ENTRE A GOTA E O OCEANO

“Mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.” 1 Coríntios 2:9 (NAA)

Imagine-se em um barco no meio do oceano. De repente, você se inclina, mergulha a mão em forma de concha e a enche com um pouco daquela água. Pouco a pouco, começa a perceber a água escorrendo por entre os dedos, até que nenhuma gota permaneça em sua mão. Então, ao levantar os olhos, você contempla a vastidão do mar diante de si, águas sem fim, que se perdem no horizonte.

Essa cena ilustra algo muito maior. A pequena quantidade de água que escapa pelas mãos representa a nossa vida terrena — limitada, frágil e passageira — que, como diz o salmista, “passa como um breve pensamento.” Salmos 90:9 (NAA). Já o oceano sem limites diante de nós simboliza a vida eterna que Deus preparou para todos os que nEle creem. O contraste é profundo: por mais que tentemos segurar a vida aqui, ela inevitavelmente escorre, mas à nossa frente está a promessa de uma existência sem fim, abundante e plena na presença do Senhor.

Essa imagem nos desafia a não viver apenas para o que escapa de nossas mãos, mas a levantar os olhos e fixar a esperança no oceano da eternidade que nos aguarda em Cristo Jesus. Aqui podemos acumular bens, buscar prazer, conquistar títulos e prestígio, mas tudo passa como vapor. Quantas vezes vemos pessoas batalharem por reconhecimento humano e, de repente, perderem a saúde, a juventude ou até a própria vida? A realidade é que nada do que é terreno pode nos dar segurança absoluta. Mas o que o Senhor nos promete vai muito além do que conseguimos enxergar, ouvir ou imaginar.

Jesus mesmo nos assegurou: Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu lhes teria dito. Pois vou preparar um lugar para vocês. E, quando eu for e preparar um lugar, voltarei e os receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, vocês estejam também.” João 14:2–3 (NAA). Essa é a nossa esperança viva: existe um lugar reservado para nós na eternidade.

Paulo também falou de uma experiência extraordinária: ele foi arrebatado ao terceiro céu. Ele não entra em detalhes, mas deixa claro que a glória que viu era tão grande que nem palavras humanas poderiam descrevê-la: Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos, foi arrebatado até o terceiro céu (se no corpo ou fora do corpo, não sei; Deus o sabe). E sei que esse homem — se no corpo ou fora do corpo, não sei, Deus o sabe — foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras indizíveis, que ao ser humano não é permitido falar.” 2 Coríntios 12:2–4 (NAA).

Na tradição bíblica, a palavra “céu” tem diferentes sentidos. O primeiro céu é o natural, visível: a atmosfera, as nuvens, os pássaros em voo. O segundo céu é o espaço sideral, o firmamento onde se encontram o sol, a lua e as estrelas, como descrito no Salmo: Os céus anunciam a glória de Deus e o firmamento proclama a obra das suas mãos.” Salmos 19:1 (NAA). Já o terceiro céu é a dimensão espiritual, o paraíso, a morada de Deus e o destino final dos salvos em Cristo. Foi para esse lugar que Paulo foi arrebatado e ouviu palavras indizíveis, que não lhe era permitido revelar. Isso nos mostra que existe uma realidade eterna muito além daquilo que nossos olhos podem ver e nossa mente compreender.

Paulo não conseguiu descrever em palavras o que experimentou, mas nos deixou um vislumbre dessa esperança: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.” 1 Coríntios 2:9 (NAA). Até o oceano, em toda sua imensidão, não é suficiente para ilustrar a grandeza da eternidade que nos aguarda. O Céu é infinitamente superior, incomparável a qualquer imagem que possamos criar. É o destino do povo de Deus, a nossa herança incorruptível, a nossa morada definitiva.

A vida aqui é como o vapor que logo se dissipa, como a flor que nasce pela manhã e murcha ao entardecer. Quantos de nós já não sentimos como os dias passam rápido e como tudo parece escorrer pelos dedos? Mas a eternidade com Jesus jamais terá fim. Lá não haverá morte, dor ou despedidas, apenas plenitude de vida, comunhão perfeita e alegria sem limites diante do Senhor.

Por isso, precisamos aprender a olhar menos para a água que escorre de nossas mãos e mais para o oceano infinito que nos espera. Essa perspectiva muda nossas escolhas, nos ajuda a viver com esperança e nos faz valorizar o que realmente importa: amar a Deus, servir ao próximo e manter os olhos fixos em Cristo.

Nossa vida aqui escorre como água entre os dedos, mas à nossa frente está o oceano da eternidade em Cristo, onde não haverá fim para a alegria e a comunhão com o Senhor.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

08/set/25

 

ESCRAVOS QUE ENCONTRARAM A VERDADEIRA LIBERDADE

“Mas, agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, vocês têm o seu fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna.” Romanos 6:22 (NAA)

Quando ouvimos a palavra “escravidão”, logo pensamos em algo terrível. Nossa memória vai direto para a escravidão humana que marcou o século XVIII, quando milhões de pessoas foram arrancadas de suas terras, vendidas como mercadorias e obrigadas a viver sem dignidade, sem liberdade e sem esperança. Essa foi uma das maiores manchas da humanidade e deixou feridas que ainda hoje afetam a sociedade.

