DERRUBANDO OS LUGARES ALTOS

“Os lugares altos, porém, não foram tirados; contudo, o coração de Asa foi totalmente fiel ao Senhor durante toda a sua vida.”  1 Reis 15:14 (NAA)

Asa reinou sobre Judá por cerca de quarenta e um anos. Foi lembrado como um líder reformador, alguém que procurou restaurar o culto verdadeiro em meio a uma geração marcada pela decadência espiritual. Ele promoveu mudanças importantes: expulsou os prostitutos cultuais (1 Reis 15:12), removeu os ídolos, destruiu imagens pagãs, destituiu sua avó Maaca por causa da idolatria (1 Reis 15:13) e renovou o altar do Senhor (2 Crônicas 15:8).

Todavia, todo o vigor espiritual demonstrado pelo rei Asa revela um paradoxo interessante: um homem de coração fiel a Deus que, mesmo assim, não conseguiu eliminar completamente as práticas idólatras do seu povo.

Esse texto chama atenção porque apresenta um rei dedicado, alguém que amava o Senhor, mas deixou “lugares altos” de pé — locais de adoração que, em tempos antigos, podiam até ser usados para cultuar o próprio Deus, mas que, com o passar dos anos, se misturaram com práticas pagãs. Esses santuários acabaram se tornando símbolos de um culto sincrético, uma mistura entre o verdadeiro e o falso, entre o espiritual e o cultural. Asa buscava o Senhor com sinceridade, porém não conseguiu purificar completamente o ambiente de adoração do seu povo. Essa realidade nos leva a refletir sobre o que ela representa para nós hoje.

Aqui está o contraste: um coração fiel diante de práticas imperfeitas. De um lado, lemos: “Os lugares altos não foram tirados” — uma falha prática. De outro, “seu coração foi fiel ao Senhor” — uma fidelidade interior. Essas duas afirmações mostram que Deus avalia primeiro o coração, antes da aparência. Asa amava o Senhor, mas sua obediência não era completa. Seu zelo foi verdadeiro, embora limitado.

O texto não apresenta um exemplo a ser seguido cegamente, mas traz uma lição importante: Deus reconhece a fidelidade mesmo em meio à imperfeição humana. É como se o Senhor dissesse: “Asa não fez tudo certo, mas Me buscou com sinceridade.”

Essa tensão entre coração e prática é muito atual. Assim como Asa, muitos crentes hoje servem ao Senhor com sinceridade, mas ainda mantêm “lugares altos” na vida — áreas que não foram totalmente entregues a Deus. São hábitos, atitudes, costumes ou valores culturais que resistem à transformação do evangelho.

Esses “lugares altos” modernos podem assumir muitas formas: tradições colocadas acima da Palavra, crenças populares misturadas à fé, dependência emocional de experiências em vez de obediência à Escritura, ou simplesmente uma acomodação espiritual.
São os altares que continuamos permitindo que fiquem de pé. E o perigo não está em reconhecer que eles existem, mas em aceitar que permaneçam ali.

Asa nos mostra que é possível ter um coração sincero e, ainda assim, carregar falhas não resolvidas. O problema surge quando paramos de lutar contra essas falhas. Nos primeiros anos de reinado, Asa foi exemplo de coragem e confiança, mas no final de sua vida se afastou dessa dependência de Deus. Passou a confiar em alianças humanas e perdeu a sensibilidade espiritual (2 Crônicas 16:7–9).

A trajetória de Asa nos ensina que o verdadeiro perigo não é começar com fraquezas, e sim terminar acomodado. O rei que começou derrubando ídolos terminou o reinado sem disposição para remover os últimos altares. O texto diz que, no fim, sua vida foi marcada por doenças e distanciamento espiritual. Ele se afastou da comunhão com o Deus que um dia buscou com tanto fervor.

Por isso, Asa não deve ser visto como modelo de fé, mas como alerta. Seu coração era fiel, porém suas mãos deixaram altares em pé. Deus não exige perfeição imediata, mas espera rendição constante. O cristão verdadeiro é aquele que, mesmo consciente de suas falhas, não se conforma com elas.

Em nossos dias, os “lugares altos” podem representar qualquer coisa que tome o lugar de Deus no coração: orgulho, materialismo, vaidade, ressentimentos, autossuficiência, ou até a busca por reconhecimento religioso. O Senhor continua chamando o Seu povo à pureza do culto e à sinceridade do coração. Ele quer ser o centro, não apenas parte.

