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não
pode existir variação ou sombra de mudança.” — Tiago 1:17 (NAA). Se
cada detalhe da vida é presente d’Ele, então cada detalhe é motivo de gratidão.
A quem devemos
agradecer? Primeiro a Deus, a fonte de todas as bênçãos. Mas também às pessoas,
porque Ele usa homens e mulheres para cuidar de nós, abrir portas, ensinar
lições e nos abençoar de formas variadas. O apóstolo Paulo tinha esse coração
agradecido: “Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de
vocês.” — Filipenses 1:3 (NAA). É bonito perceber que a gratidão não se
limita ao céu; ela se expressa também no relacionamento com o próximo. Um “muito
obrigado”, um abraço sincero, uma oração de reconhecimento pelo outro —
todos são gestos que refletem a presença de Deus em nossa vida.
E quando devemos
ser gratos? Sempre. Não apenas quando tudo vai bem, mas também nos dias
difíceis. A gratidão não depende das circunstâncias. Ela é fruto da fé que
reconhece que, mesmo no sofrimento, Deus continua no controle. “Em tudo,
deem graças.” — 1 Tessalonicenses 5:18 (NAA). E ainda: “Sabemos
que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que
são chamados segundo o seu propósito.” — Romanos 8:28 (NAA). Isso
significa que até as lágrimas podem se tornar sementes de bênção, e até os
vales podem nos levar a novos horizontes.
Quantas vezes
reclamamos por algo que parecia ruim, mas depois percebemos que foi a porta
para algo maior? Um emprego perdido que abriu espaço para uma oportunidade
melhor. Uma enfermidade que levou a família a se unir em oração. Uma porta
fechada que, mais tarde, se revelou um livramento. A gratidão não ignora a dor,
mas nos ensina a confiar que Deus transforma cada situação em parte de um
propósito maior.
Ser grato é também
cultivar um novo olhar para a vida. É perceber que o copo meio vazio também
está meio cheio. É valorizar a refeição simples, o abraço inesperado, a
mensagem de alguém que lembrou de você. Muitas vezes, vemos pessoas com quase
nada, como o “Seu” Antônio, mas que
conseguem sorrir e agradecer, enquanto outras, rodeadas de bens, vivem
insatisfeitas. Isso nos mostra que a gratidão não nasce da abundância, mas de
um coração que reconhece o essencial.
Nos dias de hoje,
em que tudo é tão corrido, a gratidão pode facilmente se perder. Corremos atrás
de mais e mais, e esquecemos de agradecer pelo que já temos. É como quem vive
esperando um grande triunfo e não percebe que as pequenas vitórias de cada dia
já são milagres. O simples fato de acordar, andar, falar e respirar já é motivo
suficiente para dizer: “Obrigado, Senhor.”
Ser grato é um
estilo de vida. É reconhecer que não caminhamos sozinhos. É entender que cada
pessoa que cruza o nosso caminho tem um papel no nosso crescimento. É valorizar
os detalhes que o mundo chama de comuns, mas que, na verdade, são grandes
bênçãos.
Que a gratidão faça
parte da nossa rotina. Ao abrir os olhos de manhã, agradeça a Deus pela noite
de descanso; agradeça por mais um dia. Ao enfrentar dificuldades, agradeça pela
oportunidade de aprender e amadurecer. Ao receber ajuda de alguém, expresse sua
gratidão em palavras e atitudes. Isso transforma não apenas a nossa vida, mas
também a vida de quem está ao redor.
A gratidão abre
portas, cura feridas e fortalece relacionamentos. Ela muda o olhar sobre a vida
e aproxima o coração de Deus. Não depende do que temos, mas de quem
reconhecemos como fonte de todas as coisas: o Senhor.
A gratidão
não nasce da abundância, mas da fé que reconhece cada detalhe da vida como
presente de Deus.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
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