ENTRE PERDIDO E ACHADO

“Porque este meu filho estava morto e reviveu; estava perdido e foi achado.” Lucas 15:24 (NAA)

Havia um trecho de uma música que eu costumava cantar nas reuniões de jovens, há muito tempo, e que nunca saiu da minha memória. Ela dizia assim: “O amor de Jesus é maravilhoso. Alto é, intransponível! Profundo também, mas acessível! A sua extensão é incomparável! Sim, oh, grande amor!” Enquanto penso nesse corinho tão simples e ao mesmo tempo tão verdadeiro, lembro-me das palavras do pai na parábola do filho pródigo, quando ele abraça o filho que havia saído de casa: “estava perdido e foi achado.” Essa frase contém uma beleza poética, mas também uma profundidade teológica enorme. A história do filho pródigo revela exatamente isso: o amor de Deus se manifesta de forma mais intensa no espaço entre “perdido” e “achado”.

O amor de Deus não tem hora marcada, não obedece ao relógio humano, não depende do tempo terreno. Mas quando pensamos poeticamente na jornada do filho pródigo, percebemos que existe um intervalo entre o momento em que ele se perde e o instante em que é encontrado. Esse intervalo é o que poderíamos chamar de “o tempo do amor.” É o período no qual o amor age, restaura e transforma. E isso acontece conosco também. Vivemos presos ao tempo, limitados pelo calendário, mas o amor de Deus age dentro de nós no espaço entre a morte pelo pecado e a vida que recebemos através da cruz de Cristo — o que podemos chamar de o intervalo da restauração.

Assim como aconteceu com aquele jovem da parábola, acontece conosco. O Pai celestial não começa a nos amar no dia em que decidimos voltar para Ele. Ele já nos amava mesmo enquanto estávamos longe, mesmo quando vivíamos perdidos. A Bíblia afirma claramente: Nós amamos porque ele nos amou primeiro.” 1 João 4:19 (NAA). E esse amor antecede nossa própria existência: “Assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor.” Efésios 1:4 (NAA). O amor de Deus vem antes de tudo, atravessa tudo, inclusive o tempo, e espera por nós até que o nosso coração desperte.

Esse amor se manifesta plenamente quando o perdido é achado. O amor do Pai não muda, mas é o filho que passa a experimentá-lo quando retorna. Esse é o tempo do amor: o momento em que a graça encontra quem se perdeu. E esse momento sempre envolve arrependimento e encontro.

Dentro de cada ser humano há uma marca do Criador, uma alma eterna que, mesmo presa no pecado, anseia por voltar aos braços do Pai. Há um espaço de tempo entre o instante em que estamos mortos em nossos delitos e pecados e o instante em que a vida de Deus começa a pulsar novamente dentro de nós. Esse é o momento em que “a ficha cai”, quando a consciência desperta e reconhecemos nossa necessidade. É quando o coração finalmente compreende que longe do Pai não há vida. Esse tempo é sagrado, porque é o momento em que o amor nos alcança e nos transforma.

O amor de Deus enche completamente esse intervalo. O filho estava perdido, sozinho, longe, faminto, envergonhado. Mas foi achado nos braços do Pai. O caminho entre um ponto e outro é a estrada do amor que resgata, cura, levanta e devolve dignidade. Por menor que seja, esse intervalo representa a graça que desperta, a misericórdia que espera e a compaixão que corre ao encontro do pecador arrependido.

Esse é também o tempo da salvação. O tempo em que Deus opera o grande milagre de nos trazer da morte para a vida. Paulo declara: Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação.” 2 Coríntios 6:2 (NAA). O tempo do amor é o “agora”: o momento em que o perdido decide voltar e o Pai está pronto para recebê-lo.

O amor conduz a ação do pai. Ele não pergunta onde o filho esteve, quanto tempo ficou longe, ou o que fez com a herança. Ele simplesmente celebra a volta. Entre perdido e achado não há julgamento; há abraço, festa e reconciliação. Onde o amor chega, a vida é restaurada. O amor do Pai descreve com perfeição o coração do evangelho: o amor de Deus se manifesta totalmente no instante em que um perdido é encontrado – há festa no céu. Esse é o tempo mais precioso do amor — o tempo do retorno, do reencontro e da plena restauração.

O amor de Deus preenche o intervalo entre perdido e achado, transformando o retorno em milagre e o reencontro em vida nova.”

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

07/dez/25

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