“Então Deus
abriu os olhos dela, e ela viu um poço de água; e foi encher o odre de água e
deu de beber ao rapaz.” — Gênesis 21:19 (NAA)
Hagar é uma das figuras mais comoventes do Antigo Testamento. Era uma mulher egípcia, serva de Sara, esposa de Abraão. Quando Sara percebeu que não podia ter filhos, ofereceu Hagar a Abraão para gerar um herdeiro em seu nome — algo culturalmente comum na época, mas que trouxe dor e conflitos. Hagar engravidou e deu à luz Ismael, o primeiro filho de Abraão. A relação entre as duas mulheres, porém, se tornou insustentável. O ciúme e o ressentimento fizeram Hagar fugir para o deserto, sozinha e sem rumo.
Foi ali, naquele lugar de solidão, que Deus se revelou a ela pela primeira vez. O anjo do Senhor a chamou pelo nome — um detalhe precioso, pois mostra que Deus conhecia sua história e sua dor. E o anjo disse: “Multiplicarei sobremaneira a sua descendência.” — Gênesis 16:10 (NAA). Hagar, então, deu a Deus um nome que ecoa até hoje: El-Roi, que significa “O Deus que me vê”. Naquele dia, ela aprendeu que, mesmo sendo uma escrava estrangeira e desprezada, era vista por Deus.
Anos depois, quando Sara finalmente deu à luz Isaque, o filho da promessa, a tensão voltou. Sara pediu a Abraão que expulsasse Hagar e Ismael. O coração de Abraão se entristeceu, mas Deus lhe garantiu que também cuidaria do filho da serva. Assim, Hagar e Ismael foram enviados ao deserto, com um odre de água e um pedaço de pão — pouca provisão para tamanha jornada.
Quando a água acabou, Hagar perdeu as forças. Sentou-se a certa distância do filho, porque não suportava vê-lo morrer de sede. Foi então que Deus ouviu o choro do menino e enviou um anjo que a chamou novamente. A Bíblia diz: “Deus abriu os olhos dela, e ela viu um poço de água.” — Gênesis 21:19 (NAA). O poço já estava ali; ela só não o via. Deus não criou a água naquele instante — Ele apenas fez Hagar enxergar o que sempre esteve ao seu alcance.
Essa é uma das lições mais belas das Escrituras. Muitas vezes, como Hagar, estamos tão tomados pela dor e pelo desespero que não conseguimos ver as soluções que Deus já colocou perto de nós. A bênção está ali, mas nossos olhos estão turvos pelo medo. Deus, porém, continua o mesmo — o Deus que vê, que ouve, que socorre e que mostra o poço no tempo certo.
Quantas vezes vivemos nossos próprios desertos? O deserto do desemprego, da perda, da solidão, da doença, das orações sem resposta. Todos nós já passamos por momentos em que sentimos que a fé está secando dentro da alma. É nesse ponto que Deus se revela. Ele não ignora o pranto, não se afasta do cansaço e não desiste dos esquecidos. Deus vê o que o mundo não vê. Ele encontra o invisível e o transforma em testemunho.
Nos dias de hoje, o deserto pode ter outro nome, mas a lição é a mesma. O mesmo Deus que enxergou Hagar vê também a mãe que cria os filhos sozinha, o trabalhador que perdeu o emprego, o idoso esquecido, o jovem confuso sobre o futuro, o pastor cansado, o crente aflito. A todos Ele diz: “Eu te vejo.” E no momento certo, abre os olhos para que vejam o poço — o sustento, a direção, a esperança.
Foi o mesmo olhar que alcançou Natanael, quando Jesus lhe disse: “Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas debaixo da figueira.” — João 1:48 (NAA). Assim como Hagar, Natanael descobriu que Deus o via antes mesmo de o conhecer. Hagar estava no deserto; Natanael, sob a sombra de uma figueira. Um lugar seco e outro de descanso — mas em ambos, um mesmo olhar divino que atravessa distâncias e reconhece o coração.
Deus vê a mulher esquecida no deserto e o homem sincero à sombra da figueira. Ele vê o que os olhos humanos não percebem. E esse olhar muda tudo: transforma medo em fé, solidão em propósito, deserto em caminho e figueira em encontro.
Hagar é um símbolo da graça que se estende para além das fronteiras da aliança. Em Gálatas 4:22–31, Paulo a compara à Antiga Aliança — a da escravidão — em contraste com Sara, que representa a liberdade da promessa. Ainda assim, espiritualmente, Hagar nos lembra que Deus também se revela aos marginalizados. O mesmo Deus que viu Hagar no deserto e Natanael sob a figueira continua vendo cada um de nós. Ele é El-Roi, o Deus que vê antes que clamemos, que fala antes que compreendamos, e que abre nossos olhos para percebermos o poço e o milagre que sempre estiveram ao alcance da fé.
O olhar de Deus atravessa o deserto e alcança a figueira. Onde quer que estejamos — perdidos ou em paz —, Ele nos vê, nos chama pelo nome e nos mostra que a graça nunca nos perdeu de vista.
Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
20/out/25
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