FORA DO ACAMPAMENTO COM CRISTO

“Saiamos, pois, a ele, fora do acampamento, levando a mesma desonra que ele suportou.” Hebreus 13:13 (NAA)

Desde a minha juventude, sempre tive dificuldades para entender esse versículo. Lia Hebreus 13:13 na versão Almeida Revista e Corrigida, que usava a expressão: “Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério.” Palavras como “arraial” e “vitupério” soavam distantes, quase indecifráveis. Eu me perguntava: o que isso queria dizer na prática? Como viver isso nos dias de hoje? Para mim, parecia um enigma complicado demais.

Com o tempo, descobri que a explicação é mais simples do que parece. Talvez você também já tenha se deparado com esse mesmo questionamento. Se for o caso, acredito que a partir de agora tudo ficará mais claro.

Para entender melhor, precisamos olhar o contexto. Nos versículos anteriores, o autor de Hebreus explica: “Porque os corpos dos animais cujo sangue é levado pelo sumo sacerdote para o Santo dos Santos, como oferta pelo pecado, são queimados fora do acampamento. Por isso, foi que também Jesus, para santificar o povo por meio do seu próprio sangue, sofreu fora da porta da cidade.” Hebreus 13:11–12 (NAA).

No sistema do Antigo Testamento, os animais oferecidos pelo pecado eram levados para fora do acampamento, onde seus corpos eram queimados (Êxodo 29:14; Levítico 16:27). Isso representava a separação do pecado e da impureza do povo. Da mesma forma, Jesus foi levado para fora de Jerusalém e crucificado “fora da porta da cidade” (João 19:17). Ele carregou a rejeição, a vergonha e se tornou o sacrifício definitivo em nosso lugar. O versículo 13 retoma justamente essa ideia.

O chamado é claro: sair “fora do acampamento” significa nos identificar com Cristo em sua rejeição, mesmo que isso nos custe desprezo. Levar “a mesma desonra que ele suportou” é aceitar carregar a vergonha que o mundo lança sobre Jesus e sobre aqueles que o seguem. O autor de Hebreus convida os crentes a deixarem para trás o conforto da segurança, das tradições ou da religião que rejeita Cristo, para viverem a verdadeira comunhão com Ele.

E o que isso significa na prática? Quer dizer que devemos estar dispostos a ser minoria quando a fé em Cristo não é popular. Quer dizer que precisamos suportar o peso de sermos diferentes quando os valores do evangelho entram em choque com os valores da cultura ao nosso redor. Quer dizer que é preciso romper com o “acampamento” — seja ele a aparência de religiosidade, a busca por aceitação social, ou até amizades que tentam nos afastar de Deus — para andar com Jesus em fidelidade.

Esse chamado pode parecer radical, mas é o caminho da cruz. Paulo entendeu isso quando escreveu: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo.”  Gálatas 6:14 (NAA). Ele sabia que seguir a Cristo significava abrir mão da glória do mundo para se gloriar apenas no Senhor.

Hoje, esse convite continua atual. “Sair fora do acampamento” pode significar abrir mão de certas práticas que todos ao redor consideram normais, mas que ferem a vontade de Deus. Pode significar dizer não a um negócio que é vantajoso financeiramente, mas injusto. Pode significar não se calar diante de uma injustiça, mesmo correndo o risco de ser ridicularizado. Pode significar recusar convites que parecem inofensivos, mas que conduzem ao pecado. Em outras palavras, é escolher estar com Cristo, mesmo quando isso implica rejeição.

Esse chamado também nos lembra que não estamos sozinhos. O próprio Jesus passou pela rejeição. Ele foi desprezado, humilhado e crucificado. Quando aceitamos caminhar com Ele, mesmo que isso traga vergonha aos olhos do mundo, sabemos que estamos identificados com Aquele que venceu a morte e nos deu vida eterna.

O que antes parecia complicado agora faz sentido: o versículo não fala de um ato físico, mas de uma postura espiritual. Somos convidados a deixar para trás o que é passageiro e enganoso, e a nos unir a Cristo, ainda que isso nos custe desprezo. É melhor estar com Ele fora do acampamento do que permanecer no conforto de um sistema que não o reconhece como Senhor.

Essa decisão exige coragem e fé, mas traz uma alegria que o mundo não pode oferecer. Quando nos dispomos a seguir a Jesus, mesmo enfrentando críticas, descobrimos que não há lugar mais seguro do que estar ao lado d’Ele.

Seguir a Cristo é escolher estar com Ele “fora do acampamento”, abrindo mão do conforto da aceitação do mundo para carregar, com alegria, a honra de sua cruz.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

19/out/25

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