QUANDO O MAL ENCONTRA A PORTA FECHADA

“..._e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal [pois Teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém]!” Mateus 6:13 (NAA).

Jesus encerra a oração do Pai Nosso ensinando-nos a reconhecer uma realidade que não podemos ignorar: somos fracos e precisamos diariamente da proteção de Deus. Depois de pedir o pão, o perdão e aprender a perdoar, chegamos ao último pedido: não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal.

Isso não significa que Deus nos tenta para nos fazer pecar. A Bíblia afirma: “Ninguém, ao ser tentado, diga: ‘Sou tentado por Deus.’ Porque Deus não pode ser tentado pelo mal e Ele mesmo não tenta ninguém.” Tiago 1:13 (NAA).

Portanto, quando pedimos não nos deixes cair em tentação, estamos dizendo: “Pai, conheço minha fraqueza. Guarda-me. Não permitas que eu caminhe sozinho por lugares onde minha fé poderá ser vencida. Dá-me sabedoria para reconhecer o perigo e força para fugir dele.”

Há uma grande diferença entre confiar em Deus e confiar excessivamente em nós mesmos. Muitas quedas começam quando alguém pensa: “Comigo isso nunca acontecerá.” A pessoa acredita que é suficientemente forte para permanecer perto daquilo que a tenta sem cair. Jesus nos ensina exatamente o contrário. Ele nos ensina a reconhecer nossa fragilidade.

Foi por isso que, no Getsêmani, disse aos discípulos: Vigiem e orem, para que não caiam em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.” Mateus 26:41 (NAA).

Observe as duas palavras: vigiar e orar.

Não basta orar e continuar entrando voluntariamente em situações que sabemos que podem nos derrubar. Se determinada conversa sempre termina em fofoca, precisamos ter cuidado. Se determinadas companhias nos afastam de Deus, precisamos estabelecer limites. Se o celular abre portas para conteúdos que alimentam pensamentos errados, precisamos vigiar aquilo que vemos. Se sabemos que nossa fraqueza é a raiva, devemos evitar responder no momento em que estamos dominados pela emoção. Às vezes pedimos: Senhor, livra-me da tentação, mas continuamos deixando aberta a porta por onde ela costuma entrar.

Em nossos dias, precisamos ter atenção especial com as redes sociais. Elas podem ser instrumentos úteis, mas também podem colocar diante dos nossos olhos, todos os dias, conteúdos, conversas e relacionamentos capazes de alimentar aquilo que deveríamos evitar. Uma imagem pode despertar um desejo errado; uma conversa aparentemente inocente pode ultrapassar limites; a comparação constante com a vida dos outros pode alimentar inveja, insatisfação e orgulho; uma discussão pode despertar ira; e a facilidade de falar sem estar diante da pessoa pode nos levar a dizer aquilo que jamais diríamos frente a frente.

Por isso, vigiar também significa saber o que vemos, quem seguimos, com quem conversamos e quanto tempo permitimos que as redes ocupem nossa mente. Não faz sentido pedir a Deus que nos livre daquilo que continuamos procurando ou manter aberta uma porta que sabemos para onde nos conduz.

Em determinadas situações, o livramento de Deus pode estar justamente na decisão de deixar de seguir alguém, encerrar uma conversa, bloquear determinado conteúdo, desligar o celular ou simplesmente afastar-se daquilo que percebemos estar enfraquecendo nossa comunhão com Ele.

A oração não substitui a vigilância. A oração nos dá força para vigiar e coragem para fechar as portas que não deveriam permanecer abertas.

Também existem tentações muito comuns em nossos dias. Um funcionário pode ter a oportunidade de conseguir vantagem através de algo desonesto e pensar: “Ninguém descobrirá.” Uma pessoa casada pode começar uma conversa aparentemente inocente e perceber, aos poucos, que está ultrapassando limites. Alguém ofendido pode sentir vontade de responder imediatamente nas redes sociais. Outro pode receber dinheiro a mais por engano e decidir ficar calado. É nesses momentos comuns da vida que Mateus 6:13 se torna uma oração profundamente atual: Pai, não me deixes cair.”

A tentação normalmente não se apresenta dizendo: “Estou aqui para destruir sua vida.” Muitas vezes ela começa oferecendo algo agradável, fácil ou aparentemente sem importância. O problema é que pequenos passos podem nos levar para muito longe de onde imaginávamos chegar. Por isso precisamos diariamente da direção de Deus. Mas Jesus não ensina apenas a pedir que não caiamos. Ele acrescenta: mas livra-nos do mal”.

Existem batalhas das quais precisamos ser guardados antes mesmo de perceber o perigo. Há situações que Deus impede, caminhos que Ele fecha, encontros que não acontecem e circunstâncias das quais Ele nos livra sem que jamais saibamos.

Outras vezes, o livramento acontece no meio da própria tentação.

Paulo escreve: “Não sobreveio a vocês nenhuma tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar; pelo contrário, juntamente com a tentação proverá livramento, para que vocês a possam suportar.” 1Coríntios 10:13 (NAA).

Isso é maravilhoso. A tentação pode aparecer, mas Deus continua presente. Existe uma saída. Talvez seja desligar o telefone, sair daquele lugar, encerrar uma conversa, recusar uma proposta, procurar alguém de confiança, começar a orar ou simplesmente dizer não enquanto ainda podemos dizer não.

Muitas vezes queremos que Deus retire a tentação, enquanto Ele está nos mostrando a porta pela qual devemos fugir dela.

Também chama a atenção que Jesus continua usando o plural. Ele não diz apenas não me deixes cair ou livra-me, mas não nos deixes e livra-nos.

Mais uma vez aparece a comunhão. A vida cristã não foi feita para ser vivida sozinha. Precisamos orar uns pelos outros, cuidar uns dos outros e ajudar nossos irmãos quando percebemos que estão enfraquecendo. Às vezes, o livramento de Deus chega através de uma palavra, de um conselho, de uma oração ou de um irmão que percebe o perigo antes de nós.

E a oração termina voltando para onde começou: Deus.

Começamos dizendo Pai nosso e terminamos reconhecendo que dEle são o Reino, o poder e a glória.

Isso nos lembra de que nossa segurança não está em nossa força, mas na força dEle. Não vencemos porque somos incapazes de cair. Vencemos porque aprendemos a vigiar, orar, fugir do mal e depender diariamente de Deus.

Talvez essa seja a grande lição do último pedido do Pai Nosso: não devemos ter vergonha de reconhecer nossa fraqueza; perigoso é imaginar que não precisamos da proteção de Deus.

Todos os dias podemos começar dizendo: Pai, guia meus passos, guarda meus olhos, minhas palavras, meus pensamentos e minhas decisões. Mostra-me o perigo antes que eu caia e, quando o mal se aproximar, dá-me sabedoria para reconhecer a saída que Tu preparaste.”

A oração termina, mas a dependência continua.

A maior segurança do cristão não está em acreditar que é forte demais para cair, mas em saber que é fraco o suficiente para precisar de Deus e amado o suficiente para encontrar nEle o livramento.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

23/ago/26

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