A FÉ TAMBÉM PRECISA PASSAR PELA PROVA DOS NOVE?

“Examinem todas as coisas, retenham o que é bom.” 1 Tessalonicenses 5:21 (NAA).

Não sei se hoje ainda é assim, mas, no meu tempo de escola, aprendíamos que, depois de fazer uma conta, era bom conferir o resultado. Entre os recursos usados estava a conhecida “prova dos nove”. Quem é da minha geração provavelmente vai se lembrar dela. Fazíamos a operação e, depois, realizávamos aquela conferência para verificar se havia algum sinal de erro.

Mas e quando o assunto é fé? Será que também precisamos fazer uma espécie de “prova dos nove” naquilo que ouvimos, acreditamos e recebemos como vindo de Deus?

A princípio, alguém poderia pensar que examinar algo relacionado à fé demonstra falta de confiança. Afinal, a Bíblia afirma: “De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que recompensa os que o buscam.” Hebreus 11:6 (NAA).

A fé é indispensável. Entretanto, fé não significa acreditar em qualquer coisa apenas porque alguém usou o nome de Deus. A Bíblia não ensina uma fé sem discernimento. Pelo contrário, o mesmo Deus que nos chama a crer também nos manda examinar.

Paulo escreveu: “Examinem todas as coisas, retenham o que é bom.” 1 Tessalonicenses 5:21 (NAA). Isso significa que a fé cristã não precisa ter medo de perguntas, de análise ou de comparação com as Escrituras. A “prova dos nove” da fé não serve para verificar se Deus está certo. Deus não precisa ser colocado à prova. O que precisa ser examinado é aquilo que nós, seres humanos, dizemos a respeito dEle.

Isso se torna especialmente importante em nossos dias. Basta abrir o celular para encontrar pregações, vídeos, mensagens, profecias, interpretações e pessoas afirmando: “Deus me revelou”, “Deus mandou dizer” ou “O Senhor falou comigo”. Algumas dessas mensagens podem ser verdadeiras e edificantes. Outras podem nascer de uma interpretação equivocada, de uma emoção ou até de interesses pessoais. Como então saber a diferença?

A primeira pergunta não deveria ser: “Quem falou?”, mas: “O que foi dito está de acordo com a Palavra de Deus?”

A igreja de Bereia nos oferece um exemplo precioso. Quando Paulo pregou ali, aquelas pessoas receberam a mensagem com interesse, mas não abandonaram o discernimento. A Bíblia diz: “Ora, estes de Bereia eram mais nobres do que os de Tessalônica, pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim.” Atos 17:11 (NAA).

Observe algo interessante: eles ouviram Paulo, um apóstolo, e ainda assim examinaram as Escrituras. Paulo não ficou ofendido. A Bíblia, pelo contrário, elogia aquela atitude. Eles receberam a mensagem com disposição, mas conferiram se aquilo que estavam ouvindo correspondia ao que Deus havia revelado.

Esse equilíbrio é importante. Podemos errar de duas maneiras. Uma pessoa pode duvidar de tudo e nunca conseguir confiar em Deus. Outra pode acreditar em tudo e acabar sendo enganada. A fé bíblica não está em nenhum desses extremos. Ela crê em Deus e, justamente porque crê nEle, examina cuidadosamente aquilo que é apresentado em Seu Nome.

João também advertiu os cristãos: “Amados, não deem crédito a qualquer espírito, mas provem os espíritos para ver se procedem de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído mundo afora.” 1 João 4:1 (NAA).

Isso vale para uma profecia, uma pregação, um sonho, uma revelação que lhe é entregue, uma interpretação bíblica ou qualquer experiência espiritual. O fato de algo nos emocionar não significa necessariamente que venha de Deus. O fato de uma pessoa falar com convicção também não torna suas palavras verdadeiras. Até mesmo alguém sincero pode interpretar alguma coisa de maneira errada. Por isso precisamos conhecer as Escrituras.

Imagine alguém dizendo que Deus lhe revelou algo que contradiz claramente aquilo que a Bíblia ensina. Não importa quanto aquela pessoa esteja emocionada, nem quantas vezes repita que recebeu uma revelação. Deus não Se contradiz. Sua Palavra torna-se nosso ponto seguro de referência.

Isso também não significa que precisamos viver desconfiando de todos. O objetivo do discernimento não é transformar o cristão em alguém crítico de tudo e de todos, mas protegê-lo do erro e ajudá-lo a permanecer na verdade.

A fé e a razão, portanto, não precisam caminhar em direções opostas. Podemos crer profundamente e, ao mesmo tempo, perguntar, estudar, conferir e buscar entendimento. Uma fé que conhece em Quem está depositada não teme ser examinada.

Talvez a velha “prova dos nove” ainda possa nos ensinar alguma coisa. Antes de aceitar qualquer afirmação feita em nome de Deus, volte às Escrituras. Leia o contexto, ore, busque entendimento e peça ao Espírito Santo que lhe dê discernimento. Porque o problema nunca estará em conferir aquilo que ouvimos. O perigo está em acreditar sem conferir.

A verdadeira fé não teme o exame, porque aquilo que vem de Deus nunca precisa fugir da verdade; quanto mais conhecemos Sua Palavra, mais preparados estaremos para reconhecer Sua voz em meio a tantas outras vozes.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

01/out/26

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