Por isso, pode soar estranho quando a Bíblia também usa a palavra “escravo” para falar da nossa relação com Cristo. Como algo tão doloroso e negativo pode se aplicar à fé? O apóstolo Paulo nos ajuda a entender esse aparente paradoxo. A escravidão humana destrói, oprime e mata; já a escravidão a Cristo faz o oposto: liberta, restaura e dá vida.

Paulo se apresenta como “servo de Cristo Jesus.” Romanos 1:1 (NAA). No original, a palavra pode ser traduzida como “escravo”, alguém que pertence totalmente a outro. Mas, nesse caso, não se trata de uma submissão forçada. É uma entrega voluntária, fruto do amor e da fé. Pertencemos a Cristo porque Ele nos comprou, não com ouro ou prata, mas com o sangue precioso derramado na cruz. E, quando nos rendemos a Ele, descobrimos que fora de Cristo não existe verdadeira vida.

Essa liberdade em Cristo não é licença para viver sem limites ou fazer tudo o que queremos. É liberdade do poder do pecado, da condenação e do medo da morte. Paulo escreveu: “Porque o escravo que foi chamado no Senhor é liberto do Senhor; e, da mesma forma, o livre que foi chamado é escravo de Cristo.” 1 Coríntios 7:22 (NAA).

No Antigo Testamento, havia um costume que ilustra bem essa ideia. O escravo hebreu poderia ser liberto no sétimo ano. Mas, se amasse seu senhor e não quisesse sair, tinha a opção de permanecer para sempre na casa. Nesse caso, sua orelha era furada com uma sovela junto à porta, como sinal de compromisso (Êxodo 21:5-6). Esse gesto não nascia da obrigação, mas do amor e da fidelidade.

Muitos estudiosos enxergam nessa prática uma figura do cristão: servimos a Cristo não por imposição, mas porque decidimos, por amor, permanecer ao lado dEle para sempre. E repare em um detalhe maravilhoso: a marca era feita junto à porta. Quem será essa Porta? Jesus mesmo nos responde: “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem.”  João 10:9 (NAA).

Lembro também de uma propaganda que marcou minha juventude. Jovens aguardavam a “Maria Fumaça” numa estação, mochilas nas costas, cantando: “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar do jeito que quiser. Não usa quem não quer.” Era a propaganda da calça jeans marca Ustop, e refletia bem o espírito jovem daquela época: associar liberdade à moda, ao estilo, à independência.

A juventude sempre teve uma ligação forte com a ideia de liberdade. Muitas vezes isso se traduz em frases como “viver sem limites” ou “fazer tudo o que quiser”. Não dá para generalizar, mas é verdade que esse tempo da vida traz mais sede de experimentar, testar fronteiras e afirmar identidade. O problema é que essa busca, quando mal dirigida, pode levar a novas formas de escravidão.

O mundo continua oferecendo muitos significados para a palavra “liberdade”. Para alguns, é não ter dono. Para outros, é viver sem regras. Mas a Bíblia ensina que, no fundo, todos servimos a alguém ou a alguma coisa. Alguns são escravos do dinheiro, outros do poder, outros dos prazeres ou da opinião alheia. Essa busca desordenada acaba se transformando em prisão.

Isso fica claro em situações do dia a dia. Há quem seja escravo do trabalho, vivendo para produzir, sem tempo para a família e sem descanso. Outros são escravos das redes sociais, medindo seu valor em curtidas e seguidores, sempre comparando a própria vida com a dos outros. Muitos ainda são escravos de vícios: álcool, drogas, jogos, pornografia. Essas coisas prometem satisfação, mas acabam trazendo vazio, tristeza e solidão. Correntes invisíveis que prendem o coração.

Cristo veio para quebrar essas correntes. Ele disse: “Se, pois, o Filho os libertar, vocês serão verdadeiramente livres.” João 8:36 (NAA). Essa liberdade não significa ausência de dificuldades, mas uma vida transformada, na qual não somos mais dominados pelo pecado. A diferença é simples: a escravidão do mundo prende e mata; a escravidão a Cristo liberta e dá vida.

Na prática, ser servo de Cristo é escolher viver para agradar a Deus acima de tudo. É optar pela verdade quando mentir parece mais fácil. É perdoar quando a raiva grita mais alto. É amar quando tudo ao redor ensina a odiar. É andar na contramão do egoísmo e seguir no caminho do amor. Isso só é possível pela graça. Jesus disse: “Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração; e vocês acharão descanso para a sua alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” Mateus 11:29-30 (NAA).

