UM LONGO SILÊNCIO

 “Mas o Senhor está em seu santo templo; diante dele fique em silêncio toda a terra".   Habacuque 2:20 (NVI)

Milhares de vozes se levantam em todo o mundo para afirmar que Deus não existe. Nietzsche, em sua crítica filosófica, ridicularizou a fé cristã e a própria figura de Deus, sobretudo ao atacar a ideia do “Deus da cruz” como símbolo de fraqueza. Ainda hoje muitos se perguntam: “Em um mundo marcado pela dor, como é possível adorar a um Deus que parece imune a ela?”

O texto que compartilho agora não é de minha autoria, mas um trecho de uma peça citada por John Stott em seu livro “A Cruz de Cristo” — leitura que, com alegria, recomendo.

De forma vívida, Stott apresenta a cena de um julgamento final, onde bilhões de pessoas, vindas de diferentes lugares e histórias, se reúnem para questionar se Deus pode realmente julgar, afinal, todos sofreram tanto enquanto Ele vivia feliz no céu, um lugar de doçura e luz, sem choro, medo, fome ou ódio. O que sabia Deus acerca de tudo o que o homem fora forçado a suportar neste mundo? Pois levava uma vida protegida. Ali, naquele tribunal imaginário, eles promovem o julgamento de Deus, tentando fazê-Lo compreender a profundidade do sofrimento humano.

Vamos à peça, que é profunda e perturbadora, mas também iluminadora. Ali, diante do tribunal imaginário, cada dor, cada lágrima, cada sofrimento humano se faz ouvir, confrontando a própria ideia de justiça e amor divinos. É um retrato que nos faz refletir: como compreender Deus sem antes contemplar a imensidão do Seu próprio sofrimento em meio ao nosso?

“No fim dos tempos, bilhões de pessoas estavam espalhadas por uma vasta planície diante do trono de Deus.

A maioria fugia da luz intensa que se lhes apresentava à frente. Mas alguns grupos discutiam animadamente — não com vergonha abjeta, mas com desafio e beligerância.

“Pode Deus nos julgar? Como Ele pode compreender o sofrimento?” perguntou uma jovem de cabelos negros, atrevida. Ela rasgou a manga da blusa, revelando um número tatuado, lembrança de um acampamento de concentração nazista. “Suportamos terror… espancamentos… tortura… morte!”

Em outro grupo, um jovem negro abaixou o colarinho. “E o que dizer disso?” exigiu ele, exibindo uma horrível queimadura de corda. “Lincharam-me… apenas por eu ser negro!”

Entre a multidão, uma colegial grávida, de olhar carregado de mágoa, murmurou: “Por que devo sofrer? Não fiz nada de errado.”

Por toda a planície havia centenas de grupos como esses. Cada um deles tinha uma reclamação contra Deus por causa do mal e do sofrimento que ele havia permitido no seu mundo. Quão feliz era Deus por viver no céu onde tudo era doçura e luz, onde não havia choro nem medo, nem fome nem ódio. O que sabia Deus acerca de tudo o que o homem fora forçado a suportar neste mundo? Pois Deus leva uma vida muito protegida, diziam.

De modo que cada um desses grupos enviou o seu líder, escolhido por ter sido o que mais sofreu. Um judeu, um negro, uma pessoa de Hiroshima, um artrítico horrivelmente deformado, uma criança talidomida. No centro da planície tomaram conselho uns com os outros. Finalmente estavam prontos para apresentar o seu caso.

Antes que pudesse qualificar-se para ser juiz deles, Deus deve suportar o que suportaram. A decisão deles foi que Deus devia ser sentenciado a viver na terra — como homem!

“Que ele nasça judeu. Que haja dúvida acerca da legitimidade de seu nascimento. Dê-se-lhe um trabalho tão difícil que, ao tentar realizá-lo, até mesmo a sua família pensará que ele está louco. Que ele seja traído por seus amigos mais íntimos. Que ele enfrente acusações falsas, seja julgado por um júri preconceituoso, e condenado por um juiz covarde. Que ele seja torturado.

“Finalmente, que ele conheça o terrível sentimento de estar sozinho. Então que ele morra. Que ele morra de tal forma que não haja dúvida de que morreu. Que haja uma grande multidão de testemunhas que o comprove.”

E quando o último acabou de pronunciar a sentença, houve um longo silêncio. Ninguém proferiu palavras. Ninguém se moveu. Pois, de súbito, todos sabiam que Deus já havia cumprido a sua sentença.”

Lindo esse texto que nos faz refletir: como não olhar para aquela figura solitária, retorcida e torturada na cruz — com cravos atravessando mãos e pés, costas laceradas, membros deslocados, a fronte sangrando por causa dos espinhos, a boca intoleravelmente sedenta, lançada nas trevas do abandono de Deus — e não se emocionar profundamente? É esse o Deus para mim! O Deus que abriu mão de sua imunidade à dor e entrou em nosso minúsculo mundo de carne e sangue, lágrimas e morte. Ele sofreu por nós. Ele sofreu por mim e por você, por amor.

Diante de Seu sofrimento, como ousar considerar os nossos próprios como maiores ou mais pesados? Embora o sofrimento humano na terra possa ainda levantar perguntas, sobre esse sofrimento podemos gravar uma marca ainda mais profunda — a cruz — que simboliza o sofrimento divino. Como bem diz Forsyth:  “A cruz de Cristo é a única autojustificação de Deus em um mundo como o nosso.”

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

14/set/25

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