O PERIGO DE ALIMENTAR A OFENSA

“Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.” Romanos 12:21 (NAA).

Há uma frase atribuída ao filósofo Friedrich Nietzsche que diz: “Aquele que luta com monstros deve ter cuidado para não se tornar um monstro.” Em seguida, ele acrescenta a conhecida imagem de alguém que olha durante muito tempo para um abismo e acaba sendo, de certa maneira, alcançado por aquilo para o qual olha.

Sem transformar uma reflexão filosófica em doutrina bíblica, existe nessa ideia uma advertência que encontra eco nas Escrituras: precisamos tomar cuidado para que a luta contra o mal não faça o mal nascer dentro de nós. É possível começar uma luta tendo razão e terminá-la com o coração errado.

Alguém nos ofende. No início queremos apenas justiça. Depois começamos a alimentar pensamentos de vingança. Repetimos a história muitas vezes, imaginamos respostas que gostaríamos de dar, desejamos que a pessoa sofra e, quando percebemos, aquilo que começou como uma reação diante de uma injustiça transformou-se em amargura.

A outra pessoa pecou contra nós, mas agora o pecado dela está produzindo alguma coisa dentro de nós. Por isso Paulo não diz simplesmente que devemos enfrentar o mal. Ele escreve: “Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.” Romanos 12:21 (NAA).

Existe uma maneira de aparentemente vencer uma discussão e, ao mesmo tempo, ser vencido pelo mal. Podemos provar que estamos certos e perder a mansidão; defender a verdade e perder o amor; combater uma injustiça e nos tornar cruéis; denunciar o pecado e começar a tratar o pecador com desprezo e podemos sofrer uma traição e permitir que a desconfiança passe a governar todos os nossos relacionamentos.

É por isso que a batalha cristã não acontece somente do lado de fora. Uma das batalhas mais importantes acontece dentro de nós – em nossa mente.

Quando alguém nos machuca, nossa primeira preocupação normalmente é com aquilo que a pessoa fez. Deus, porém, também está interessado no que aquela experiência está fazendo conosco.

Talvez alguém tenha mentido a nosso respeito. O problema é real. Mas existe outra pergunta: essa mentira está fazendo nascer ódio em meu coração? Talvez alguém tenha sido injusto. A injustiça precisa ser tratada. Mas preciso perguntar: estou me tornando uma pessoa amarga por causa disso?

Talvez estejamos há anos combatendo determinado problema dentro da família, da igreja ou do trabalho. A causa pode até ser legítima. Entretanto, precisamos observar se a luta não passou a ocupar tanto espaço que já não conseguimos conversar sobre outra coisa, pensar em outra coisa ou enxergar aquela pessoa de outra maneira.

Há pessoas que já não possuem apenas um inimigo. O inimigo passou a morar dentro dos pensamentos delas. A pessoa acorda pensando nele, passa o dia lembrando do que aconteceu e dorme imaginando o que deveria ter respondido. Nesse momento, quem realmente está vencendo?

Jesus nos apresenta outro caminho. Ele nunca chamou o mal de bem. Nunca tratou o pecado como algo sem importância. Enfrentou a hipocrisia, denunciou a injustiça e falou a verdade com absoluta clareza. Entretanto, o pecado dos outros nunca conseguiu transformar Jesus naquilo que Ele combatia.

Quando foi insultado, não Se tornou um insultador. Quando sofreu injustiça, não Se tornou injusto. Quando foi traído, não Se tornou traidor. Quando encontrou ódio, não permitiu que o ódio definisse Seu coração.

Esse é também o nosso chamado.

A questão não é abandonar todas as lutas. Existem momentos em que precisamos defender a verdade, proteger nossa família, estabelecer limites, denunciar injustiças e dizer claramente que determinadas coisas estão erradas. Mas precisamos fazer tudo isso sem entregar nosso coração ao mesmo mal que estamos combatendo.

Talvez por isso uma das melhores respostas bíblicas para a imagem de alguém olhando continuamente para o “abismo” seja esta: o cristão precisa escolher cuidadosamente para onde mantém os olhos.

Quando passamos tempo demais olhando para a ofensa, ela cresce. Quando olhamos continuamente para quem nos feriu, a ferida começa a ocupar todo o horizonte. Mas quando voltamos nossos olhos para Cristo, começamos novamente a lembrar quem somos e, principalmente, quem Ele deseja que nos tornemos.

Não permita que a crueldade de alguém ensine você a ser cruel. Não permita que a mentira de alguém transforme você em mentiroso. Não permita que a amargura de alguém plante amargura em você. Não permita que o ódio recebido determine o amor que você será capaz de oferecer. Porque existe uma vitória maior do que derrotar aquele que nos feriu: é atravessar a luta sem permitir que ela destrua aquilo que Cristo está formando dentro de nós.

Não basta perguntar se estamos vencendo a batalha; precisamos perguntar no que estamos nos tornando enquanto lutamos. A maior vitória sobre o mal acontece quando ele nos atinge por fora, mas não consegue encontrar morada dentro do nosso coração.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

05/set/26

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