Na verdade, existem dois tipos de serviço, e seus frutos são totalmente distintos. O pecado é um senhor cruel: promete prazer, mas entrega culpa e morte. Cristo, ao contrário, é o Senhor que dá sentido à vida, acolhe como filhos e guia com amor. Servir a Cristo não é escravidão, mas a única forma de experimentar a verdadeira liberdade.

Em Cristo, não precisamos viver acorrentados às expectativas dos outros. Nele encontramos liberdade para seguir a vontade de Deus. Isso nos leva a uma pergunta necessária: o que tem controlado a minha vida? O que tem me aprisionado? Seria o medo, a ansiedade, a busca por aprovação, algum vício ou desejo? Paulo foi direto ao afirmar: “Se ainda estivesse procurando agradar a homens, não seria servo de Cristo.” Gálatas 1:10 (NAA).

No século XVIII, milhões foram forçados à escravidão com correntes de ferro. Hoje, muitos ainda vivem aprisionados por correntes invisíveis. Mas a mensagem do evangelho continua a mesma: somente em Cristo encontramos a liberdade que precisamos. Ele nos chama a sermos Seus servos, e é nessa entrega que descobrimos dignidade, propósito e vida eterna.

A escravidão humana rouba a vida; a escravidão a Cristo devolve dignidade, dá liberdade e conduz à eternidade.

 A liberdade não é ausência de dono, mas escolha de senhor. O pecado aprisiona; Cristo é o único Senhor que transforma a escravidão em vida e a entrega em verdadeira liberdade.”

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

07/set/25

 

O DEUS QUE EMPREENDE É O DEUS QUE RETRIBUI

 “Porque o Senhor é Deus de retribuição; certamente retribuirá.” Jeremias 51:56 (NAA)

Nos dias de hoje, muito se fala sobre empreendedorismo. O empreendedor é visto como alguém visionário, capaz de enxergar oportunidades onde outros veem apenas problemas; alguém que tem coragem para assumir riscos, resiliência para suportar fracassos e disposição para aprender com os erros. Empreender é inovar, adaptar-se às mudanças rápidas e agir com propósito, buscando gerar impacto além do lucro.

Mas quando olhamos para a Bíblia, vemos que o próprio Deus é o maior empreendedor da história. Ele criou o mundo, sustenta a criação, redimiu a humanidade em Cristo e continua chamando pessoas para cooperarem com Sua obra. Ele trabalha, vela e retribui. Sua obra é contínua e perfeita, e Ele nos convida a participar de Seu empreendimento eterno.

Desde o princípio, o Senhor se revela como um Deus que trabalha. Quando  terminou a obra que havia feito; e descansou no sétimo dia (Gênesis 2:2).  Aqui está o maior exemplo de empreendimento: planejamento, execução, conclusão e descanso.

O Salmo 104:27-30 (NAA) mostra que esse trabalho não terminou no Éden: “Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo. Se lhes dás o alimento, eles o recolhem; se abres a tua mão, ficam saciados de bens. Se escondes o rosto, ficam perturbados; se lhes tiras a respiração, morrem e voltam ao pó. Envias o teu Espírito, eles são criados, e assim renovas a face da terra.” Deus é um empreendedor incansável, que sustenta a vida continuamente.

Isaías 64:4 (NAA) acrescenta: “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera.” E Isaías 53:11 (NAA) mostra o empreendimento da redenção: “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si.” O plano de salvação é o maior empreendimento divino.

Esse Deus que empreende, chama homens e mulheres para cooperarem com Ele. Jesus declarou que a seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. (Mateus 9:37-38) Somos trabalhadores do Seu Reino, e não há espaço para a ociosidade. A Bíblia mostra que a preguiça é pecado. Provérbios 6:6 (NAA) ordena: “Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos e sê sábio.” O desejo do preguiçoso o mata, porque as suas mãos recusam trabalhar.” (Provérbios 21:25)

E Paulo foi enfático em 2 Tessalonicenses 3:10 (NAA): “Quando ainda estávamos com vocês, lhes ordenamos isto: se alguém não quiser trabalhar, também não coma.”  Efésios 2:10 (NAA) resume nossa vocação: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” A vida cristã é ativa e engajada. João Batista foi chamado ainda no ventre materno para cumprir sua missão (Lucas 1:13-15), mostrando que todos somos chamados a cooperar no empreendimento divino.

Se Deus é o grande empreendedor, Ele também é o justo retribuidor. Jeremias 51:56 (NAA) nos lembra: “O Senhor é Deus de retribuição; certamente retribuirá.” O apóstolo Paulo confirma em Gálatas 6:7 (NAA): “Não se enganem: de Deus não se zomba. Pois aquilo que o homem semear, isso também colherá.” Essa é a lei da semeadura e da retribuição: cada atitude tem consequências. Jesus ilustra isso em Mateus 25:35 (NAA): Porque tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e me deram de beber.” Mas também adverte em Mateus 25:42 (NAA): “Tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e não me deram de beber.” Nada passa despercebido diante de Deus.

