FOME QUE NÃO SE SATISFAZ COM APARÊNCIA
“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque
serão satisfeitos.” Mateus 5:6 (NAA)
Sede e fome de justiça são o tema de nossa quarta reflexão nas
bem-aventuranças. Jesus escolhe essas palavras com muito cuidado. Ele fala de
fome e sede porque está tratando de um desejo profundo, contínuo e essencial,
não de algo superficial ou ocasional. Em Mateus 5:6, Ele declara: “Bem-aventurados
os que têm fome e sede de justiça, porque serão satisfeitos.” (NAA).
Jesus nos ensina que a justiça do Reino de Deus precisa ser buscada como algo
indispensável à vida.
Fome e sede não são caprichos. São necessidades básicas. Quando
alguém sente fome de verdade, não se contenta com a aparência de comida. Quando
alguém sente sede de verdade, não se satisfaz com palavras, promessas ou
explicações. Precisa de algo real. Ao usar essas imagens, Jesus mostra que a
justiça não pode ser apenas discurso religioso, tradição ou fachada espiritual.
Ela precisa ser desejada com intensidade, como algo sem o qual não conseguimos
viver.
Ao longo da história, o povo sempre clamou por justiça. O
necessitado clama por justiça. O oprimido clama por justiça. A Bíblia reconhece
esse clamor, especialmente quando a justiça humana falha, demora ou é negada.
Muitas vezes, a injustiça se torna parte do cotidiano, e o sofrimento se
prolonga. Diante disso, Deus levanta profetas para denunciar uma fé vazia e
chamar o povo de volta ao caminho correto.
Um desses profetas foi Amós. Ele falou contra uma religião
bonita por fora, cheia de rituais, mas vazia por dentro. Em meio às injustiças
praticadas contra os pobres e fracos, Amós declarou: “Corra o juízo como
as águas, e a justiça, como um ribeiro perene.” Amós 5:24 (NAA). Essa
imagem é forte. Deus não quer uma justiça que aparece de vez em quando, nem uma
justiça seletiva, que favorece alguns e ignora outros. Ele deseja uma justiça
que flui continuamente, como um rio que nunca seca.
Por isso se diz que justiça tardia não é justiça. Quando a
justiça demora demais, ela deixa de cumprir seu propósito e se transforma em
opressão. Deus não se agrada de uma fé que canta, oferece sacrifícios e
frequenta cultos, mas ignora o pobre, o fraco e o injustiçado. A justiça que
agrada a Deus precisa alcançar a vida real.
Jesus retoma esse ensino e o aprofunda. Ele não está falando
apenas de justiça social, embora ela esteja incluída. Jesus fala, sobretudo, de
justiça diante de Deus. Trata-se do desejo sincero de viver de forma correta,
reta e alinhada com a vontade do Senhor. Não é aparência religiosa. Não é
discurso bonito. Não é frequentar lugares santos sem mudança de vida. É querer,
de verdade, viver o que Deus aprova.
Por isso Jesus não diz: “Bem-aventurados os que falam de
justiça” ou “os que exigem justiça dos outros”. Ele diz: “os que
têm fome e sede de justiça”. Isso descreve pessoas que sentem falta da
justiça quando ela não está presente, que se incomodam com o erro e sofrem ao
ver o pecado — primeiro em si mesmas, depois ao redor. É um desejo que começa
no coração e se reflete nas atitudes.
Nos nossos dias, esse ensino é muito atual. Vivemos em um tempo
em que muitos exigem justiça, mas poucos querem praticá-la. Cobram honestidade,
mas dão jeitinho. Pedem respeito, mas ferem com palavras. Criticam a corrupção,
mas são injustos nas pequenas coisas do dia a dia. Jesus aponta outro caminho:
antes de exigir justiça do mundo, permita que a justiça de Deus governe o seu
coração.
Ter fome e sede de justiça significa desejar agir corretamente
mesmo quando ninguém está vendo. É escolher a verdade quando a mentira parece
mais fácil. É tratar as pessoas com dignidade, mesmo quando isso não traz
vantagem. Isso se manifesta no trabalho, na família, nos relacionamentos e nas
decisões simples da vida.
Essa fome espiritual também revela dependência de Deus. Ninguém
consegue viver a justiça do Reino apenas com força de vontade. Por isso Jesus
promete: “porque serão satisfeitos.” O próprio Deus sacia esse desejo.
Ele concede graça, direção e transformação interior. A justiça que Deus exige é
a justiça que Ele mesmo produz em nós.
Assim, Jesus ensina que a verdadeira felicidade não está em
parecer justo, mas em desejar ser justo. Não em usar a religião como máscara,
mas em permitir que Deus transforme o interior. Quem tem fome e sede de justiça
não se acomoda, não se conforma com o erro e não se contenta com pouco. Busca
viver aquilo que agrada ao Senhor. E esse desejo sincero nunca fica sem
resposta. Deus promete saciar.
Deus não se agrada da justiça que parece correta, mas da justiça
que nasce de um coração faminto por viver a Sua vontade.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
05/fev/26
Nenhum comentário:
Postar um comentário