O DEUS QUE NÃO CABE NA CRIAÇÃO, MAS CABE NO CORAÇÃO
“No
princípio, Deus criou os céus e a terra.” Gênesis 1:1 (NAA).
Antes de existir
aquilo que chamamos de universo, Deus já é Deus. Ele não surge dentro da
criação. Ele é Aquele de Quem toda a criação depende. Isso estabelece uma
diferença fundamental entre Criador e criatura.
Muito se tem
discutido sobre esse tema. Filósofos, teólogos e até mesmo ateus têm, ao longo
da história, confrontado ideias e argumentos em torno da existência ou da
inexistência de um Deus Criador.
O que entendo de
forma determinante é que Deus não faz parte daquilo que Ele criou. Tempo,
espaço, matéria e energia pertencem à realidade criada, mas Deus não é
simplesmente mais um ser dentro do universo, ainda que fosse o maior de todos.
Ele é o Criador e, portanto, transcende toda a criação. Ao mesmo tempo, está
presente em toda parte, sustenta todas as coisas e age em Sua criação sem Se
confundir com ela. Por isso, não devemos imaginar Deus como alguém localizado
em algum ponto distante do espaço, como se apenas morasse muito longe de nós.
A Bíblia diz: “Antes
que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a
eternidade, tu és Deus.” Salmos 90:2 (NAA).
Aquilo que para nós
é limite não é limite para Deus. Nós vivemos sujeitos ao tempo. Não conseguimos
voltar ao ontem nem entrar no amanhã; experimentamos a vida momento após
momento. Também somos limitados pelo espaço: para estarmos em um lugar,
precisamos deixar outro e não podemos estar, ao mesmo tempo, em dois lugares
distintos. Deus, porém, não está sujeito a essas limitações da mesma maneira
que nós. Ele não é uma criatura presa ao tempo e ao espaço, mas o Criador de
ambos.
Isso ajuda a
entender por que nossa visão é tão pequena diante da dEle. Nós vemos apenas um
capítulo; Deus conhece a história inteira. Nós enxergamos o momento presente;
Ele conhece o começo, o meio e o fim. Aquilo que para mim ainda é amanhã já
está completamente diante dos olhos de Deus.
Uma das grandes
lutas do ser humano é tentar alcançar algo que nunca lhe foi exigido:
compreender Deus completamente para então confiar nEle.
Nossa mente é
limitada, enquanto Deus é infinito. Podemos conhecê-Lo verdadeiramente por meio
daquilo que Ele revelou de Si mesmo, mas jamais esgotaremos Quem Ele é.
A fé não nasce de
compreender tudo a respeito de Deus, mas de confiar nEle mesmo quando nossa
compreensão chega ao limite. E creio que nem mesmo na eternidade deixaremos de
ser criaturas diante do Criador. Conheceremos muito mais, veremos com uma
clareza que hoje não possuímos e muitos mistérios serão esclarecidos, mas Deus
continuará sendo infinito e inesgotável. Mesmo depois de toda a eternidade,
ainda haverá em Deus profundidades que jamais poderemos abarcar completamente,
porque o finito nunca poderá compreender em sua totalidade Aquele que é
infinito.
Existe aqui há uma
consequência importante. Se Deus fosse completamente compreensível para nossa
mente limitada, talvez estivéssemos lidando apenas com uma ideia criada por
nós. Isaías registra: “Porque os meus pensamentos não são os pensamentos
de vocês, e os caminhos de vocês não são os meus caminhos, diz o Senhor.”
Isaías 55:8 (NAA).
Isso não significa
abandonar a razão. Significa reconhecer seus limites. Podemos pensar, estudar,
investigar e procurar compreender. Mas chega um momento em que precisamos
reconhecer que a criatura nunca poderá abarcar completamente o Criador.
Agora, o
extraordinário, e até mesmo incompreensível para nós, é que o Deus
transcendente, que está acima de toda a criação e não depende dela para
existir, escolheu Se aproximar de mim e de você.
Aquele que não pode
ser contido pelo universo entrou em nossa história, revelou-Se, falou conosco
e, em Jesus Cristo, veio ao nosso encontro de forma pessoal. João escreve: “E
o Verbo se fez carne e habitou entre nós.” João 1:14 (NAA).
Esse é o
extraordinário do Evangelho. O Criador não permaneceu distante de Sua criação.
Em Jesus, Ele entrou em nossa realidade humana.
Aquele que criou o
tempo entrou no tempo. Aquele que criou o espaço caminhou pelas estradas da
Galileia. Aquele por meio de Quem todas as coisas foram criadas assumiu nossa
natureza humana e habitou entre nós. Daí percebemos a existência de uma ponte
poderosa entre Gênesis 1:1 e João 1:14. E isso também traz uma aplicação
profundamente prática: se Deus é maior do que a criação, nossos problemas nunca
podem ser maiores do que Ele.
Nós medimos nossas
dificuldades pelo tamanho dos nossos recursos. Deus não. Dizemos: “Não há
tempo.” Deus não está limitado pelo nosso relógio. Dizemos: “Não existe saída.”
Deus não está limitado pelo espaço que conseguimos enxergar. Dizemos: “Não há
recursos.” Deus não depende dos recursos materiais que possuímos.
Isso não significa
que Ele fará sempre aquilo que desejamos, da maneira ou no momento que
esperamos. Significa, porém, que nenhuma circunstância criada pode limitar o
Criador.
O primeiro
versículo da Bíblia não procura explicar Deus a partir do universo; ele explica
o universo a partir de Deus. Antes que existisse qualquer realidade capaz de
limitar a criatura, o Criador já existia. Tudo o que existe teve nEle sua
origem, depende dEle para continuar existindo e é sustentado por Seu poder.
Tempo, espaço e
matéria estabelecem limites para a nossa existência, mas não para Deus. Aquele
que criou tudo aquilo que nos condiciona permanece acima de toda a criação e
está presente em toda parte. E o mais extraordinário é que esse Deus, tão
grandioso e infinito, escolheu Se aproximar de nós, entrar em nossa história e
continua chamando cada pessoa para um relacionamento com Ele. O Deus que não
cabe na criação deseja, ainda assim, habitar em nosso coração.
Que Deus, nosso
Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.
Pr. Décio Fonseca
12/out/26
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