AS PEQUENAS RAPOSINHAS DA VIDA

“Peguem as raposas, as raposinhas, que devastam os vinhedos, porque as nossas vinhas estão em flor.” Cantares 2:15 (NAA)

Há coisas pequenas que parecem inofensivas, mas carregam um grande poder de destruição. São detalhes que passam despercebidos, gestos sutis que se repetem até se tornarem hábitos. O perigo é justamente esse: por serem pequenas, não despertam nossa atenção. No entanto, são nelas que muitas vezes mora o início da queda.

Foi assim no Éden. A serpente entrou de forma silenciosa, sem alarde, e lançou dúvida no coração de Eva. Bastou uma conversa, uma curiosidade não refreada, e a desobediência abriu as portas para consequências que ecoam até hoje. (Gênesis 3:1–6). Pequenas concessões espirituais — um diálogo imprudente, um pensamento não vigiado — abrem brechas que enfraquecem a nossa comunhão com Deus. É nas pequenas frestas que o inimigo costuma agir.

Dalila também entrou na vida de Sansão de modo sutil. Não o derrubou com uma espada, mas com insistências e seduções diárias. A força dele não se perdeu de uma vez; foi sendo minada pouco a pouco, até que o vigor espiritual se dissipou (Juízes 16:1–21). Assim acontecem as quedas: raramente vêm de repente. Elas nascem do descuido, do excesso de confiança, das pequenas distrações que corroem a fé.

Outro exemplo é o de Saul. Ele recebeu de Deus uma ordem clara, mas decidiu cumprir apenas parte dela, poupando o melhor do rebanho. A seus olhos, parecia algo pequeno, um detalhe sem importância. Porém, diante de Deus, foi rebeldia. Samuel o advertiu com firmeza: “A rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como idolatria e culto a ídolos.”  1 Samuel 15:23 (NAA) - Essa desobediência aparentemente leve custou-lhe o reinado. As “raposinhas” da vida são assim: atitudes pequenas, aparentemente inofensivas, que comprometem nossa integridade espiritual.

Jesus também alertou sobre isso ao contar a parábola do joio e do trigo. O inimigo semeou o joio enquanto os homens dormiam. (Mateus 13:24–30). É no “sono espiritual” — quando deixamos de vigiar, de orar e de cuidar da vinha — que o inimigo planta o joio que sufoca o bom fruto.

No Apocalipse, Jesus fala à igreja de Éfeso e lamenta: “Tenho, porém, contra você que abandonou o seu primeiro amor.”  Apocalipse 2:4 (NAA) - A perda, ou o abandono do primeiro amor não acontece de um dia para o outro. Começa com pequenas distrações, com o coração acomodado. As “raposinhas” roubam a doçura da comunhão com Deus até que o discernimento se enfraquece e o amor esfria.

É bom refletir: o que tem sido a nossa “raposinha”? O que anda minando a nossa vida espiritual sem que percebamos? Às vezes é algo tão simples quanto uma mágoa guardada, uma palavra mal dita, um perdão que não foi concedido, um pecado que preferimos esconder. São pequenas pedras no sapato que tornam a caminhada difícil e dolorosa. São pequenos ciscos nos olhos que dificultam nossa visão espiritual.

O tempo de acertar é agora. Não espere o mal crescer. Arranque as pequenas raposas enquanto ainda são pequenas. Não permita que sentimentos ruins criem raízes no coração. O cuidado com a vinha começa no cuidado diário com o coração.

Deus nos alerta por amor. Ele nos chama a vigiar, a cultivar com zelo o que Ele nos confiou: a fé, o lar, o casamento, a família, os relacionamentos e, acima de tudo, a comunhão com Ele. Cuidar da vinha é cuidar da alma. Que nada, nem mesmo uma “raposinha”, roube o perfume do que Deus fez florescer em nós.

O inimigo raramente derruba muralhas de uma vez; ele começa cavando pequenas brechas. Vigiar as raposinhas é preservar o jardim da comunhão com Deus.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

01/nov/25

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