DERRUBANDO OS LUGARES ALTOS

“Os lugares altos, porém, não foram tirados; contudo, o coração de Asa foi totalmente fiel ao Senhor durante toda a sua vida.”  1 Reis 15:14 (NAA)

Asa reinou sobre Judá por cerca de quarenta e um anos. Foi lembrado como um líder reformador, alguém que procurou restaurar o culto verdadeiro em meio a uma geração marcada pela decadência espiritual. Ele promoveu mudanças importantes: expulsou os prostitutos cultuais (1 Reis 15:12), removeu os ídolos, destruiu imagens pagãs, destituiu sua avó Maaca por causa da idolatria (1 Reis 15:13) e renovou o altar do Senhor (2 Crônicas 15:8).

Todavia, todo o vigor espiritual demonstrado pelo rei Asa revela um paradoxo interessante: um homem de coração fiel a Deus que, mesmo assim, não conseguiu eliminar completamente as práticas idólatras do seu povo.

Esse texto chama atenção porque apresenta um rei dedicado, alguém que amava o Senhor, mas deixou “lugares altos” de pé — locais de adoração que, em tempos antigos, podiam até ser usados para cultuar o próprio Deus, mas que, com o passar dos anos, se misturaram com práticas pagãs. Esses santuários acabaram se tornando símbolos de um culto sincrético, uma mistura entre o verdadeiro e o falso, entre o espiritual e o cultural. Asa buscava o Senhor com sinceridade, porém não conseguiu purificar completamente o ambiente de adoração do seu povo. Essa realidade nos leva a refletir sobre o que ela representa para nós hoje.

Aqui está o contraste: um coração fiel diante de práticas imperfeitas. De um lado, lemos: “Os lugares altos não foram tirados” — uma falha prática. De outro, “seu coração foi fiel ao Senhor” — uma fidelidade interior. Essas duas afirmações mostram que Deus avalia primeiro o coração, antes da aparência. Asa amava o Senhor, mas sua obediência não era completa. Seu zelo foi verdadeiro, embora limitado.

O texto não apresenta um exemplo a ser seguido cegamente, mas traz uma lição importante: Deus reconhece a fidelidade mesmo em meio à imperfeição humana. É como se o Senhor dissesse: “Asa não fez tudo certo, mas Me buscou com sinceridade.”

Essa tensão entre coração e prática é muito atual. Assim como Asa, muitos crentes hoje servem ao Senhor com sinceridade, mas ainda mantêm “lugares altos” na vida — áreas que não foram totalmente entregues a Deus. São hábitos, atitudes, costumes ou valores culturais que resistem à transformação do evangelho.

Esses “lugares altos” modernos podem assumir muitas formas: tradições colocadas acima da Palavra, crenças populares misturadas à fé, dependência emocional de experiências em vez de obediência à Escritura, ou simplesmente uma acomodação espiritual.
São os altares que continuamos permitindo que fiquem de pé. E o perigo não está em reconhecer que eles existem, mas em aceitar que permaneçam ali.

Asa nos mostra que é possível ter um coração sincero e, ainda assim, carregar falhas não resolvidas. O problema surge quando paramos de lutar contra essas falhas. Nos primeiros anos de reinado, Asa foi exemplo de coragem e confiança, mas no final de sua vida se afastou dessa dependência de Deus. Passou a confiar em alianças humanas e perdeu a sensibilidade espiritual (2 Crônicas 16:7–9).

A trajetória de Asa nos ensina que o verdadeiro perigo não é começar com fraquezas, e sim terminar acomodado. O rei que começou derrubando ídolos terminou o reinado sem disposição para remover os últimos altares. O texto diz que, no fim, sua vida foi marcada por doenças e distanciamento espiritual. Ele se afastou da comunhão com o Deus que um dia buscou com tanto fervor.

Por isso, Asa não deve ser visto como modelo de fé, mas como alerta. Seu coração era fiel, porém suas mãos deixaram altares em pé. Deus não exige perfeição imediata, mas espera rendição constante. O cristão verdadeiro é aquele que, mesmo consciente de suas falhas, não se conforma com elas.

Em nossos dias, os “lugares altos” podem representar qualquer coisa que tome o lugar de Deus no coração: orgulho, materialismo, vaidade, ressentimentos, autossuficiência, ou até a busca por reconhecimento religioso. O Senhor continua chamando o Seu povo à pureza do culto e à sinceridade do coração. Ele quer ser o centro, não apenas parte.

Ter o coração fiel não significa viver sem erros, e sim caminhar em arrependimento contínuo. A diferença entre Asa e um servo fiel hoje está na disposição de deixar o Espírito Santo derrubar o que ainda está de pé. O crente maduro não ignora seus “lugares altos”; ele os reconhece e os entrega a Deus para que sejam transformados.

A fidelidade verdadeira é progressiva. É um processo de limpeza interior que dura toda a vida. Deus se alegra quando vê em nós o desejo de mudar, mesmo que ainda não tenhamos vencido tudo. Ele sabe que a obediência total é fruto da graça, e não do esforço humano.

Assim como Asa, cada um de nós tem a chance de escolher: manter os lugares altos em pé ou permitir que o Senhor derrube o que impede a plenitude da adoração.

A fidelidade não é a ausência de falhas, mas o desejo constante de remover o que ainda impede o coração de pertencer totalmente a Deus.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

08/nov/25

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