Ter o coração fiel não significa viver sem erros, e sim caminhar em arrependimento contínuo. A diferença entre Asa e um servo fiel hoje está na disposição de deixar o Espírito Santo derrubar o que ainda está de pé. O crente maduro não ignora seus “lugares altos”; ele os reconhece e os entrega a Deus para que sejam transformados.

A fidelidade verdadeira é progressiva. É um processo de limpeza interior que dura toda a vida. Deus se alegra quando vê em nós o desejo de mudar, mesmo que ainda não tenhamos vencido tudo. Ele sabe que a obediência total é fruto da graça, e não do esforço humano.

Assim como Asa, cada um de nós tem a chance de escolher: manter os lugares altos em pé ou permitir que o Senhor derrube o que impede a plenitude da adoração.

A fidelidade não é a ausência de falhas, mas o desejo constante de remover o que ainda impede o coração de pertencer totalmente a Deus.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

08/nov/25

 

A MENSAGEM DO EVANGELHO NÃO MUDOU

“E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de anunciar Jesus, o Cristo.” Atos 5:42 (NAA)

Se olharmos com atenção para o livro de Atos dos Apóstolos, perceberemos algo curioso: ele não tem um final. Diferente de outros livros da Bíblia, Atos termina de forma aberta, como se sua história ainda estivesse sendo escrita. E de fato está. O último capítulo desse livro é vivido pela igreja dos nossos dias — por mim, por você, por todos que continuam a anunciar Jesus ao mundo.

A mensagem deixada pelos apóstolos é clara e direta. Em Atos 5:42 (NAA) lemos que “todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de anunciar Jesus, o Cristo.” Esse versículo resume o coração da igreja primitiva: perseverança, fidelidade e constância na missão. Mesmo diante de perseguições, prisões e ameaças, os discípulos não desistiram. Eles não se calaram, não se esconderam, nem recuaram diante da pressão. Continuaram firmes, anunciando a mesma verdade que transformou suas vidas — Jesus está vivo!

Quando Pedro e os outros apóstolos afirmavam que “Jesus é o Cristo”, estavam declarando algo poderoso: todas as promessas antigas haviam se cumprido. O Messias tão esperado havia vindo — o próprio Filho de Deus. Dizer que “Jesus é o Cristo” é afirmar que Ele é o Enviado de Deus, o Salvador prometido, aquele em quem todas as promessas da salvação se cumprem.

A mensagem central de Atos é esta: Jesus está vivo. E se nós, hoje, somos a continuidade daquela mesma igreja, não podemos ter uma mensagem diferente. Precisamos pregar com a mesma convicção e alegria: Jesus é o Cristo. Jesus está vivo.

Pedro fez isso logo no dia de Pentecostes, diante de uma multidão em Jerusalém. Cheio do Espírito Santo, ele declarou com ousadia: “A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas.” Atos 2:32 (NAA)

Essas palavras mudaram a história. Milhares de pessoas creram, não porque ouviram uma teoria, mas porque viram a fé viva em homens que testemunhavam um fato. Os apóstolos não pregavam uma religião, mas uma realidade experimentada — Jesus, o crucificado, ressuscitou e continua agindo por meio do Seu Espírito.

Nada mudou para nós. Essa mensagem continua sendo o coração do evangelho. É ela que dá sentido à fé cristã. Sem a ressurreição, a fé seria apenas uma tradição bonita; com a ressurreição, ela se torna vida nova. “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e é vã também a fé que vocês têm.” 1 Coríntios 15:14 (NAA)

Mas, assim como nos dias de Paulo, hoje também há quem tente modificar essa verdade. Em sua carta aos Gálatas, o apóstolo faz um alerta sério: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu pregue a vocês um evangelho diferente daquele que temos pregado, que esse seja anátema. Assim como já dissemos, agora repito: se alguém prega a vocês um evangelho diferente daquele que já receberam, que esse seja anátema.” Gálatas 1:8-9 (NAA)

Paulo escreveu isso porque alguns falsos mestres estavam distorcendo a mensagem do evangelho, acrescentando regras e exigências que nada tinham a ver com a graça de Cristo. Ele usa a palavra “anátema”, que significa amaldiçoado ou separado de Deus, para mostrar o quanto é grave mexer na mensagem original.

O evangelho verdadeiro é simples, mas profundo: a salvação é pela graça de Deus, por meio da fé em Jesus Cristo — nada mais, nada menos. Nenhum esforço humano, nenhum ritual, nenhuma tradição pode substituir o que Cristo já fez na cruz.