A vida cristã é um empreendimento contínuo. Não existe aposentadoria espiritual. Servimos ao Senhor enquanto servimos às pessoas. Paulo é um grande exemplo. Ele escreveu em 1 Coríntios 15:10 (NAA): “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a graça que ele me concedeu não se tornou vã. Pelo contrário, trabalhei mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus comigo.”

Em Filipenses 1:21 (NAA), ele confessa: “Porque, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro.” Sua vida era vista como oportunidade para realizar a missão. Ele encerra 1 Coríntios 15:58 (NAA) com exortação: “Portanto, meus amados irmãos, sejam firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o trabalho de vocês não é inútil.”

O Senhor é o grande empreendedor. Ele criou o universo, sustenta a vida, redime pecadores e chama trabalhadores para a seara. Ele retribui cada esforço, recompensa cada gesto de amor e corrigirá toda injustiça. Empreender com Deus é viver de forma ativa, rejeitando a preguiça e servindo com dedicação.

Cada palavra, cada obra, cada semente terá sua colheita. No tribunal de Cristo, descobriremos que nada feito nEle foi em vão. O Deus que empreende é o Deus que retribui. E nós, como Seus servos, temos o privilégio de cooperar com o maior empreendimento de todos os tempos: a obra eterna do Reino de Deus.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

06/set/25

 

GRATIDÃO EM TODO TEMPO

“Deem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus.” — 1 Tessalonicenses 5:18 (NAA)

Seu Antonio cuidava do nosso jardim quando morávamos no Mato Grosso. Homem extremamente humilde e servo fiel de Deus, tinha apenas 40 anos, mas as marcas da vida o faziam parecer ter quase 60. Seu rosto carregava sinais de batalhas silenciosas, reflexo da dureza de sua caminhada, que o fazia envelhecer antes do tempo.

De vez em quando, para ajudar no sustento da família, ele nos oferecia legumes frescos colhidos da horta de casa, sempre por um valor quase simbólico. Nunca colocava preço em seus produtos, apenas dizia: pague o que o senhor acha justo. No fim da capina, que muitas vezes durava o dia inteiro debaixo de um sol escaldante, a cena se repetia. Perguntávamos: — Seu Antonio, quanto devemos pelo seu serviço? E ele, com a mesma simplicidade desarmante, respondia: — Me dê o quanto o senhor acha que valeu o meu trabalho.

Esse homem tinha sempre uma experiência para contar sobre a forma como Deus agia em sua vida. Dizia que sua casa não tinha trancas resistentes; ao sair, simplesmente passava o trinco e confiava no Senhor para guardar o lar. Sua fé simples, firme e viva era um testemunho silencioso que nos edificava. Nunca o vimos triste ou amargurado. Pelo contrário, sempre trazia um sorriso no rosto e uma palavra de ânimo no coração, como se a gratidão fosse o combustível de sua vida.

Até hoje, quando falamos sobre gratidão em família, inevitavelmente lembramos dele. O “Seu” Antonio se tornou um símbolo de que a verdadeira gratidão não depende do quanto temos, mas do quanto confiamos em Deus.

Sem medo de errar, posso dizer que, perto de cada um de nós, sempre existem dois tipos de pessoas: aquelas que possuem muito, mas vivem insatisfeitas e reclamando, e aquelas que têm pouco, quase nada, mas agradecem por cada detalhe — e, às vezes, até pelo que ainda não receberam. A diferença não está na quantidade de bens, mas no olhar que cada um lança sobre a vida. Gratidão não é sobre o quanto temos, mas sobre reconhecer que tudo o que recebemos é presente de Deus.

Gratidão é mais do que uma palavra de dicionário. É memória, afeto e a disposição de valorizar cada bem recebido, grande ou pequeno. É guardar no coração os presentes da vida e exercitar, dia a dia, o reconhecimento: primeiro a Deus, depois às pessoas que Ele coloca em nosso caminho — até mesmo nas dificuldades, que tantas vezes se tornam aprendizado.

A Bíblia fala com clareza sobre a gratidão e nos mostra por que, a quem e quando devemos agradecer. E a resposta é simples: sempre, a Deus e às pessoas, porque tudo vem d’Ele.

Por que ser grato? Porque nada do que temos é fruto apenas da nossa força. O ar que respiramos, a saúde que nos sustenta, o alimento na mesa, a salvação em Cristo — tudo vem de Deus. A gratidão nos lembra da nossa total dependência d’Ele. “Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança.” — Tiago 1:17 (NAA). Se cada detalhe da vida é presente d’Ele, então cada detalhe é motivo de gratidão.

A quem devemos agradecer? Primeiro a Deus, a fonte de todas as bênçãos. Mas também às pessoas, porque Ele usa homens e mulheres para cuidar de nós, abrir portas, ensinar lições e nos abençoar de formas variadas. O apóstolo Paulo tinha esse coração agradecido: “Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vocês.” — Filipenses 1:3 (NAA). É bonito perceber que a gratidão não se limita ao céu; ela se expressa também no relacionamento com o próximo. Um “muito obrigado”, um abraço sincero, uma oração de reconhecimento pelo outro — todos são gestos que refletem a presença de Deus em nossa vida.

