A GLÓRIA QUE HABITOU ENTRE NÓS

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.”  João 1:14 (NAA)

Poucos, no passado, puderam contemplar a glória de Deus e continuar vivos. A glória do Senhor era santa, sem medida e majestosa. Sua presença não deixava ninguém indiferente. Quem se aproximava era profundamente transformado — ou tomado de temor.

Quando Moisés concluiu o tabernáculo no deserto, a glória do Senhor desceu sobre aquele lugar de maneira tão intensa que ninguém conseguia entrar. Nem mesmo Moisés, que falava com Deus como quem fala com um amigo, conseguia permanecer diante daquela manifestação. A nuvem cobriu a tenda do encontro, e a presença de Deus passou a habitar no meio do seu povo. Não era uma ideia abstrata — era real, visível, poderosa.

Séculos depois, Isaías teve uma visão igualmente impactante. Ele viu o Senhor assentado sobre um trono elevado, e a orla das suas vestes enchia todo o templo. Serafins voavam ao redor, proclamando com voz retumbante: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória.” (Isaías 6:3). A reação de Isaías foi de completo desespero: “Ai de mim! Estou perdido!” Diante da glória e da santidade de Deus, toda arrogância humana se desfaz. Nenhuma aparência resiste à Sua presença. Ficamos expostos, como se estivéssemos nus — profundamente conscientes da nossa miséria, fragilidade e total indignidade.

Essas experiências mostram que a glória de Deus, na história de Israel, sempre esteve associada à sua presença real, santa e transformadora. Ela não era um conceito teológico apenas, mas uma realidade viva, concreta, que inspirava reverência e quebrantamento.

E então chegamos ao mistério maravilhoso de João 1:14. Algo que muda tudo. O Verbo eterno, que estava com Deus e era Deus, se fez carne e habitou entre nós. João usa um termo com significado profundo: “tabernaculou” — ou seja, Deus armou sua tenda no meio de nós. A glória que antes era cercada por véus, escondida atrás da fumaça, revelada apenas em visões extraordinárias, agora caminhava entre os homens.

A glória se fez pessoa. Jesus Cristo é a manifestação visível da glória do Deus invisível. João não fala de uma doutrina, de uma filosofia ou de uma ideia abstrata. Ele afirma com convicção: vimos a sua glória.” Ele e os demais discípulos caminharam com Cristo, viram Seus milagres, ouviram Sua voz, tocaram Suas mãos, presenciaram Sua transfiguração. A glória, antes inalcançável, agora tinha rosto, voz e presença. E, para espanto de todos, era uma glória cheia de graça e verdade.

Mas essa glória se revelou de forma mais sublime num lugar improvável: a cruz. Enquanto o mundo via vergonha, fraqueza e derrota, o céu via glória. O madeiro, que tantos desprezaram, era na verdade o trono onde o Filho seria exaltado. Jesus não foi glorificado apesar do sofrimento — Ele foi glorificado através do sofrimento.

Três vezes Jesus se referiu à sua morte como sua glorificação: “É chegada a hora de ser glorificado o Filho do Homem.” (João 12:23). A cruz não foi o fim do plano — foi o coração dele. Foi ali que o amor do Pai, a justiça divina e a graça eterna se encontraram. O Calvário foi o portal da glória.

O reformador João Calvino, ao refletir sobre isso, escreveu que “a glória de Deus brilha deveras em todas as criaturas de cima e de baixo, mas jamais tão viva quanto na cruz” — glória essa que, segundo ele, “permanece oculta aos olhos dos ímpios.” Ou seja, a maior manifestação da glória divina não está em grandes sinais, mas na entrega do Filho por amor.

Ver a glória de Cristo, portanto, não é apenas presenciar milagres ou se emocionar com momentos sublimes. É olhar para o Calvário e reconhecer que ali, no sofrimento do Justo, está a revelação mais profunda da graça, do amor e da verdade de Deus. A glória que um dia foi inacessível agora nos convida a nos aproximar — não com medo, mas com fé e arrependimento.

A glória que antes quebrava, agora também cura. A glória que antes causava temor, agora se revela em amor. E essa presença gloriosa continua entre nós, por meio de Cristo e do seu Espírito, acessível a todos os que creem.

 “A glória de Deus que antes habitava no tabernáculo agora caminha entre nós — e seu brilho mais intenso resplandece no madeiro da cruz.”

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

06/ago/25

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