FLECHAS NAS MÃOS DE DEUS

“Como flechas na mão do guerreiro, assim são os filhos da mocidade.”  Salmo 127:4 (NAA)

O Salmo 127 faz parte dos “Cânticos de Peregrinação”, um conjunto de hinos (Salmos 120 a 134) que o povo de Israel entoava ao subir para Jerusalém nas grandes festas do Senhor. Eram canções que expressavam fé, gratidão e dependência de Deus, especialmente nas áreas mais simples e essenciais da vida.

O título já indica sua autoria: “Cântico de Salomão.” Diferente de Davi, que escreveu muitos salmos de súplica e batalha, Salomão compôs este como um salmo de sabedoria. É um poema sobre a vida prática, o trabalho, a família e o lar — e sobre como tudo isso perde o sentido quando não tem Deus como fundamento.

Ele começa afirmando: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.”  Salmo 127:1 (NAA)

Com essas palavras, Salomão nos lembra que toda construção humana sem Deus é frágil. Podemos erguer muros, sustentar rotinas e buscar segurança, mas nada disso permanece se o Senhor não estiver no centro. Quando Deus abençoa a casa, tudo se torna sólido: o trabalho, o descanso, o alimento e até os relacionamentos.

Mais adiante, o salmista apresenta uma das imagens mais belas e profundas da Bíblia: “Como flechas na mão do guerreiro, assim são os filhos da mocidade.”  Salmo 127:4 (NAA)

Essa metáfora carrega um significado poderoso. Os “filhos da mocidade” eram os filhos gerados quando o pai ainda tinha vigor, energia e disposição — normalmente na juventude ou no início da vida adulta. Na cultura hebraica, isso era sinal de bênção, pois significava que o homem teria filhos fortes o bastante para apoiá-lo e honrá-lo na velhice.

Em tempos antigos, filhos representavam continuidade e proteção. Um homem sem descendência era considerado vulnerável, enquanto aquele que tinha filhos bem instruídos era visto como alguém de futuro firme. Assim, o salmista compara os filhos a flechas — instrumentos preparados para alcançar distâncias que o guerreiro não conseguiria atingir sozinho.

Uma flecha não nasce pronta. Ela precisa ser moldada, polida e ajustada para cumprir seu propósito. O mesmo acontece com os filhos: precisam ser formados, guiados e lançados na direção certa. Quando são criados sob a instrução do Senhor, tornam-se flechas bem alinhadas, capazes de voar longe e cumprir a missão que Deus reservou para cada um.

O verso seguinte reforça essa ideia: “Feliz o homem que enche deles a sua aljava; não será envergonhado quando pleitear com os inimigos à porta.”  Salmo 127:5 (NAA)

Ter uma “aljava cheia” significava ter uma descendência firme e preparada. O pai que educava bem seus filhos podia enfrentar as dificuldades da vida com confiança, pois sabia que seu legado continuaria. É uma imagem simbólica, mas profundamente verdadeira: filhos sábios e fiéis são a honra dos pais e a defesa da família.

Nos nossos dias, essa mensagem continua atual. Em um tempo em que muitos pais se sentem sobrecarregados e os lares enfrentam pressões de todos os lados, o Salmo 127 nos convida a voltar o coração ao essencial: deixar que o Senhor seja o arquiteto da casa e o guia dos relacionamentos.

Os filhos não são conquistas humanas, mas dádivas divinas. São herança — e toda herança precisa ser cuidada. Cabe aos pais instruir, corrigir e amar, apontando o caminho da fé e da integridade. Um pai ou mãe que ora e jejua por seus filhos está, na prática, afiando as flechas que Deus colocou em suas mãos.

Do outro lado, os filhos também têm uma responsabilidade. Eles são chamados a continuar o propósito que começou com seus pais — a levar adiante a fé, a bondade, a honestidade e o amor. São flechas lançadas para alcançar lugares que os pais talvez nunca alcancem. Cada um carrega a missão de ser luz em meio à escuridão, esperança em meio ao caos.

E, acima de tudo, esse texto fala ao coração de todos os servos de Deus. Ensina que o lar, o trabalho e o futuro só têm sentido quando o Senhor é o centro da construção. Sem Ele, todo esforço se torna vaidade; com Ele, até o mais simples gesto ganha eternidade.

Na vida moderna, podemos pensar nas “flechas” como tudo aquilo que deixamos para o futuro — não apenas filhos, mas também valores, exemplos e testemunhos. Cada decisão, cada palavra e cada ato de amor é uma flecha que lançamos. Elas atingem corações, abrem caminhos e constroem histórias.

Assim como o guerreiro confia em sua pontaria, precisamos confiar em Deus, que é o verdadeiro Arqueiro. Ele é quem molda, sustenta e dá direção às flechas que saem de nossas mãos.

A verdadeira herança que deixamos não está nas mãos, mas no coração daqueles que amamos. Quando Deus é o centro do lar, cada vida se torna uma flecha que acerta o alvo da eternidade.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

05/nov/25

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