“Quem creu em
nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor?” (Isaías 53:1
– NAA)
Na Bíblia, há
perguntas que atravessam séculos até encontrarem resposta. Quando Isaque subia
o monte com seu pai Abraão, fez uma pergunta que ecoou por quase dois mil anos:
“— Onde está o cordeiro para o holocausto?” Gênesis 22:7 (NAA).
Essa pergunta foi respondida na boca de João Batista quando, ao ver Jesus,
declarou: “— Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” João 1:29 (NAA).
Mas em Isaías 53
encontramos uma pergunta diferente, que não pode ser respondida apenas uma vez
na história. Ela precisa ser respondida todos os dias: “Quem creu em
nossa pregação?” Isaías 53:1 (NAA). Essa não é uma dúvida em busca de
esclarecimento, mas um lamento profundo do profeta diante da incredulidade de
seu próprio povo. Não era uma mensagem dirigida a povos distantes que nunca
tinham ouvido falar de Deus. Era dirigida ao povo que já conhecia, mas havia
perdido a essência da fé.
Essa pergunta
atravessa os séculos e chega até nós. Hoje também vemos muitos que se
acostumaram a participar de cultos belos, organizados, cheios de música, luzes
e técnica. Há mensagens preparadas com cuidado e habilidade, louvores bem
executados e até profissionais envolvidos na produção. Mas, muitas vezes, falta
o essencial: a fé no Cordeiro que foi ferido. Sem essa fé, toda a
estrutura se esvazia, e o culto deixa de ser encontro com Deus para se tornar
apenas espetáculo humano.
Isaías nos mostra
que o verdadeiro evangelho não começa no conforto, mas no escândalo. Não começa
na promessa, mas na dor. O evangelho começa na cruz. Antes de falarmos em céu,
precisamos falar de sangue derramado. Antes de celebrarmos vitórias, precisamos
lembrar da sentença que recaiu sobre o Filho de Deus. Charles Spurgeon disse
que antes de se alegrar com as promessas é preciso encarar a sentença. E a
sentença é clara: “O castigo que nos trouxe a paz estava sobre ele, e
pelas suas feridas fomos sarados” Isaías 53:5 (NAA).
Essa verdade
confronta o nosso orgulho. Ela mostra que não há nada em nós que possa garantir
salvação. Não são nossas obras, nem nossa bondade, nem nossos dízimos, nem nossos jejuns. Tudo
estava sobre Ele, não sobre nós. É por isso que muitos rejeitam essa mensagem.
Ela não massageia o ego, não promete fama, não alimenta o desejo humano de
glória. Pelo contrário, ela humilha o homem e exalta somente a Cristo.
Certa feita, há
muito tempo, evangelizei uma jovem de dezenove anos que nunca tinha conhecido o
Jesus da cruz. Hoje, quase cinquenta anos depois, ela continua firme — e é a
minha esposa. Ao ouvir a pregação de que Jesus era o Cordeiro que se entregou
pelos pecados, ela me disse: “Tenho dezenove anos e nunca ninguém me falou desse
Jesus.” Ela havia frequentado igrejas, mas só conhecia o Cristo apresentado
em discursos de triunfo e prosperidade. O Cristo profético, que sangra e que
chama ao arrependimento, ainda não lhe tinha sido mostrado. Isso acontece até
hoje. Muitos esperam um salvador impressionante, um líder de multidões, alguém
revestido de pompa e poder humano. Mas Deus enviou um Cordeiro silencioso, que
derramou o próprio sangue.
Em nossos dias,
infelizmente, há quem apresente um Cristo remodelado. Um Cristo de palco, mas
não de cruz. Um Cristo que nunca confronta, que nunca chama ao arrependimento,
que não fala de pecado, apenas de sucesso. Esse não é o Cristo de Isaías 53.
Não é o Cordeiro que tira o pecado do mundo. O verdadeiro Cristo carrega
marcas, e aqueles que creem nele também carregam.
Por isso, “quem
creu em nossa pregação?” não é uma pergunta que se responde com
palavras. É uma pergunta que se responde com a vida. Aquele que crê mostra essa
fé em seu modo de viver. Quem crê não consegue caminhar no pecado como se nada
estivesse errado. Quem crê é marcado pelo sangue do Cordeiro, assim como Paulo
testemunhou: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” Gálatas
2:20 (NAA).
A fé verdadeira não
é popular, mas é real. Ela não se encontra nas multidões que buscam milagres
fáceis, mas nos corações quebrantados que reconhecem a necessidade de salvação.
Deus não procura os que apenas dizem “eu creio”, mas os que vivem como quem crê.
E esses são identificados não pelo aplauso humano, mas pela marca da cruz.
Hoje, a pergunta de
Isaías continua ecoando: quem crê? É um chamado e, ao mesmo tempo, uma
acusação. Não basta admirar o Cristo da história. É preciso se render ao Cristo
da cruz. Não basta ouvir sermões bem preparados. É preciso abrir o coração ao
Cordeiro que foi ferido por nós. Não basta estar em um templo. É preciso estar
em Cristo.
Essa é a resposta
que precisamos dar todos os dias. Não com discursos bonitos, mas com vidas que
mostram fé verdadeira. Uma fé que resiste ao pecado, que se rende ao Senhor,
que carrega marcas de obediência e entrega. Uma fé que sabe que não há glória
sem cruz, nem ressurreição sem morte.
A pergunta de
Isaías — “Quem creu em nossa pregação?” — não é eco do passado,
mas desafio do presente. Crer significa mais que palavras; é viver marcado pelo
sangue do Cordeiro, carregando a cruz todos os dias, até que a fé se transforme
em visão.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
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