ESCOLHIDOS PARA
CONHECER, VER E OUVIR
“Então ele
disse: ‘O Deus de nossos pais escolheu você de antemão para conhecer a vontade
dele, ver o Justo e ouvir a voz dele.’” Atos 22:14 (NAA)
A fala de Ananias para Paulo revela algo que atravessa
séculos e chega até nós hoje: Deus nos escolhe antes que qualquer coisa
aconteça, antes que entendamos, antes que nos achemos dignos, e muitas vezes
antes mesmo de imaginarmos que Ele poderia nos chamar.
Assim como Paulo não encontrou Jesus por acaso no caminho de
Damasco, nossa própria história com Deus também não é fruto de coincidência. É
graça. É decisão soberana. É amor que chega primeiro.
Quando Ananias diz a Paulo que “o Deus de nossos pais”
o havia escolhido, ele estava lembrando a multidão de Jerusalém que aquele
chamado não era algo isolado, mas uma continuidade da fidelidade de Deus desde
Abraão, Isaac e Jacó. Em outras palavras: a história de Paulo começou muito
antes do seu nascimento. E, de forma surpreendente e misteriosa, a nossa
também.
Hoje, muitos de nós carregamos histórias cheias de tropeços,
culpas, fases confusas ou até mesmo períodos de indiferença espiritual. Outros
cresceram em família cristã, ouviram sobre Deus desde cedo, mas só muito tempo
depois entenderam o Evangelho de fato. Ainda assim, independentemente do
caminho, a verdade permanece: Deus nos alcança apesar da nossa história, e não
por causa dela. Essa é a beleza da graça.
Assim como Paulo foi escolhido para “conhecer a vontade
de Deus”, nós também somos chamados a essa mesma intimidade. Saber a
vontade de Deus não é apenas ouvir uma instrução, mas aprender a reconhecer seu
coração. É como uma criança que, depois de tanto conviver com o pai, sabe
identificar seu tom de voz, seu jeito de andar, seu modo de olhar. Conhecer a
vontade de Deus é fruto de convivência, não de pressa.
E Ananias acrescenta: Paulo foi escolhido para “ver o
Justo”. Esse título — “Justo” — era reconhecido pelos judeus como
uma referência direta ao Messias. Ananias não estava falando apenas de ver
Jesus fisicamente, mas de enxergar quem Ele realmente é. Hoje essa visão
continua acontecendo, não com os olhos do rosto, mas com os olhos da fé.
Ainda hoje encontramos pessoas cegas espiritualmente até que
Cristo ilumina seus caminhos. É como alguém que passa anos vivendo no desespero
e, de repente, encontra esperança onde nunca imaginou; ou como o jovem que
andava perdido em escolhas que o destruíam e, de repente, percebe uma luz
interior que ele jamais havia notado. Foi assim também com Bartimeu: quando
seus olhos se abriram, a primeira visão que teve foi do próprio Jesus — Aquele
que tira da escuridão e conduz à vida.
E isso continua acontecendo em cada pessoa que finalmente
reconhece Cristo não apenas como uma figura histórica, mas como Salvador vivo.
Pois o que realmente transforma não é enxergar o Jesus dos livros, mas o Jesus
que fala, que chama, que revela. O Jesus histórico muitos conhecem; o Jesus
profético, porém, só vê quem Ele decide alcançar com Sua graça.
Mas não basta ver. Também é necessário ouvir. Ananias
declara que Paulo ouviria a voz dEle. E isso muda tudo. Ouvimos muitas coisas
todos os dias — opiniões, notícias, medos, conselhos apressados — porém ouvir
Jesus é diferente. Não é apenas captar palavras. É deixar que a voz dEle
encontre lugar dentro de nós. É obedecer mesmo quando não entendemos tudo. É
confiar quando os pés tremem. É se submeter quando a vontade pede o contrário.
Nos dias de hoje, ouvir a voz de Jesus pode acontecer em
situações muito simples: numa leitura da Bíblia que toca uma ferida antiga,
numa oração que traz paz inesperada, num conselho sábio que confirma algo que
já ardia no coração. Também acontece quando percebemos que Deus está nos
conduzindo, mesmo que as circunstâncias ao redor pareçam confusas. Ouvir é
permitir que Ele nos direcione — e, sobretudo, agir a partir dessa direção.
Paulo não viveu de rumores sobre Jesus. Viveu de encontro
real. De revelação. De voz. Por isso sua vida mudou completamente. E esse
padrão continua sendo o mesmo para nós. Deus chama pessoas comuns —
trabalhadores, estudantes, mães, idosos, jovens cansados, pessoas que se sentem
insuficientes — para obras extraordinárias. Ele chama antes que a pessoa esteja
pronta. Ele chama antes que ela entenda. Ele chama antes que ela se ache capaz.
O chamado não começa quando a pessoa se organiza. Começa quando Deus fala. E
quando Ele fala, tudo muda de lugar.
“A graça nos encontra antes que saibamos procurá-la; Deus
nos escolhe para vê-Lo, ouvi-Lo e caminhar com Ele, porque todo chamado nasce
do encontro e nunca da nossa capacidade.”
Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça
e paz.
Pr. Décio Fonseca
23/nov/25
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