A ORAÇÃO DE ANA E
O SEGREDO DA ENTREGA
“Ela fez um voto, dizendo: Senhor dos Exércitos, se de
fato olhares para a aflição da tua serva e te lembrares de mim, e não te
esqueceres da tua serva, e lhe deres um filho homem, eu o dedicarei ao Senhor
por todos os dias da sua vida...” 1 Samuel 1:11 (NAA)
A história de Ana é uma das mais conhecidas da Bíblia, mas
também uma das mais desafiadoras. Ela sofria com a esterilidade, uma condição
que, naquele tempo, trazia dor, vergonha e até rejeição social. Muitas vezes
deve ter dobrado os joelhos pedindo um filho, mas parecia não haver resposta.
Até que, em um dia de oração no templo, ela disse algo diferente: “Senhor,
se me deres um filho, eu o darei a Ti.” E a partir dessa entrega, Deus
mudou a sua história.
O segredo não estava em repetir o pedido, nem em orar com
mais intensidade. Estava no propósito. Quando Ana incluiu o Senhor em sua
oração e decidiu entregar ao Pai aquilo que mais desejava, a resposta veio. É
como se o céu tivesse se movido no mesmo instante. Essa verdade continua atual:
a oração mais poderosa não é a que busca apenas atender nossas necessidades,
mas a que se alinha com o projeto de Deus.
Nós, como pais, podemos aprender muito com Ana. Normalmente
oramos pedindo proteção, saúde, sucesso e estabilidade para os filhos. Não há
nada errado nisso, mas existe algo maior. Quando incluímos os filhos no projeto
de Deus, estamos dizendo que o propósito deles vai além do conforto ou das
conquistas pessoais. Orar assim é reconhecer que o mais importante não é o que
eles farão para nós, mas o quanto suas vidas refletirão a glória do Senhor.
Ana pediu um filho varão porque, naquele tempo, apenas os
homens podiam servir no templo. Hoje, essa limitação não existe. Filhos e
filhas podem servir igualmente no Reino de Deus, seja no louvor, na pregação,
no ensino, nas missões ou em qualquer área da Obra. Mas o princípio é o mesmo: consagrar
os filhos ao Senhor é reconhecer que eles são d’Ele e que o nosso papel é
guiá-los nesse caminho.
A Bíblia nos lembra: “Um menino nos nasceu, um filho
se nos deu.” Isaías 9:6 (NAA). Os filhos são dádivas confiadas
às nossas mãos. Jó entendeu essa verdade mesmo em meio à dor: “O Senhor o
deu, o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor.” Jó 1:21 (NAA). Ana, no entanto, fez algo
extraordinário: recebeu de Deus e devolveu a Deus. Não por obrigação, mas por
amor e gratidão.
E o resultado foi extraordinário. Samuel, o filho que Ana
consagrou ao Senhor, não foi apenas um profeta, mas também sacerdote e juiz em
Israel. Ele ungiu reis, conduziu o povo e deixou marcas profundas em sua
geração e nas que vieram depois. O pranto de uma mulher aflita tornou-se fonte
de bênção para toda a nação. Essa história nos mostra que, quando entregamos
nossos filhos a Deus, eles deixam de ser apenas parte da nossa vida familiar
para se tornarem parte do grande projeto da salvação.
Há uma frase do saudoso pastor Dodd que resume essa verdade:
“Crie o seu filho só para você, e você o terá por um tempo; crie-o para o
Senhor, e você o terá por toda a vida.” É uma frase dura, mas cheia de
sentido. Muitos pais sonham apenas com segurança, bons empregos e realizações
humanas para os filhos. Mas quando eles são criados para o Senhor, a influência
deles atravessa gerações.
Essa entrega não é fácil. Para Ana, deixar Samuel no templo
ainda pequeno deve ter sido doloroso. Para nós também, muitas vezes é difícil
abrir mão de planos pessoais para aceitar os planos de Deus. Quantos pais têm
dificuldade em permitir que os filhos sigam uma vocação ministerial, uma
chamada missionária ou qualquer caminho que exija renúncia? O medo da
distância, das dificuldades e até da incompreensão nos prende. Mas a Palavra
nos lembra: os filhos nunca foram nossos em essência. Eles pertencem ao
Senhor, e nós apenas os administramos por um tempo.
Quando os entregamos a Deus, não os perdemos. Pelo
contrário, ganhamos a alegria de vê-los frutificar para o Reino. Ana não perdeu
Samuel. Ela ganhou a honra de ser lembrada até hoje como a mãe que dedicou seu
filho ao Senhor. Da mesma forma, pais que entregam os filhos para a Obra de
Deus descobrem que a recompensa é eterna.
Podemos aplicar esse ensino de forma prática em nossos dias.
Se você é pai ou mãe, ore com propósito. Não peça apenas saúde física, mas
também saúde espiritual para que seus filhos sirvam ao Senhor. Não peça apenas
sucesso profissional, mas que suas carreiras sejam instrumentos para glorificar
a Deus. Desde cedo, ensine-os a amar a Palavra, a igreja e a vida de oração.
Acima de tudo, seja exemplo de consagração, mostrando que viver para Deus não é
peso, mas o maior privilégio que alguém pode ter.
Também precisamos estar dispostos a apoiar nossos filhos
caso Deus os chame para desafios maiores. Isso pode significar vê-los longe de
casa, em outra cidade ou até em outro país, dedicados à missão. Mas o mesmo
Deus que chamou é o que guarda, sustenta e recompensa.
Ana nos mostra que a oração de entrega exige lágrimas, mas
produz frutos que permanecem. E esse é o grande segredo: quando incluímos a Obra
do Senhor nos nossos pedidos, Ele transforma nossos sonhos em projetos eternos.
O filho que pedimos como bênção para nós se torna um instrumento de bênção para
muitos.
Assim como Ana, sejamos capazes de dizer: “Senhor, eu
Te devolvo aquilo que Tu me deste. Recebe, Senhor, a vida do meu filho como
instrumento da Tua glória.”
Criar os filhos apenas para nós é vê-los por um tempo;
criá-los para o Senhor é tê-los por toda a eternidade.
Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça
e paz.
Pr. Décio Fonseca
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