Nos nossos dias, o mesmo perigo continua. Há quem tente adaptar o evangelho às preferências do mundo, quem o transforme em promessa de prosperidade ou em um código de moralismo. Mas o evangelho não é um produto para agradar gostos; é a boa notícia do amor de Deus, que transforma pecadores em filhos e oferece vida eterna a quem crê.

Ser igreja hoje é dar continuidade ao livro de Atos. É viver como os primeiros discípulos, testemunhando com palavras e atitudes que Jesus está vivo. É não deixar que a correria da vida ou as pressões da sociedade apaguem o brilho da mensagem que recebemos.

O mesmo Espírito Santo que enchia Pedro, João e Paulo é o que habita em nós. E é Ele quem nos dá força para continuar escrevendo essa história — não com tinta, mas com vidas que refletem o poder do evangelho.

Por isso, a igreja não pode parar. O evangelho não pode ser reinventado. Ele só precisa ser vivido. No templo, nas ruas, no trabalho, nas casas — como diz Atos 5:42 (NAA) —, a nossa missão é continuar proclamando que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo.

E quando alguém olhar para nós, que veja não uma religião, mas um testemunho vivo. Que cada gesto, palavra e atitude revele que o mesmo Jesus que andou na Galileia ainda caminha conosco hoje.

“A história de Atos não terminou — ela continua em cada cristão que vive e anuncia que Jesus está vivo.”

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

07/nov/25

 

A IGREJA QUE NÃO SE CALA

“Porque não podemos deixar de falar do que temos visto e ouvido.” Atos 4:20 (NAA)

A primeira igreja, a dos tempos de Pedro, João e Paulo, nos deixou lições valiosas que continuam vivas até hoje. Eles nos ensinaram o poder de compartilhar a Palavra de Deus e também as experiências pessoais com Ele. A fé que eles viviam não era apenas teoria, mas prática diária. Tudo o que faziam era impulsionado pela presença de Jesus e pelo desejo de anunciar a verdade que transformou suas vidas.

Nos dias daquela igreja primitiva, o crescimento acontecia naturalmente, porque o coração de cada cristão ardia de amor por Cristo e pelo próximo. Eles falavam com coragem, mesmo quando isso significava enfrentar perseguição. O foco não estava em buscar milagres e manifestações extraordinárias, mas em viver e anunciar a Palavra. Os sinais e maravilhas aconteciam como consequência da fé, não como objetivo. A prioridade sempre foi Jesus, Sua mensagem e o testemunho do que viram e experimentaram ao caminhar com Ele.

Em Atos 4:1-21, Pedro e João foram presos depois de curarem um homem que não podia andar e de pregarem sobre a ressurreição de Jesus. Levados diante do Sinédrio, o conselho religioso mais importante da época, foram interrogados sobre o milagre. Pedro, cheio do Espírito Santo, respondeu com firmeza que tudo fora feito em nome de Jesus Cristo, aquele que havia sido crucificado e ressuscitado. Ele declarou que “em nenhum outro há salvação” e que só Jesus pode reconciliar o ser humano com Deus. Mesmo ameaçados e proibidos de falar sobre Jesus, os apóstolos permaneceram firmes, afirmando que era preciso obedecer a Deus antes que aos homens.

Esse episódio mostra o início das perseguições contra a igreja e revela a coragem dos primeiros seguidores de Cristo. Pedro e João não tinham títulos, riqueza ou poder terreno, mas possuíam algo muito maior: o Espírito Santo. Essa presença os sustentava diante da oposição, transformando o medo em fé e a fraqueza em força. O milagre que realizaram era visível a todos, e o povo glorificava a Deus. Por isso, as autoridades não puderam negar o que havia acontecido. O contraste entre o poder humano e o poder divino ficou evidente — o Sinédrio podia prender os homens, mas não podia calar a verdade.

Essa história continua sendo um espelho para a igreja de hoje. Pedro e João nos ensinam que fidelidade a Deus é permanecer firmes mesmo quando o mundo tenta nos silenciar. Eles sabiam que a missão de testemunhar sobre Jesus era mais importante do que qualquer ordem humana. Assim também nós, em nossos dias, precisamos viver com essa convicção. Quando enfrentamos críticas, pressões ou tentativas de nos fazer desistir, devemos lembrar que a voz de Deus é mais alta que qualquer voz contrária.

