DEUS SE REVELA NO IMPROVÁVEL

“Ele cresceu diante dele como um renovo, como raiz de uma terra seca; não tinha aparência nem formosura. Olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse.” Isaías 53:2 (NAA)

Muitos, no tempo de Jesus, não reconheceram nEle o Filho de Deus porque aguardavam um Messias político, que viesse com força militar, derrubasse Roma e restaurasse o trono de Davi com glória terrena. O problema estava na expectativa equivocada: esperavam um rei com espada, mas receberam um servo com toalha e bacia.

Isaías já havia revelado: Ele viria como “raiz de uma terra seca.” (Isaías 53:2), sem aparência que atraísse, sem forma que agradasse. Jesus cresceu em Nazaré, cidade desprezada — “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” — (João 1:46), trabalhou como carpinteiro, conviveu com os simples, e não se encaixava no ideal humano de grandeza.

O mesmo acontece hoje. Muitos ainda buscam um Cristo moldado aos seus desejos: o Cristo que dá prosperidade imediata, que resolve todos os problemas sem dor, que exibe poder aos olhos humanos. Mas o verdadeiro Cristo continua sendo escândalo para uns e loucura para outros (1 Coríntios 1:23). Ele não veio para se adequar às expectativas humanas, mas para revelar o coração de Deus: humilde, servo, sofredor e redentor.

O problema, tanto naquela época como agora, não é a falta de sinais ou de evidências, mas a dureza de coração e a lente errada com que se olha para Jesus. Quem espera ouro não reconhece valor na cruz. Quem busca apenas glória não percebe beleza em espinhos.

Esse Cristo, que viria para salvar o mundo, escolheu nascer de maneira simples, em uma manjedoura, cercado de animais. Muitos aguardavam um rei imponente, com coroa de ouro e poder militar. Mas Ele veio carpinteiro, coroado de espinhos, exposto à humilhação. Procuravam beleza, força e glória humana; mas o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (João 1:29), se revelou em fraqueza e fragilidade.

Deus age na contramão da glória visível. Jesus veio para curar, mas não da forma que o povo desejava. Veio para salvar, mas não com um exército ou um trono terreno. Veio para vencer, e o fez através da morte. Essa verdade é dura para o coração humano, porque nos confronta com a simplicidade do Evangelho. Quando esquecemos isso, corremos o risco de pregar um Cristo moldado ao gosto humano — belo, popular, conveniente — mas distante da cruz.

Nem tudo que parece seco está morto. Nem toda raiz invisível é inútil. O que os homens rejeitam, Deus transforma em instrumento de vida. Aquilo que o mundo chama de fracasso, o céu chama de vitória eterna. O cenário de Isaías 53 é exatamente esse: uma terra árida, sem expectativa de vida, onde Deus plantou esperança. No meio do nada, nasceu o Salvador.

Essa raiz cresceu em Nazaré, uma cidade pequena e sem prestígio. Foi por isso que Natanael perguntou: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” João 1:46 (NAA). Para os arrogantes, não havia beleza alguma em Jesus. Mas para os quebrantados e contritos de coração, Ele se revelou como a verdadeira glória de Deus. Sua beleza não estava em aparência, mas em amor e entrega.

Nos dias de hoje, ainda caímos na armadilha de esperar um Cristo que sempre traga conforto, prosperidade e uma vida sem dificuldades. O chamado moderno de muitos púlpitos é para um Evangelho “atraente”, que promete bênçãos sem sacrifício. Mas Isaías 53 nos lembra que o verdadeiro Messias não veio para agradar aos olhos humanos, e sim para redimir o coração do homem pelo caminho da cruz.

Quem lê Isaías 53 sem sentir os olhos marejarem talvez ainda não tenha compreendido a profundidade do Evangelho. Ali está revelado o Cordeiro sofredor, que não tinha aparência alguma que nos atraísse, mas que carregou sobre si as nossas dores (Isaías 53:4).

A raiz em terra seca também é símbolo de milagre silencioso. Onde ninguém via possibilidade, Deus estava agindo. O povo esperava frutos vistosos, mas o Pai estava cultivando, de forma oculta, a maior obra de todas: a redenção. Assim também acontece em nossa vida. Muitas vezes, esperamos respostas rápidas, visíveis, grandiosas. Mas Deus planta sua graça no subterrâneo da alma, onde ninguém vê, até que no tempo certo o fruto apareça.

Pense em quantas vezes você olhou para uma situação e disse: “Aqui não tem mais jeito.” Pode ter sido um casamento desgastado, um filho distante, uma vida financeira arruinada ou um diagnóstico difícil. Tudo parecia terra seca. Mas é justamente nesses lugares que Deus gosta de agir. Foi no deserto que Ele fez maná cair do céu. Foi na beira do Mar Vermelho que abriu caminho para Israel. Foi em Nazaré, um lugar sem glória, que cresceu o Salvador.

O Evangelho nos chama a mudar a forma de olhar. Em vez de buscar apenas a aparência da vitória, precisamos enxergar a raiz escondida, a obra que Deus realiza em silêncio. Muitas vezes, é no sofrimento que Ele planta sementes de fé. É na escassez que aprendemos a confiar. É na aparente fraqueza que experimentamos o poder do Senhor.

Cristo, a raiz em terra seca, nos ensina que o que é rejeitado pelos homens pode ser o que tem mais valor para Deus. O que parece frágil e sem beleza pode carregar a maior força do universo: o amor que se doa.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

09/set/25

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