E quando devemos ser gratos? Sempre. Não apenas quando tudo vai bem, mas também nos dias difíceis. A gratidão não depende das circunstâncias. Ela é fruto da fé que reconhece que, mesmo no sofrimento, Deus continua no controle. “Em tudo, deem graças.” — 1 Tessalonicenses 5:18 (NAA). E ainda: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” — Romanos 8:28 (NAA). Isso significa que até as lágrimas podem se tornar sementes de bênção, e até os vales podem nos levar a novos horizontes.

Quantas vezes reclamamos por algo que parecia ruim, mas depois percebemos que foi a porta para algo maior? Um emprego perdido que abriu espaço para uma oportunidade melhor. Uma enfermidade que levou a família a se unir em oração. Uma porta fechada que, mais tarde, se revelou um livramento. A gratidão não ignora a dor, mas nos ensina a confiar que Deus transforma cada situação em parte de um propósito maior.

Ser grato é também cultivar um novo olhar para a vida. É perceber que o copo meio vazio também está meio cheio. É valorizar a refeição simples, o abraço inesperado, a mensagem de alguém que lembrou de você. Muitas vezes, vemos pessoas com quase nada, como o  “Seu” Antônio, mas que conseguem sorrir e agradecer, enquanto outras, rodeadas de bens, vivem insatisfeitas. Isso nos mostra que a gratidão não nasce da abundância, mas de um coração que reconhece o essencial.

Nos dias de hoje, em que tudo é tão corrido, a gratidão pode facilmente se perder. Corremos atrás de mais e mais, e esquecemos de agradecer pelo que já temos. É como quem vive esperando um grande triunfo e não percebe que as pequenas vitórias de cada dia já são milagres. O simples fato de acordar, andar, falar e respirar já é motivo suficiente para dizer: “Obrigado, Senhor.”

Ser grato é um estilo de vida. É reconhecer que não caminhamos sozinhos. É entender que cada pessoa que cruza o nosso caminho tem um papel no nosso crescimento. É valorizar os detalhes que o mundo chama de comuns, mas que, na verdade, são grandes bênçãos.

Que a gratidão faça parte da nossa rotina. Ao abrir os olhos de manhã, agradeça a Deus pela noite de descanso; agradeça por mais um dia. Ao enfrentar dificuldades, agradeça pela oportunidade de aprender e amadurecer. Ao receber ajuda de alguém, expresse sua gratidão em palavras e atitudes. Isso transforma não apenas a nossa vida, mas também a vida de quem está ao redor.

A gratidão abre portas, cura feridas e fortalece relacionamentos. Ela muda o olhar sobre a vida e aproxima o coração de Deus. Não depende do que temos, mas de quem reconhecemos como fonte de todas as coisas: o Senhor.

A gratidão não nasce da abundância, mas da fé que reconhece cada detalhe da vida como presente de Deus.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

05/set/25

 

SER CRISTÃO HOJE AINDA EXIGE CORAGEM

“Pois o Espírito que Deus nos deu não nos torna medrosos; pelo contrário, o Espírito nos enche de poder e de amor e nos torna prudentes.” 2 Timóteo 1:7 (NTHL)

Você já ouviu falar do “crente agente secreto”? É aquele que trabalha anos em uma empresa e ninguém sabe que ele é cristão. Ou o estudante que termina o curso universitário e, só no dia da formatura, quando aparece no convite o endereço da igreja para o culto de gratidão, alguém comenta, surpreso: “Mas você é crente? Nunca imaginei!”. Hoje, as pessoas, com suas atitudes e palavras tão niveladas, permitem que o tal “crente secreto” passe despercebido, camuflado no meio da multidão.

No meu tempo, isso era quase impossível. O crente era identificado até pela Bíblia que carregava. E quando alguém aparecia na igreja com uma Bíblia pequenininha, sempre tinha um irmão que brincava: “Esqueceu a espada, meu amado? Trouxe só o canivete hoje?”. A Bíblia, o falar, o vestir — tudo identificava os servos de Cristo. Hoje, essa percepção ficou mais difícil, principalmente porque muitos têm se conformado com este século e abandonado valores que sempre foram referência. Valores que não são meros detalhes, mas atributos essenciais àqueles que pertencem ao Reino. Testemunho é o que falta.

E, no entanto, o desafio continua o mesmo: quantas vezes temos vergonha de falar de Jesus no ambiente de trabalho, na escola ou até entre amigos? Quantas vezes preferimos o silêncio para evitar constrangimento? Mas o Espírito Santo nos foi dado exatamente para nos capacitar nesses momentos. Ele nos dá as palavras certas, coragem para testemunhar e amor para não agir com arrogância, mas sempre com humildade.

