LIBERDADE QUE NOS CONVIDA À ENTREGA
“Se alguém
quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” Marcos
8:34 (NAA)
John Stott, em seu
livro A Cruz de Cristo, faz uma afirmação profunda que merece nossa
atenção: “todo cristão é, ao mesmo tempo, um pouco Simão de Cirene e um
pouco Barrabás”. Essa comparação simples revela uma verdade poderosa sobre
a nossa fé.
Somos como Simão de
Cirene, aquele homem que, vindo do campo, foi obrigado a carregar a cruz de
Jesus (Marcos 15:21). Ele não planejava isso, mas foi chamado, de repente, a
participar do sofrimento do Mestre. Da mesma forma, a vida cristã nos chama a
um caminho que não é só bênção e vitória, mas também renúncia e cruz. Seguir
Jesus inclui participar de seus sofrimentos e aprender a andar como Ele andou.
Mas também somos
como Barrabás, o criminoso que foi solto enquanto Jesus foi condenado em seu
lugar. Ele escapou da morte porque outro tomou a sua cruz. É exatamente o que
aconteceu conosco espiritualmente: estávamos condenados, mas Cristo assumiu a
nossa culpa, tomou a nossa sentença e morreu a nossa morte. Como diz Paulo: “Aquele
que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele fôssemos
feitos justiça de Deus.” 2 Coríntios 5:21 (NAA).
Em cada cristão
existe essa dupla realidade. Como Barrabás, somos livres porque Jesus morreu em
nosso lugar. Como Simão, somos discípulos chamados a carregar a cruz e
segui-lo. Essa consciência nos mantém humildes, agradecidos e comprometidos com
Aquele que nos salvou.
A expressão de
Jesus — “tome a sua cruz e siga-me” — é uma das mais fortes de
todo o evangelho (Marcos 8:34). Não é um convite a uma religiosidade
superficial, mas um chamado radical a entregar a vida inteira. Simão foi
forçado a carregar a cruz de Cristo, mas nós somos convidados a tomá-la de
forma voluntária. E como Barrabás, fomos libertos porque Jesus levou a cruz que
era nossa.
Naquele tempo, a
cruz era um símbolo conhecido. Os romanos crucificavam rebeldes e criminosos, e
a cena de alguém carregando sua própria cruz era comum. Plutarco, filósofo
grego, escreveu que “todo criminoso condenado à morte carrega nas costas
a sua própria cruz”. O evangelista João confirma isso quando relata: “Jesus,
carregando ele mesmo a sua cruz, saiu para o lugar chamado Caveira.” João
19:17 (NAA) Ou seja, cruz significava uma coisa: morte.
Hoje, muitos pensam
que sua cruz é um problema difícil, um marido irritadiço ou uma esposa
rancorosa. Mas cruz não é apenas dificuldade: cruz é símbolo de morte. Quando
Cristo nos chama para carregar a cruz, Ele nos chama a morrer. Mas morrer de
que forma?
A primeira morte é
a morte para o pecado. Pela fé, fomos unidos à morte e ressurreição de
Cristo. Paulo explica: “Considerem-se mortos para o pecado, mas vivos
para Deus, em Cristo Jesus.” Romanos 6:11 (NAA). Essa é a base da vida
cristã: morrer para o velho homem e viver para Deus.
A segunda é a morte
para o “eu”. É a morte do orgulho, do egoísmo, da vontade própria. Jesus
disse: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só;
mas, se morrer, produz muito fruto.” João 12:24 (NAA). Negar a si mesmo
significa abrir mão do trono do coração e deixar Cristo reinar. É uma escolha
diária, sustentada pelo Espírito Santo, que nos ajuda a crucificar a carne e
viver em comunhão com Deus.
A terceira é a
morte que carregamos em nosso corpo, como diz Paulo: “Trazemos sempre
no corpo o morrer de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em
nosso corpo.” 2 Coríntios 4:10 (NAA) Essa morte é enfrentada nas
enfermidades, nas perseguições, no envelhecimento, nas dores do corpo. É
lembrar que, embora o exterior se desgaste, o interior se renova dia após dia
(2 Coríntios 4:16). É uma morte que nos lembra de nossa fragilidade, mas também
nos aproxima da esperança da vida eterna.
Em resumo, podemos
dizer: a morte para o pecado aconteceu de uma vez por todas em Cristo; mas a
morte para o ego e a morte física são experiências que vivemos diariamente,
como parte de nosso discipulado.
Assim, tanto Simão
quanto Barrabás ficaram marcados para sempre. Barrabás experimentou a liberdade
que não merecia, porque alguém morreu em seu lugar. Simão experimentou a
responsabilidade de carregar a cruz de Cristo, ainda que por alguns passos.
Nós, cristãos, carregamos essas duas marcas: libertos pela graça e chamados
à responsabilidade da cruz.
Seguir a Cristo não
é uma caminhada de promessas fáceis, mas uma jornada de renúncia e fé. A cruz
não é um peso que destrói, mas o caminho que liberta. Jesus disse: “Quem
quiser salvar a sua vida a perderá; e quem perder a sua vida por minha causa e
pelo evangelho a salvará.” Marcos 8:35 (NAA). A vida verdadeira é
encontrada quando estamos dispostos a morrer para nós mesmos e viver para Ele.
O chamado é claro:
não existe discipulado sem cruz. A graça nos faz como Barrabás — libertos e
perdoados. O discipulado nos faz como Simão — seguidores que carregam a cruz.
Quando entendemos isso, nos aproximamos do coração do evangelho: uma vida de
entrega, amor e esperança na glória que há de vir.
A cruz nos
lembra que somos livres porque Cristo morreu em nosso lugar como Barrabás, mas
também chamados a segui-lo carregando a cruz como Simão; a liberdade recebida
nos convida à entrega, e a entrega nos conduz à verdadeira vida.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
24/nov/25
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