O PASSADO NÃO PODE SER UMA PRISÃO

“Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia... Confessei-te o meu pecado e a minha iniquidade não mais ocultei. Eu disse: ‘Confessarei ao Senhor as minhas transgressões’; e Tu perdoaste a iniquidade do meu pecado.” Salmos 32:3, 5 (NAA).

A culpa pode construir prisões que ninguém consegue ver. Não existem grades, cadeados ou muros, mas quem vive dentro delas sabe como é difícil escapar. A pessoa continua trabalhando, conversando, indo à igreja, cuidando da família e realizando suas tarefas, porém carrega dentro de si o peso de alguma coisa que fez e gostaria de poder apagar.

Davi conheceu essa experiência. Ele havia pecado e tentou conviver com aquilo em silêncio. O problema é que o pecado escondido não ficou apenas no passado; começou a afetar o presente. Davi descreve seu sofrimento de maneira muito forte: enquanto se calava, sentia até seus ossos envelhecerem. A consciência acusava, a alegria desaparecia e aquilo que ele tentava esconder diante dos outros continuava completamente aberto diante de Deus.

Há uma diferença importante entre a culpa que nos leva ao arrependimento e a culpa que nos mantém presos. Quando o Espírito Santo nos mostra que erramos, Ele não faz isso simplesmente para nos destruir. Ele nos convence para que reconheçamos o pecado, confessemos, recebamos o perdão e mudemos de direção. O arrependimento olha para o erro e diz: “Eu pequei e preciso voltar para Deus.” A culpa sem esperança olha para o mesmo erro e diz: “Eu pequei e nunca mais poderei ser diferente.”

Muitas pessoas vivem assim durante anos. Um pai se lembra de palavras duras que disse aos filhos quando eram pequenos e pensa que jamais poderá reparar aquilo. Uma mãe se culpa por decisões tomadas na criação dos filhos. Alguém se recorda de um casamento que terminou, de uma amizade destruída, de uma oportunidade desperdiçada, de uma mentira, de uma traição ou de uma escolha feita num momento de fraqueza. O acontecimento terminou há muito tempo, mas dentro da pessoa continua acontecendo todos os dias. É como assistir repetidamente ao mesmo filme e desejar mudar o final.

Davi descobriu que a saída daquela prisão começava com uma decisão: parar de esconder. Ele confessou seu pecado ao Senhor e recebeu perdão. O passado não deixou de existir, mas deixou de governá-lo da mesma maneira.

A Palavra nos dá esta segurança: “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” 1 João 1:9 (NAA).

Observe que Deus não diz que talvez perdoe. Ele promete perdão àquele que confessa verdadeiramente seu pecado. Isso não significa apenas pronunciar algumas palavras. Confessar é reconhecer diante de Deus aquilo que fizemos, abandonar as desculpas e nos colocar diante dEle com sinceridade. Talvez alguém diga: “Mas eu não consigo me perdoar.”

Essa frase parece humilde, mas precisa ser examinada à luz da graça. Se Deus perdoou aquilo que confessamos sinceramente, por que insistimos em continuar pronunciando sobre nós mesmos uma sentença que Ele já retirou? Em Cristo, não precisamos viver tentando pagar uma dívida que Ele já pagou.

A Bíblia declara: “Agora, pois, já não existe nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus.” Romanos 8:1 (NAA).

Isso não significa que todas as consequências de nossos erros desaparecerão. Algumas escolhas deixam marcas. Uma palavra pode precisar de um pedido de perdão. Uma dívida talvez tenha de ser paga. Um relacionamento pode precisar de tempo para ser reconstruído. Há situações que nunca voltarão exatamente a ser como eram. Mas existe uma diferença enorme entre enfrentar as consequências de um erro e viver debaixo de condenação.

Deus pode usar até as marcas do passado para produzir maturidade. A pessoa que um dia feriu alguém pode tornar-se mais cuidadosa com suas palavras. Quem administrou mal seus recursos pode aprender responsabilidade. Quem perdeu relacionamentos por orgulho pode aprender humildade. Quem se afastou de Deus pode descobrir o valor de permanecer perto dEle. A graça não transforma o pecado em algo pequeno. Ela mostra que o perdão de Deus é maior.

Também precisamos compreender que não podemos mudar aquilo que aconteceu ontem, mas podemos decidir o que faremos hoje. O inimigo gosta de apontar continuamente para o passado e dizer: “Veja o que você fez.” Cristo aponta para a cruz e nos lembra do que Ele fez.

Talvez exista alguma lembrança que ainda governe suas emoções. Talvez ninguém saiba, mas você sabe. E Deus também sabe.

Se existe pecado ainda não confessado, não o esconda. Leve-o ao Senhor com sinceridade. Se for necessário pedir perdão a alguém, peça. Se houver algo que possa ser reparado, procure reparar. Mas, depois de confessar e receber o perdão de Deus, não continue morando numa prisão cuja porta Cristo já abriu.

Davi entrou no Salmo 32 carregando o peso do silêncio e saiu celebrando a alegria do perdão. Você também pode sair. Porque o passado pode explicar algumas de nossas cicatrizes, mas, nas mãos de Deus, não precisa determinar nosso futuro.

A culpa nos mantém olhando para aquilo que fizemos; a graça nos faz olhar para aquilo que Cristo fez. Quando Deus perdoa, o passado deixa de ser uma prisão e pode tornar-se uma lembrança da grandeza de Sua misericórdia.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

24/ago/26

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