A presença do Espírito em nós não é apenas para experiências emocionantes ou momentos de consolo. Ele habita em nós para nos tornar pessoas corajosas, cheias de amor e equilibradas em nossas escolhas. Foi isso que Paulo lembrou a Timóteo: não tenha medo, não tenha vergonha de testemunhar Cristo, mesmo que isso signifique perseguição, rejeição ou sofrimento. O chamado é claro: com a força que vem de Deus, esteja pronto até para sofrer por amor ao evangelho.

Esse evangelho do Reino, primeiramente anunciado por Jesus e depois pregado pelos apóstolos — inclusive Paulo — não chegou até nós como uma mensagem moldada para agradar os homens. Paulo foi enfático ao dizer: “O que também recebi, vos entreguei. 1 Coríntios 15:3 (NAA). Portanto, não existe outro evangelho Gálatas 1:8-9. Não há versões alternativas que possam ser escolhidas conforme a conveniência humana. O verdadeiro evangelho tem seu ponto de partida na cruz — lugar de sofrimento e vergonha, reservado aos piores criminosos — mas que, em Cristo, tornou-se o símbolo da maior vitória da história: a derrota do pecado e da morte e a reconciliação definitiva com Deus.

E é importante lembrar: Deus não nos chamou por causa da nossa inteligência, talento ou capacidade especial. Seu plano é claro desde antes da fundação do mundo: Ele nos chamou para sermos Seu povo e anunciarmos a salvação em Cristo. Ele mesmo nos capacita e nos dá graça.

Foi Jesus quem destruiu o poder da morte. Ele não trouxe novidades religiosas ou atalhos, mas revelou plenamente a vontade do Pai através do evangelho: boas notícias de uma vida que não termina, de uma vitória que atravessa a eternidade. “Ele, porém, lhes disse: ‘É necessário que eu anuncie também às outras cidades o evangelho do Reino de Deus, porque para isso é que fui enviado’.Lucas 4:43 (NAA)

A igreja é testemunha viva dessa vitória. Ela crê, prega e vive esse evangelho porque sabe em quem tem crido. Sabe que Deus é fiel e poderoso para guardar aquilo que lhe foi confiado até o dia final. Por isso, mesmo que testemunhar custe lágrimas, ainda assim vale a pena. O testemunho verdadeiro é fruto de uma fé sincera, que não se esconde, mas se expressa em palavras e atitudes.

Conservar vivo o dom de Deus em nós é essencial. Isso significa manter a chama acesa por meio da oração, do estudo da Palavra e do serviço fiel. Quando não cuidamos dessa chama, ela pode se enfraquecer — não porque o Espírito nos abandone, mas porque nós mesmos deixamos de valorizar o que Ele nos concedeu. E quando isso acontece, até o testemunho, que deveria ser alegria e privilégio, passa a ser visto como um fardo.

Nos dias de hoje, ser cristão continua exigindo coragem. Você não precisa de habilidades extraordinárias para testemunhar. Precisa apenas estar disposto a deixar o Espírito agir. Ele fará de você um instrumento de coragem, amor e equilíbrio.

O Espírito Santo nos foi dado para que vivamos sem medo, com amor sincero e com prudência. Ele nos capacita a testemunhar, mesmo quando custa lágrimas, porque em Cristo temos a vitória que venceu a morte e nos garante a vida eterna.

"O Espírito Santo não nos foi dado para ficarmos em silêncio, mas para vivermos com coragem, amor e equilíbrio, mostrando com a vida e com as palavras que em Cristo já temos a vitória eterna."

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

04/set/25

 

QUEM CREU EM NOSSA PREGAÇÃO?

“Quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor?” (Isaías 53:1 – NAA)

Na Bíblia, há perguntas que atravessam séculos até encontrarem resposta. Quando Isaque subia o monte com seu pai Abraão, fez uma pergunta que ecoou por quase dois mil anos: “— Onde está o cordeiro para o holocausto?” Gênesis 22:7 (NAA). Essa pergunta foi respondida na boca de João Batista quando, ao ver Jesus, declarou: “— Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”  João 1:29 (NAA).

Mas em Isaías 53 encontramos uma pergunta diferente, que não pode ser respondida apenas uma vez na história. Ela precisa ser respondida todos os dias: “Quem creu em nossa pregação?” Isaías 53:1 (NAA). Essa não é uma dúvida em busca de esclarecimento, mas um lamento profundo do profeta diante da incredulidade de seu próprio povo. Não era uma mensagem dirigida a povos distantes que nunca tinham ouvido falar de Deus. Era dirigida ao povo que já conhecia, mas havia perdido a essência da fé.

Essa pergunta atravessa os séculos e chega até nós. Hoje também vemos muitos que se acostumaram a participar de cultos belos, organizados, cheios de música, luzes e técnica. Há mensagens preparadas com cuidado e habilidade, louvores bem executados e até profissionais envolvidos na produção. Mas, muitas vezes, falta o essencial: a fé no Cordeiro que foi ferido. Sem essa fé, toda a estrutura se esvazia, e o culto deixa de ser encontro com Deus para se tornar apenas espetáculo humano.