Vivemos em tempos diferentes, mas o desafio é o mesmo. Hoje, o “Sinédrio” pode se manifestar de outras formas: na indiferença, no medo de falar de fé em público, na vergonha de se posicionar como cristão, ou na distração de uma vida corrida que deixa pouco espaço para Deus. Mesmo assim, o chamado permanece o mesmo — não podemos nos calar. Quando alguém é transformado por Jesus, isso precisa ser visto, ouvido e sentido por todos ao redor.

Pense, por exemplo, em alguém que viveu anos mergulhado nas drogas e encontrou libertação em Cristo. Ou em famílias que estavam destruídas e foram restauradas pelo amor de Deus. Histórias assim acontecem todos os dias, em todos os lugares. São os “milagres modernos” que mostram que Jesus continua vivo e atuando. E se Ele tem feito tanto em nossas vidas, como poderíamos ficar em silêncio diante de tamanha graça?

A missão da igreja permanece a mesma desde o início: anunciar o evangelho. O “ide” de Jesus ainda ecoa em nossos corações. Como disse o profeta: “Busquem o Senhor enquanto se pode achá-lo; invoquem-no enquanto está perto. Que o ímpio abandone o seu caminho, e o homem mau, os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e ao nosso Deus, porque é rico em perdoar.” Isaías 55:6-7 (NAA). Essa foi também a ênfase da pregação de Jesus e dos apóstolos: arrependimento, perdão e nova vida.

Temos visto portas se abrirem, vidas sendo curadas, famílias restauradas, e pessoas encontrando esperança onde antes havia desespero. Esses são sinais de que Deus continua agindo. Por isso, assim como Pedro e João, não podemos deixar de falar daquilo que temos visto e ouvido. Nossa voz precisa ecoar com amor e verdade, anunciando que Jesus é o caminho, a verdade e a vida.

A igreja nasceu com esse propósito e deve continuar com a mesma chama. Mesmo que o mundo mude, a mensagem permanece a mesma: Deus salva, transforma e perdoa. Quando o evangelho é vivido com sinceridade, ele se torna luz que nenhuma escuridão pode apagar.

 Quando o coração é cheio de Jesus, a boca não consegue ficar em silêncio.”

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

06/nov/25

 

FLECHAS NAS MÃOS DE DEUS

“Como flechas na mão do guerreiro, assim são os filhos da mocidade.”  Salmo 127:4 (NAA)

O Salmo 127 faz parte dos “Cânticos de Peregrinação”, um conjunto de hinos (Salmos 120 a 134) que o povo de Israel entoava ao subir para Jerusalém nas grandes festas do Senhor. Eram canções que expressavam fé, gratidão e dependência de Deus, especialmente nas áreas mais simples e essenciais da vida.

O título já indica sua autoria: “Cântico de Salomão.” Diferente de Davi, que escreveu muitos salmos de súplica e batalha, Salomão compôs este como um salmo de sabedoria. É um poema sobre a vida prática, o trabalho, a família e o lar — e sobre como tudo isso perde o sentido quando não tem Deus como fundamento.

Ele começa afirmando: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.”  Salmo 127:1 (NAA)

Com essas palavras, Salomão nos lembra que toda construção humana sem Deus é frágil. Podemos erguer muros, sustentar rotinas e buscar segurança, mas nada disso permanece se o Senhor não estiver no centro. Quando Deus abençoa a casa, tudo se torna sólido: o trabalho, o descanso, o alimento e até os relacionamentos.

Mais adiante, o salmista apresenta uma das imagens mais belas e profundas da Bíblia: “Como flechas na mão do guerreiro, assim são os filhos da mocidade.”  Salmo 127:4 (NAA)

Essa metáfora carrega um significado poderoso. Os “filhos da mocidade” eram os filhos gerados quando o pai ainda tinha vigor, energia e disposição — normalmente na juventude ou no início da vida adulta. Na cultura hebraica, isso era sinal de bênção, pois significava que o homem teria filhos fortes o bastante para apoiá-lo e honrá-lo na velhice.

Em tempos antigos, filhos representavam continuidade e proteção. Um homem sem descendência era considerado vulnerável, enquanto aquele que tinha filhos bem instruídos era visto como alguém de futuro firme. Assim, o salmista compara os filhos a flechas — instrumentos preparados para alcançar distâncias que o guerreiro não conseguiria atingir sozinho.

Uma flecha não nasce pronta. Ela precisa ser moldada, polida e ajustada para cumprir seu propósito. O mesmo acontece com os filhos: precisam ser formados, guiados e lançados na direção certa. Quando são criados sob a instrução do Senhor, tornam-se flechas bem alinhadas, capazes de voar longe e cumprir a missão que Deus reservou para cada um.

