QUANDO O INIMIGO ESPERA O MOMENTO OPORTUNO
“Tendo
concluído todas as tentações, o diabo afastou-se de Jesus até momento
oportuno.” Lucas 4:13 (NAA).
O capítulo 4 de
Lucas começa com uma informação que não deveria passar despercebida: Jesus
entrou no deserto cheio do Espírito Santo. Lucas registra: “Jesus, cheio
do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi guiado pelo mesmo Espírito, no
deserto.” Lucas 4:1 (NAA). Portanto, Jesus não estava espiritualmente
enfraquecido nem afastado do Pai quando foi tentado. Pelo contrário, estava
cheio do Espírito Santo.
Isso nos ensina
algo muito importante: estar cheio do Espírito não significa viver sem
tentações. Uma pessoa pode estar orando, servindo a Deus, vivendo uma
experiência profunda com o Senhor e, ainda assim, enfrentar momentos de prova.
A tentação não é necessariamente sinal de afastamento de Deus. O pecado
acontece quando cedemos a ela. Jesus foi tentado, mas permaneceu perfeitamente
obediente ao Pai.
Depois de quarenta
dias sem comer, Jesus teve fome. Foi exatamente nessa necessidade real que veio
a primeira proposta do inimigo: transformar uma pedra em pão. Comer não seria
pecado, e a fome de Jesus era legítima. O problema estava em usar Seu poder para
atender à própria necessidade fora da submissão ao Pai.
Essa continua sendo
uma das áreas em que somos tentados. Temos necessidades legítimas: precisamos
de trabalho, dinheiro, companhia, segurança, reconhecimento, afeto e tantas
outras coisas. O perigo começa quando pensamos que, porque precisamos de alguma
coisa, qualquer maneira de consegui-la se torna aceitável.
Alguém pode mentir
porque precisa conservar o emprego, fraudar porque precisa de dinheiro, entrar
num relacionamento contrário à vontade de Deus porque não suporta mais a
solidão ou negociar princípios porque acredita que não existe outra saída. A
necessidade pode ser verdadeira, mas isso não torna correto qualquer caminho
utilizado para satisfazê-la.
Jesus nos ensina
que uma necessidade legítima nunca justifica uma atitude contrária à vontade de
Deus.
Depois veio outra
proposta. O diabo mostrou a Jesus os reinos do mundo e ofereceu poder e glória
em troca de adoração. Havia ali um atalho. Jesus é Rei, mas o caminho
estabelecido pelo Pai passaria pela obediência, sofrimento e cruz. Satanás
oferecia a glória sem a cruz.
Essa tentação
também continua presente. Quantas vezes alguém encontra um caminho mais rápido
para alcançar aquilo que deseja, mas percebe que terá de abandonar princípios
para segui-lo? Há atalhos na profissão, nos negócios, nos relacionamentos e até
na vida religiosa. Nem toda oportunidade deve ser aceita simplesmente porque
parece vantajosa.
Jesus nos mostra
que não basta alcançar um objetivo correto; importa também o caminho pelo qual
chegamos até ele.
Na terceira
tentação, o inimigo levou Jesus ao ponto mais alto do templo e chegou a
utilizar as próprias Escrituras para sugerir que Ele Se lançasse dali. Aqui
encontramos uma advertência ainda mais séria: é possível usar um texto
bíblico de maneira errada.
Jesus recusou a
proposta porque confiança em Deus não significa colocar Deus à prova. Fé e
presunção não são a mesma coisa. A fé diz: “Vou obedecer ao Senhor e confiar
nEle.” A presunção diz: “Vou fazer aquilo que quero e depois esperar que Deus
resolva as consequências.”
Isso acontece
quando alguém age irresponsavelmente e chama sua imprudência de fé, toma uma
decisão sem buscar a vontade de Deus e depois exige que Ele a confirme, ou
ainda escolhe um versículo isolado apenas para justificar algo que já decidiu
fazer.
Por trás dessas
tentações havia ainda um ataque mais profundo. Duas vezes o inimigo começou
dizendo: “Se você é o Filho de Deus...”. Pouco antes, no
batismo de Jesus, o Pai havia declarado que Ele era Seu Filho amado. Agora
Satanás tentava colocar uma dúvida exatamente onde Deus havia colocado uma
afirmação.
Também enfrentamos
esse tipo de prova. Em momentos difíceis podem surgir perguntas como: “Se Deus
ama você, por que permitiu isso?”, “Se você pertence ao Senhor, por que está
sofrendo?” ou “Se Deus está com você, por que Ele não resolve tudo agora?” A
tentação tenta usar nossas circunstâncias para nos fazer duvidar daquilo que
Deus já declarou.
Jesus não precisava
transformar pedra em pão para provar Quem era. Sua identidade não dependia
daquela demonstração.
Então chegamos ao
último versículo: o diabo terminou aquelas tentações e afastou-se de Jesus “até
momento oportuno”.
Isso significa que
aquela vitória não encerraria definitivamente a oposição. O inimigo procuraria
outra ocasião favorável para atacar. Mais adiante, Lucas mostra Satanás agindo
em Judas, procurando atingir Pedro e aparecendo no cenário que antecede a prisão
e a crucificação de Jesus.
Essa expressão
também traz uma séria advertência para nós. Vencer uma tentação hoje não
significa que nunca mais seremos atacados naquela área. Existem momentos em que
ficamos mais vulneráveis: cansaço, solidão, frustração, medo, necessidade,
decepção e fragilidade emocional. Mas também precisamos ter cuidado nos
momentos de sucesso, porque orgulho, autossuficiência e sensação de segurança
excessiva podem abrir outras portas.
Por isso, depois de
uma vitória espiritual, não devemos baixar a guarda.
É interessante
perceber que Jesus entrou no deserto cheio do Espírito Santo, enfrentou
todas aquelas tentações e permaneceu fiel à Palavra e à vontade do Pai. O mesmo
Espírito que estava com Ele antes da prova permaneceu durante a prova.
As três tentações
podem ser resumidas de maneira muito simples. Diante da pedra, surge a
pergunta: vou satisfazer minha necessidade contrariando a vontade de Deus?
Diante dos reinos, outra: vou negociar princípios para alcançar mais
rapidamente aquilo que desejo? No alto do templo: vou confiar em Deus ou tentar
obrigá-Lo a confirmar aquilo que eu mesmo decidi?
E, por trás de
todas elas, permanece a questão da identidade: vou continuar acreditando
naquilo que Deus declarou ou permitirei que as circunstâncias determinem quem
sou diante dEle?
O inimigo procura
momentos oportunos, mas nós também conhecemos o caminho da vitória: permanecer
cheios do Espírito, firmados na Palavra e submissos à vontade de Deus.
O momento oportuno
do inimigo costuma surgir quando nossas necessidades, emoções ou circunstâncias
procuram falar mais alto que a Palavra; por isso, a vitória não está em nunca
sermos tentados, mas em permanecermos cheios do Espírito e obedientes a Deus quando
a tentação chegar.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
17/ago/26
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