COM QUE MEDIDA ESTAMOS MEDINDO AS PESSOAS?
“Também
derrotou os moabitas. Fez com que se deitassem no chão e os mediu com uma
corda: os que ficaram dentro de duas medidas foram mortos, e os que ficaram
dentro da terceira medida foram deixados com vida. Assim, os moabitas se
tornaram servos de Davi e lhe pagavam tributo.” 2 Samuel 8:2 (NAA).
Esta é uma passagem
forte do Antigo Testamento. Davi havia derrotado os moabitas e, depois da
batalha, fez os prisioneiros deitarem no chão e serem medidos com uma corda. O
texto indica que duas partes foram destinadas à morte e uma terceira foi
preservada. Estamos diante de uma prática militar daquele período, não de uma
orientação dada à Igreja para ser reproduzida em nossos dias.
Mesmo assim, aquela
imagem do cordel nas mãos de Davi nos leva a pensar em algo muito atual: nós
também gostamos de medir pessoas.
Medimos
inteligência, aparência, patrimônio, formação, posição social, sucesso e
influência. Às vezes fazemos isso até dentro da igreja. Medimos alguém pelo
cargo que ocupa, pela facilidade de falar, pelo tempo de conversão, pelo
conhecimento bíblico, pelo ministério ou serviço que exerce ou ainda pelo
reconhecimento que recebe.
E também usamos
outras réguas, ainda mais perigosas. Medimos pessoas pelo passado, pelos erros
que cometeram, pelas escolhas ruins que fizeram ou pela impressão que formamos
a respeito delas. O problema começa quando pensamos que nossa medida é também a
medida de Deus.
A história dos
moabitas nos lembra, primeiro, que as escolhas têm consequências. Eles haviam
sido derrotados e estavam agora diante do vencedor. Aquela cena envolvia uma
decisão entre vida e morte. Sem transformar o episódio em uma alegoria da
salvação, podemos aprender que nossa vida também é feita de escolhas e que não
devemos tratar com superficialidade nossa posição diante de Deus.
Mas existe uma
diferença fundamental: naquela batalha, Davi segurava o cordel. Na vida
espiritual, a medida final não está em nossas mãos.
Jesus fez uma
advertência muito séria: “Pois com o critério com que vocês julgarem
vocês serão julgados; e com a medida com que vocês tiverem medido vocês também
serão medidos.” Mateus 7:2 (NAA). Talvez hoje não carreguemos uma
corda, mas podemos carregar uma régua invisível.
Olhamos para alguém
e pensamos: “Esse não tem mais jeito.” Vemos uma pessoa que caiu muitas vezes e
concluímos: “Ela nunca vai mudar.” Conhecemos seu passado e acreditamos que já
sabemos como terminará sua história. Mas quem nos entregou essa régua?
A Igreja não
recebeu de Cristo uma medida para determinar quem merece graça ou quem ainda
pode ser transformado. Recebeu o Evangelho para anunciar arrependimento, perdão
e salvação.
Isso não significa
que o cristão não possa discernir o certo e o errado. Jesus disse: “Não
julguem segundo a aparência, mas julguem pela reta justiça.” João 7:24
(NAA). Portanto, discernimento é necessário. Podemos reconhecer que determinada
atitude é errada, que um comportamento precisa ser corrigido ou que algo não
está de acordo com a Palavra de Deus. O que não podemos fazer é transformar
esse discernimento em arrogância e assumir o lugar que pertence a Deus.
Jesus aprofundou
ainda mais essa questão: “Por que você vê o cisco no olho do seu irmão,
mas não repara na trave que está no seu próprio?” Mateus 7:3 (NAA). É
muito mais fácil perceber o defeito do outro do que enxergar o nosso.
Observamos a impaciência de alguém e esquecemos nossa própria intolerância.
Criticamos o orgulho do irmão e não percebemos nossa vaidade. Apontamos sua
queda e escondemos nossas fraquezas. Por isso Jesus ensina: “Tire
primeiro a trave do seu olho e então você verá claramente para tirar o cisco do
olho do seu irmão.” Mateus 7:5 (NAA).
Ele não diz que
devemos fingir que o cisco não existe. Ensina que, antes de medir o outro,
precisamos permitir que Deus nos examine.
Samuel aprendeu algo semelhante quando foi escolher o futuro rei de Israel. Ele se impressionou com aquilo que seus olhos conseguiam enxergar, mas Deus lhe disse: “Porque o Senhor não vê como o ser humano vê. O ser humano vê o exterior, porém o Senhor vê o coração.” 1 Samuel 16:7 (NAA). Nós vemos apenas uma parte.
Vemos o erro, mas
não conhecemos toda a luta. Vemos a queda, mas não sabemos quantas vezes aquela
pessoa tentou permanecer de pé. Vemos o presente, mas não conseguimos enxergar
aquilo que a graça de Deus ainda poderá produzir em sua vida. Há medidas que
pertencem aos homens e há medidas que pertencem a Deus. O perigo começa quando
tomamos em nossas mãos uma régua que nunca nos foi entregue.
Podemos medir
resultados, distâncias e muitas coisas desta vida. Podemos até avaliar atitudes
à luz da Palavra. Mas somente Deus conhece completamente o coração.
Por isso, antes de
perguntarmos quanto o outro mede diante de nossos olhos, talvez devêssemos
perguntar: com que medida eu estou medindo meu irmão?
Podemos enxergar a
aparência, os erros e até o passado de alguém, mas somente Deus conhece
completamente o coração; por isso, antes de tomarmos a régua para medir o
próximo, precisamos lembrar que nós também vivemos todos os dias debaixo da
graça e da misericórdia dEle.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
05/out/26
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