O verso seguinte reforça essa ideia: “Feliz o homem que enche deles a sua aljava; não será envergonhado quando pleitear com os inimigos à porta.”  Salmo 127:5 (NAA)

Ter uma “aljava cheia” significava ter uma descendência firme e preparada. O pai que educava bem seus filhos podia enfrentar as dificuldades da vida com confiança, pois sabia que seu legado continuaria. É uma imagem simbólica, mas profundamente verdadeira: filhos sábios e fiéis são a honra dos pais e a defesa da família.

Nos nossos dias, essa mensagem continua atual. Em um tempo em que muitos pais se sentem sobrecarregados e os lares enfrentam pressões de todos os lados, o Salmo 127 nos convida a voltar o coração ao essencial: deixar que o Senhor seja o arquiteto da casa e o guia dos relacionamentos.

Os filhos não são conquistas humanas, mas dádivas divinas. São herança — e toda herança precisa ser cuidada. Cabe aos pais instruir, corrigir e amar, apontando o caminho da fé e da integridade. Um pai ou mãe que ora e jejua por seus filhos está, na prática, afiando as flechas que Deus colocou em suas mãos.

Do outro lado, os filhos também têm uma responsabilidade. Eles são chamados a continuar o propósito que começou com seus pais — a levar adiante a fé, a bondade, a honestidade e o amor. São flechas lançadas para alcançar lugares que os pais talvez nunca alcancem. Cada um carrega a missão de ser luz em meio à escuridão, esperança em meio ao caos.

E, acima de tudo, esse texto fala ao coração de todos os servos de Deus. Ensina que o lar, o trabalho e o futuro só têm sentido quando o Senhor é o centro da construção. Sem Ele, todo esforço se torna vaidade; com Ele, até o mais simples gesto ganha eternidade.

Na vida moderna, podemos pensar nas “flechas” como tudo aquilo que deixamos para o futuro — não apenas filhos, mas também valores, exemplos e testemunhos. Cada decisão, cada palavra e cada ato de amor é uma flecha que lançamos. Elas atingem corações, abrem caminhos e constroem histórias.

Assim como o guerreiro confia em sua pontaria, precisamos confiar em Deus, que é o verdadeiro Arqueiro. Ele é quem molda, sustenta e dá direção às flechas que saem de nossas mãos.

A verdadeira herança que deixamos não está nas mãos, mas no coração daqueles que amamos. Quando Deus é o centro do lar, cada vida se torna uma flecha que acerta o alvo da eternidade.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

05/nov/25

 

À PORTA FORMOSA: ONDE DEUS RESTAURA O CAMINHO

“Pedro, porém, disse: Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e ande!”  Atos 3:6 (NAA)

O templo sempre foi um lugar especial na história do povo de Deus. Desde o Antigo Testamento, ele era visto como o espaço da presença divina, onde o céu se encontrava com a terra. Ali se fazia oração, ali se apresentavam sacrifícios, ali o povo buscava resposta. Quando Salomão consagrou o templo, Deus prometeu que ouviria as orações feitas naquele lugar. Por isso, não é por acaso que Pedro e João subiam ao templo na hora da oração, como sempre faziam. Eles eram fiéis e constantes, desejosos de buscar a Deus.

Em Jerusalém, o templo estava no centro da cidade e se destacava como um ponto de referência. Mais do que um edifício imponente, ele simbolizava comunhão, adoração e fé reunida. Até hoje, quando chegamos a qualquer cidade, conseguimos identificar uma igreja de longe, seja pela sua localização central ou pela arquitetura que lhe dá destaque. Ela chama a atenção, mesmo de quem nunca entra, e aponta para algo maior.

Esse destaque nos ensina uma verdade importante: o templo sempre foi um lugar de encontro com Deus e com o próximo. Hoje, sabemos que o Senhor não habita em templos feitos por mãos humanas, mas no coração dos que creem e em qualquer lugar onde há adoração sincera. No entanto, o princípio continua válido: Deus se manifesta onde há reverência, oração e fé viva. Pode ser numa grande catedral, numa igreja simples de bairro ou até debaixo de uma árvore — qualquer espaço onde há busca pela presença de Deus se torna lugar de milagres. Como está escrito: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles.” Mateus 18:20 (NAA)

A narrativa de Atos 3 nos mostra um detalhe marcante: a porta do templo se chamava Formosa, símbolo de beleza e grandiosidade. Ali estava um homem coxo de nascença, sentado à beira da entrada. Ele não andava, vivia de esmolas e dependia de outros para ser levado até aquele lugar. Estava perto da adoração, mas não participava dela; diante da porta, mas sem forças para atravessá-la. Quantos hoje vivem a mesma realidade espiritual — veem a beleza da fé, ouvem falar das bênçãos de Deus, chegam até a porta, mas não entram por falta de força interior para dar o passo?