Isaías nos mostra que o verdadeiro evangelho não começa no conforto, mas no escândalo. Não começa na promessa, mas na dor. O evangelho começa na cruz. Antes de falarmos em céu, precisamos falar de sangue derramado. Antes de celebrarmos vitórias, precisamos lembrar da sentença que recaiu sobre o Filho de Deus. Charles Spurgeon disse que antes de se alegrar com as promessas é preciso encarar a sentença. E a sentença é clara: “O castigo que nos trouxe a paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos sarados” Isaías 53:5 (NAA).

Essa verdade confronta o nosso orgulho. Ela mostra que não há nada em nós que possa garantir salvação. Não são nossas obras, nem nossa bondade, nem  nossos dízimos, nem nossos jejuns. Tudo estava sobre Ele, não sobre nós. É por isso que muitos rejeitam essa mensagem. Ela não massageia o ego, não promete fama, não alimenta o desejo humano de glória. Pelo contrário, ela humilha o homem e exalta somente a Cristo.

Certa feita, há muito tempo, evangelizei uma jovem de dezenove anos que nunca tinha conhecido o Jesus da cruz. Hoje, quase cinquenta anos depois, ela continua firme — e é a minha esposa. Ao ouvir a pregação de que Jesus era o Cordeiro que se entregou pelos pecados, ela me disse: “Tenho dezenove anos e nunca ninguém me falou desse Jesus.” Ela havia frequentado igrejas, mas só conhecia o Cristo apresentado em discursos de triunfo e prosperidade. O Cristo profético, que sangra e que chama ao arrependimento, ainda não lhe tinha sido mostrado. Isso acontece até hoje. Muitos esperam um salvador impressionante, um líder de multidões, alguém revestido de pompa e poder humano. Mas Deus enviou um Cordeiro silencioso, que derramou o próprio sangue.

Em nossos dias, infelizmente, há quem apresente um Cristo remodelado. Um Cristo de palco, mas não de cruz. Um Cristo que nunca confronta, que nunca chama ao arrependimento, que não fala de pecado, apenas de sucesso. Esse não é o Cristo de Isaías 53. Não é o Cordeiro que tira o pecado do mundo. O verdadeiro Cristo carrega marcas, e aqueles que creem nele também carregam.

Por isso, “quem creu em nossa pregação?” não é uma pergunta que se responde com palavras. É uma pergunta que se responde com a vida. Aquele que crê mostra essa fé em seu modo de viver. Quem crê não consegue caminhar no pecado como se nada estivesse errado. Quem crê é marcado pelo sangue do Cordeiro, assim como Paulo testemunhou: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” Gálatas 2:20 (NAA).

A fé verdadeira não é popular, mas é real. Ela não se encontra nas multidões que buscam milagres fáceis, mas nos corações quebrantados que reconhecem a necessidade de salvação. Deus não procura os que apenas dizem “eu creio”, mas os que vivem como quem crê. E esses são identificados não pelo aplauso humano, mas pela marca da cruz.

Hoje, a pergunta de Isaías continua ecoando: quem crê? É um chamado e, ao mesmo tempo, uma acusação. Não basta admirar o Cristo da história. É preciso se render ao Cristo da cruz. Não basta ouvir sermões bem preparados. É preciso abrir o coração ao Cordeiro que foi ferido por nós. Não basta estar em um templo. É preciso estar em Cristo.

Essa é a resposta que precisamos dar todos os dias. Não com discursos bonitos, mas com vidas que mostram fé verdadeira. Uma fé que resiste ao pecado, que se rende ao Senhor, que carrega marcas de obediência e entrega. Uma fé que sabe que não há glória sem cruz, nem ressurreição sem morte.

A pergunta de Isaías — “Quem creu em nossa pregação?” — não é eco do passado, mas desafio do presente. Crer significa mais que palavras; é viver marcado pelo sangue do Cordeiro, carregando a cruz todos os dias, até que a fé se transforme em visão.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

03/set/25

 

A PORTA PARA A VERDADE

Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8:32 (NAA)

Jesus ensinava usando parábolas. Eram histórias do dia a dia, fáceis de entender, mas cheias de significado. Com elas, Ele mostrava como funciona o Reino de Deus e fazia as pessoas pensarem em como colocar a mensagem em prática na vida.

Então, não se assustem se eu usar aqui algo parecido. Claro, não para me comparar a Jesus, mas só para facilitar a compreensão. Do mesmo jeito que Ele, como grande Mestre, usava histórias do dia a dia para ensinar, vou usar um recurso dos nossos tempos: um filme que vi há muitos anos.

Se você já assistiu ao filme O Show de Truman, lançado em 1998, vai compreender plenamente o texto de hoje. Se ainda não viu, não tem problema: as lições bíblicas que ele nos inspira, e que serão expostas neste texto, permanecerão claras e registradas em seu coração. O filme ainda pode ser encontrado em algumas plataformas de mídia, como a Netflix, e eu recomendo que você assista, pois vale a pena. Mas, caso não queira ou não possa assistir, deixe-me fazer um breve resumo para que possamos extrair juntos os ensinos que ele traz. Bem, vamos lá!

