O CORAÇÃO DE UM PAI

“Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece daqueles que o temem.” Salmos 103:13 (ARC).

Chegamos a mais um Dia dos Pais. Essa me parece uma das datas mais discretas do nosso calendário, bem diferente do Dia das Mães, do Natal e de outras comemorações mais badaladas. Muitas vezes, parece até que a data serve mais para movimentar o comércio. Mas isso não diminui, de forma alguma, o valor de um pai e a importância de sua presença na vida dos filhos. Para mim, aliás, Dia dos Pais é todo dia.

O texto de Salmos 103:13 nos permite olhar para a paternidade humana como uma imagem do cuidado de Deus. O pai bíblico não é apenas aquele que sustenta materialmente sua família, mas também aquele que acolhe, compreende, protege, corrige, perdoa, orienta e permanece ao lado dos filhos.

Como não falar das marcas deixadas pelos pais? Marcas que atravessam gerações. A presença do pai, suas palavras, seu exemplo, suas orações e, principalmente, a maneira como ele apresenta Deus aos seus filhos.

Há pais que são pastores, diáconos, obreiros na Casa do Senhor. Pais que conduzem seus filhos à Escola Dominical, ao culto, à oração e ao conhecimento da Palavra. Pais que procuram viver com integridade e que deixam, muitas vezes sem perceber, um legado que continuará falando depois deles.

Como nos ensina o livro de Provérbios: “O justo anda na sua sinceridade; bem-aventurados serão os seus filhos depois dele.” Provérbios 20:7 (ARC).

Essa reflexão me leva ao exemplo de dois pais.

O primeiro é Abraão, que levou seu filho amado ao monte para oferecê-lo em sacrifício. No momento decisivo, porém, Deus lhe disse: “Não estendas a tua mão sobre o moço”. Isaque foi poupado.

Séculos depois, outro Pai entregaria Seu Filho amado ao lugar do sacrifício. Mas, dessa vez, não haveria um carneiro tomando o lugar do Filho, porque o Filho era o próprio Cordeiro de Deus.

Abraão pôde descer do monte com Isaque ao seu lado; o Pai Celestial entregou Seu Filho à morte para que nós pudéssemos receber a vida.

No monte Moriá, Deus poupou o filho de Abraão. No Calvário, Deus não poupou Seu próprio Filho.

Isso se liga de maneira muito bonita ao que Paulo escreve aos Romanos: “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes, o entregou por todos nós...” Romanos 8:32 (ARC).

Há ainda uma correspondência muito significativa entre os dois acontecimentos. Em Gênesis 22, quando Isaque pergunta pelo cordeiro para o holocausto, Abraão responde que Deus proveria para Si o cordeiro. No Calvário, essa provisão alcança sua plenitude em Cristo. Assim, a mensagem deixa de ser apenas sobre a paternidade de Abraão e nos conduz à expressão máxima do amor do Pai: o Pai que entregou o Filho para que nós pudéssemos receber a vida.

Pais amados, pais incompreendidos. Essas são duas experiências que, muitas vezes, convivem na vida daqueles que carregam a responsabilidade de criar filhos.

Um pai pode ser profundamente amado e, ao mesmo tempo, nem sempre ser compreendido.

A experiência de Abraão e Isaque nos coloca diante de uma situação humanamente difícil de compreender. Do mesmo modo, o plano do Pai ao entregar Seu Filho ultrapassa nossa compreensão humana, embora revele a maior expressão de amor que o mundo já conheceu.

Também na vida cotidiana há decisões de um pai que o filho talvez só venha a compreender muito tempo depois. Quando existe amor verdadeiro na origem dessas decisões, aquilo que um dia pareceu incompreensível pode, anos mais tarde, ser reconhecido como cuidado, entrega, proteção e preocupação.

No amor humano, há pais que são incompreendidos pelos filhos. No amor divino, contemplamos um Pai cujo gesto mais difícil de compreender foi também a maior prova de amor já oferecida à humanidade.

Talvez alguém esteja vivendo este Dia dos Pais com o coração ferido.

Há filhos que amam seus pais, mas já não falam com eles. Há pais que amam seus filhos, mas o orgulho, uma palavra mal colocada, uma decepção ou uma antiga mágoa levantou um muro entre os dois.

Às vezes, os anos passam e ninguém dá o primeiro passo. Um espera que o outro telefone. Um espera que o outro peça perdão. Um espera que o outro reconheça seu erro. E, enquanto os dois esperam, o tempo vai levando oportunidades que talvez nunca mais voltem.

Se seu pai ainda está vivo e existe possibilidade de reconciliação, talvez o melhor presente deste Dia dos Pais não seja comprado em uma loja. Talvez seja uma ligação, uma visita, um abraço, um pedido de perdão ou simplesmente algumas palavras: “Pai, precisamos conversar.”

Há situações em que não podemos apagar o que aconteceu. Não podemos voltar no tempo nem desfazer determinadas palavras ou atitudes. Mas podemos decidir que a mágoa não escreverá o último capítulo da nossa história.

Há filhos que só compreendem determinadas atitudes do pai depois que já não podem mais abraçá-lo. Por isso, quando a reconciliação é possível, não deixe para amanhã o abraço que pode ser dado hoje.

Meu pai partiu para o Senhor há alguns anos, e hoje eu daria tudo para poder abraçá-lo mais uma vez. Mas você, que ainda tem a bênção e a oportunidade de ter seu pai vivo, não espere.

Corra até ele hoje. Dê-lhe um abraço apertado, um beijo e diga que o ama.

Talvez existam diferenças entre vocês. Talvez haja coisas que ainda precisem ser conversadas. Talvez ele nunca tenha sido o pai perfeito que você gostaria que fosse. Afinal, nenhum pai humano é perfeito. Todos carregamos nossas limitações, falhamos, erramos e, muitas vezes, aprendemos a ser pais enquanto já estamos exercendo a paternidade. Mas, se ainda existe amor e possibilidade de aproximação, não permita que o orgulho roube de vocês um tempo que não poderá ser recuperado.

Não deixe para amanhã o carinho que pode demonstrar hoje, porque há abraços que, um dia, só poderão ser dados na lembrança.

No final, talvez a maior herança de um pai não possa ser medida em dinheiro, bens ou propriedades. Há coisas muito mais preciosas que permanecem: uma palavra que ficou, um conselho que atravessou os anos, uma oração que nunca foi esquecida, um exemplo que continua sendo seguido e uma fé transmitida de geração em geração.

O maior legado de um pai não está naquilo que deixa para os filhos, mas naquilo que deixa dentro deles.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

09/ago/26

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