Jesus disse: “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, será salvo. Entrará, sairá e encontrará pastagem.” João 10:9 (NAA). A porta do templo se chamava Formosa, mas a verdadeira Porta é Cristo. É por Ele que temos acesso ao Pai. É por meio d’Ele que entramos na plenitude da vida. Para o homem coxo, estar à beira do templo não resolvia. Ele precisava mais do que uma ajuda passageira. Precisava de um encontro com o Senhor da Porta.

É nesse momento que Pedro e João chegam. O homem esperava receber uma esmola, talvez algumas moedas, mas os apóstolos não tinham prata nem ouro. Tinham algo muito maior: a autoridade e a graça do nome de Jesus. Então Pedro olha para ele e declara: “Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e ande.” Atos 3:6 (NAA). Foi uma palavra de fé e poder — e quando a Palavra é liberada em nome de Jesus, não há paralisia que resista.

O milagre aconteceu. O homem levantou-se, começou a andar e entrou no templo louvando a Deus. O que antes estava do lado de fora, agora estava dentro. O que antes mendigava, agora adorava. O que antes era carregado, agora caminhava sozinho — e com alegria. É isso que o Evangelho faz: restaura dignidade, devolve movimento à alma e reconduz o homem ao caminho da adoração.

Esse relato não é apenas uma lembrança de algo que aconteceu no passado. Ele continua acontecendo hoje. Quantas pessoas estão sentadas “à porta Formosa” da vida? Gente que parece estar tão perto, mas continua do lado de fora. Quantos vivem à beira da fé, acostumados a ouvir falar de Jesus, mas sem forças para entrar por Ele? Estão no banco de uma igreja, ouvem louvores, até admiram a fé, mas ainda não deram o passo de entregar o coração.

Vivemos dias em que muitos buscam apenas “prata e ouro”, soluções materiais, ajuda imediata ou respostas rápidas para aliviar suas dores. É legítimo cuidar do próximo, mas não podemos parar aí, porque o que o ser humano mais precisa não é de uma esmola momentânea, e sim do que só Cristo pode oferecer: vida nova, transformação e restauração.

Assim como aquele homem à porta do templo, muitos hoje procuram apenas um alívio passageiro, mas o Senhor deseja dar-lhes algo eterno. Pedro não lhe deu o que ele queria, mas o que realmente precisava — e essa continua sendo a maior necessidade de todos os que se aproximam da fé.

A história da porta Formosa nos ensina três lições práticas. Primeiro: precisamos valorizar o templo - a igreja - o lugar da comunhão, da fé e da adoração. Segundo: precisamos reconhecer que Jesus é a única Porta, a única entrada verdadeira para a vida eterna. Terceiro: precisamos confiar no poder da Palavra proclamada em nome de Jesus, que ainda hoje levanta os caídos e transforma vidas.

Aquele homem entrou no templo saltando e louvando. Que esse também seja o retrato da nossa vida: gente que um dia estava caída, mas que agora anda na presença de Deus, cheia de alegria.

À beira da porta, muitos permanecem sem forças para entrar. Mas quando Cristo é anunciado, a porta se abre, o caído se levanta e a vida se transforma em louvor.

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

04/out/25

                                                         

                                                   O CHORO DE JESUS

Jesus chorou.” João 11:35 (NAA)

Esta semana, o céu recebeu uma grande amiga e irmã em Cristo. Prefiro não dizer que “a perdemos”, pois só se perde aquilo cujo destino é incerto — e nós sabemos exatamente onde Monalise se encontra: nos braços do Senhor.

Quando alguém que amamos parte, é como se levasse consigo um pedaço de quem somos. A dor da separação é verdadeira, e até Jesus, o Filho de Deus, experimentou esse sentimento de forma profundamente humana e sensível.

Muitos se perguntam: por que Jesus chorou diante da morte de Lázaro, mesmo sabendo que o ressuscitaria e que ele estava salvo?

O episódio está em João 11:1–44, e o versículo que concentra esse mistério é o mais curto de toda a Bíblia — e talvez um dos mais profundos: “Jesus chorou.” João 11:35 (NAA).