O filme nos apresenta a vida de um homem que cresceu sem saber que era o protagonista de um programa de televisão. Truman Burbank vive em uma cidade aparentemente perfeita, mas totalmente artificial. Tudo ao seu redor — pessoas, cenários e acontecimentos — é rigidamente controlado pelo diretor Christof, um “deus do sistema” que tudo vê e tudo dirige. Seu nome, sugestivamente, remete a “Cristo”, mas, na verdade, representa uma paródia de péssimo gosto do verdadeiro Pai Criador do universo.

Esse falso “senhor”, que pensa deter o controle de todas as coisas, oferece apenas uma providência ilusória: “segurança” em troca de obediência, “cuidado” em troca de submissão. Busca controle, mas não comunhão; deseja adoração, mas sem amor. Aqui vemos uma diferença fundamental entre o falso e o verdadeiro Deus.

Biblicamente, o Senhor governa preservando nossa liberdade e dignidade, enquanto Christof governa suprimindo-as. Quando Truman tenta sair do sistema, Christof convoca uma tempestade para impedi-lo — um “milagre” ao avesso, que usa a criação não para salvar, mas para manter a mentira. Diferente disso, o Deus da Bíblia – o nosso Deus – abre caminhos no mar para libertar o seu povo (Êx 14:21-22) e acalma tempestades para dar paz (Mc 4:39).

Para quem aprecia filosofia — e eu confesso que tenho grande interesse pelo tema — o clímax do filme é profundamente simbólico e cheio de reflexões marcantes. A narrativa mostra Truman rompendo com um sistema fictício para encarar a verdade e assumir sua liberdade, ainda que isso lhe traga dor. O enredo expõe a vigilância como ferramenta de controle e denuncia a transformação da vida em espetáculo e mercadoria. Antecipando nossos dias, o filme nos provoca a refletir: até que ponto nossa própria realidade não tem sido moldada por algoritmos, consumo e ilusões midiáticas? Há um alerta contra isso: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”  Romanos 12:2 (NAA).

Truman chega ao limite do seu mundo, bate na parede pintada de céu e encontra uma porta. Isso mostra que existe mais realidade além do que parecia ser o fim. O desejo dele de atravessar essa porta lembra a verdade sobre nós, criados à imagem de Deus: fomos feitos para buscar algo maior e viver na verdade. Nós fomos feitos para a verdade, não para a vitrine; para a liberdade, não para a manipulação. E aqui a cena se conecta com a revelação de Cristo: “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, será salvo. Entrará e sairá, e achará pastagem” (Jo. 10:9, NAA). Truman atravessa uma porta no cenário artificial para encontrar a realidade; nós atravessamos a Porta viva, que é Jesus, para encontrar a vida eterna.

O trauma de Truman com a água nasceu da “morte” encenada do pai e o manteve cativo por anos. No entanto, é atravessando o mar que Christof ergue contra ele que Truman encontra a liberdade, em uma cena que lembra um batismo às avessas: pelo medo, renasce para uma vida nova. Essa travessia ecoa a jornada de Israel, quando o Senhor abriu o Mar Vermelho para libertar o povo da escravidão (Êx 14:21-22). O que parecia barreira tornou-se caminho para a vitória. Assim também em Cristo: o batismo marca nossa passagem da escravidão do pecado para a vida nova (Rm 6:4).

Essa história nos lembra do Evangelho. Cristo não é como Christof. O verdadeiro Cristo não manipula, mas chama; não aprisiona, mas liberta. Ele nos conduz pela verdade, mesmo que isso nos tire de ambientes aparentemente confortáveis.

No nosso caso, a porta que Truman atravessa aponta para Aquele que disse: Eu sou a porta; quem entrar por mim será salvo.”  Jo. 10:9 (NAA). Enquanto Truman entrou em um mundo novo, ainda incerto, todo aquele que atravessa pela fé a Porta que é Cristo encontra vida abundante e eterna. Essa porta não leva a um estúdio maior ou a mais uma ilusão, mas à realidade definitiva do Reino de Deus, onde há perdão, liberdade e comunhão verdadeira.

Cristo é a Porta que não apenas abre o caminho, mas também garante segurança, porque Ele mesmo disse: Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” Jo. 10:10 (NAA).

Assim como Truman, todos nós precisamos decidir se permaneceremos sob o céu pintado de ilusões ou se confiaremos em Cristo para viver a realidade plena. Pode ser assustador deixar para trás as “seguranças” que conhecemos, mas é apenas ao atravessar a Porta que encontramos a vida verdadeira.

Deus não pinta um céu falso para nos entreter; Ele abre um caminho verdadeiro para nos salvar. Em Cristo, encontramos a liberdade de viver não sob manipulação, mas na luz da verdade.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

02/set/25

  ENTRE AS MÃOS, OS PÉS E A PALAVRA DE DEUS “Na verdade, amas os povos; todos os teus santos estão na tua mão; postos serão no meio, entre...