Jesus havia recebido a notícia da doença de Lázaro e, de propósito, esperou dois dias antes de ir a Betânia. Ele sabia o que aconteceria. Desde o início, declarou: “Essa doença não é para a morte, mas para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por meio dela.” João 11:4 (NAA). Mesmo assim, quando chegou e viu o túmulo, chorou. Ele sabia que Lázaro ressuscitaria, mas ainda assim se comoveu. Por quê?

Jesus chorou porque ama. O texto deixa claro: “Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro.”  João 11:5 (NAA). Quando Jesus viu Maria e os judeus chorando, Ele também se entristeceu. Cristo não é um espectador frio da dor humana — Ele sente a dor junto com os que sofrem. Seu choro não foi de desespero, mas de compaixão. Mesmo conhecendo o final da história, Jesus se envolveu com o presente da dor. Ele chorou porque o amor verdadeiro não ignora o sofrimento, mesmo quando a vitória já está garantida.

Jesus chorou também pela condição da humanidade. Não chorou apenas por Lázaro, mas por todos nós. O texto diz que Ele “agitou-se no espírito e comoveu-se”  João 11:33 (NAA). No original grego, a expressão indica uma profunda indignação — uma espécie de revolta santa.

Cristo não chorou por incredulidade, mas porque a morte é a consequência mais trágica do pecado — uma distorção da criação perfeita que Ele mesmo formou.
Ao ver o túmulo, Ele contemplou o preço do pecado sobre o mundo que amava. Chorou não por fraqueza, mas por justiça ferida. Era o pranto de quem ama intensamente uma humanidade que insiste em caminhar distante de Deus.

Jesus chorou ainda porque sabia o preço da ressurreição. A ressurreição de Lázaro seria o sinal que precipitaria Sua própria morte. Logo depois desse milagre, os líderes decidiram matá-Lo (João 11:53). Quando Jesus ordenou: “Lázaro, venha para fora!”, Ele sabia que estava chamando a morte para Si mesmo. Lázaro sairia do túmulo, mas Jesus logo entraria nele. Suas lágrimas carregavam o peso da cruz que se aproximava — o choro de quem amava tanto, que estava disposto a morrer para vencer a morte.

Jesus chorou também para mostrar que fé e emoção caminham juntas. Ele não apenas ensinava verdades — Ele as vivia com lágrimas. O Filho de Deus não reprimiu o choro; Ele o santificou. Em Suas lágrimas, aprendemos que quem crê pode lamentar, mas nunca sem esperança. “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” Mateus 5:4 (NAA)

Jesus chorou por amor, porque sentiu a dor de Marta e Maria. Chorou por compaixão, pois a morte ainda fere os corações. Chorou com indignação santa, ao ver o estrago que o pecado causou na criação. Chorou por antecipação, porque sabia que, para dar vida, precisaria entregar a Sua. E chorou por humanidade perfeita, porque o Verbo feito carne sente o que nós sentimos.

As lágrimas de Jesus diante do túmulo de Lázaro não negam Sua divindade — revelam Sua humanidade perfeita. Ele chorou para que, quando nós chorássemos,  soubéssemos que Deus entende.

Hoje também choramos — pela perda de alguém querido, pela ausência que aperta o peito e pela saudade que não passa. Mas nossas lágrimas, diante do Senhor, não são vazias; elas têm sentido e carregam promessa. O mesmo Jesus que chorou em Betânia é aquele que hoje enxuga as nossas lágrimas. Ele não nos pede para deixar de chorar, e sim para chorar com fé — confiando que o pranto do presente será transformado em alegria eterna.

A morte não é o ponto final, é apenas uma vírgula no texto de Deus. A história continua. E um dia, como Lázaro, todos os que estão em Cristo ouvirão a voz do Mestre dizendo:

Venham para fora.”

E então, todo choro cessará. Toda saudade se tornará reencontro. Toda ausência será preenchida pela presença eterna de Jesus.

Até breve, minha amiga. A saudade é só um intervalo entre dois abraços — logo nos veremos de novo, em um lugar cheio de luz e paz, onde não há dor, nem lágrimas, nem despedidas.

“Jesus chorou não por desespero, mas por amor. Em Suas lágrimas, Deus nos ensina que é possível sentir a dor da perda sem perder a esperança da vida eterna.”

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca

03/nov/25

 

                                                        A TORRE DA ESPERANÇA

“Ficarei no meu posto de sentinela e tomarei posição sobre a fortaleza; vigiarei para ver o que Deus me dirá e que resposta terei à minha queixa.” Habacuque 2:1 (NAA)

Na antiguidade, a torre de vigia era uma construção alta e firme, levantada sobre as muralhas das cidades ou nos campos abertos. Dela, o vigia observava atentamente tudo o que acontecia ao redor. Era dali que ele percebia o avanço de um exército inimigo, o surgimento de um incêndio ou qualquer movimento suspeito que pudesse ameaçar o povo. Sua missão era alertar antes que fosse tarde demais.

A torre não servia apenas para fins militares. Em tempos de colheita, agricultores também construíam pequenas torres de pedra nos vinhedos, para que um guarda vigiasse o campo e protegesse os frutos de ladrões ou animais. (Isaías 5:2). Assim, a torre era um lugar de vigilância, proteção e responsabilidade.

Contudo, ela representava algo ainda mais profundo. A torre de vigia era também uma torre de esperança. Era de lá que o sentinela, mesmo cansado, mantinha os olhos voltados ao horizonte, esperando o socorro que viria de longe — o exército aliado que chegaria para reforçar a defesa. Entre o perigo e a ajuda, o vigia permanecia atento, firme, acreditando que o auxílio chegaria no momento certo.

É nesse mesmo espírito que o profeta Habacuque se coloca diante de Deus. Ele declara: “Ficarei no meu posto de sentinela.” Não falava de uma torre física, e sim de um lugar espiritual. Habacuque sobe à sua torre interior — o espaço da oração, da comunhão e da espera. Não busca enxergar inimigos naquele lugar, e sim ouvir o que Deus tem a dizer. Seu coração está tomado por dúvidas e angústias, porém sua atitude revela fé e vigilância. Ele decide esperar, não de braços cruzados, e sim em oração.

A torre, então, se torna o símbolo da alma que busca discernimento em meio à confusão. É o espaço da perseverança e da confiança. Subir à torre é se afastar do ruído das vozes humanas para ouvir a voz de Deus. É colocar-se em silêncio, vigiando, esperando e crendo que o Senhor responderá no tempo certo.

Habacuque mostra que oração também é lamento e queixa. O profeta não esconde sua dor diante do Senhor. Ele diz, em outras palavras: “Senhor, está doendo; não estou entendendo; não estou te ouvindo.” E mesmo assim, permanece no seu posto. Ele não abandona sua torre. Sabe que, enquanto espera, Deus está agindo.

Você tem um lugar só seu de oração? Pode ser no seu quarto, no carro, no quintal ou até no banheiro — o lugar em si não importa. O que realmente importa é ter um espaço onde o coração se aquieta para falar com Deus. Todos nós precisamos dessa “torre de vigia” pessoal, um refúgio onde a alma se recolhe para ouvir o Senhor em silêncio.

Vivemos em um mundo apressado e barulhento, onde poucos ainda separam tempo para esperar em Deus. Queremos respostas imediatas, soluções rápidas, milagres instantâneos. A torre nos ensina outra lição: a de esperar com fé, observar com o coração e confiar mesmo quando nada parece acontecer. É nesse lugar de oração — simples, secreto e sincero — que aprendemos que Deus fala no tempo certo, e que o silêncio d’Ele também é resposta. É o intervalo em que Ele molda nosso coração para receber a resposta. Enquanto o vigia olha para o horizonte, Deus trabalha no invisível.

Quando Habacuque sobe à torre, ele não tem todas as respostas, tem sim uma certeza: Deus o ouvirá. E essa é a fé que sustenta o justo — a fé que observa, espera e não desiste. Em tempos de dor, essa torre se torna o nosso abrigo; em tempos de dúvida, o nosso altar.

Talvez hoje sua torre seja um quarto silencioso, o banco de uma igreja vazia, ou o canto da alma onde você fala com Deus entre lágrimas. É ali que o Senhor ensina a vigiar, a confiar e a esperar o socorro que vem d’Ele. A torre é o lugar da fé madura, onde o crente aprende que a vitória pode demorar, porém o Deus que prometeu nunca falhará.

“Na torre da espera, a fé se fortalece, a alma se aquieta e o coração aprende que o silêncio de Deus não é ausência — é preparo para uma resposta perfeita.”

Que Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz.

Pr. Décio Fonseca


02/nov/25

QUANDO A VIDA É MEDIDA PELA ETERNIDADE “Deste aos meus dias o comprimento de alguns palmos; à Tua presença, o prazo da minha vida é nada.”...